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    O blog Projetos para o Brasil visa ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.

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As eleições, São Paulo e os riscos à ordem democrática I

Posted by waltersorrentino on 13th outubro 2012

As eleições só terminam dia 28 em termos de sua significação e impacto político. Aliás, o 2º turno dá o signo político principal aos resultados, tendo em vista a disputa central em São Paulo.

Por ora, entretanto, está claro que teve curso notável, mesmo que fosse previsível, a vitória das forças da base de apoio ao governo. PT, PSB e PCdoB cresceram à esquerda. Ao centro, o PMDB permanece com o maior número de prefeituras, com forte conquista no Rio de Janeiro, mas não avança, e o PSD passa a ocupar a quarta posição. PV, PRB e PSC avançaram discretamente; PP, PR, PTB, mais PPS e PDT recuaram. À centro-direita e direita, PSDB sofre abalo e o DEM afunda: o PSDB recuou no conjunto e depende do 2º turno em 17 cidades, mas não é certo alcançar a marca de 2008 (13 dessas cidades); o DEM desapareceu do mapa das cidades com mais de 75 mil eleitores. Ambos dependem de três situações emblemáticas: Serra, Arthur Virgílio e ACM Neto.

O PT tem ainda 22 cidades a disputar em 2º turnos, mas será o maior detentor de posições nas megacidades e naquelas maiores de 200 mil eleitores; ultrapassou o PMDB mesmo nas com mais de 75 mil eleitores, pela primeira vez, e este só o sobrepuja nas cidades abaixo dessa marca. O mesmo quanto ao eleitorado que governarão: em vista do que disputam em 2º turno, certamente o PT sobrepujará o PMDB também na esfera local.

O PSB foi o que mais acelerou o crescimento. Aumentou em quase 50% o número de prefeituras, sendo cinco delas do “clube do 2º turno”até agora; foi também o que mais reelegeu mandatários.

O PCdoB se apresentou com um projeto forte e colheu um resultado de acumulação progressiva com índices dos mais elevados, embora partindo de uma base inicial restrita. Sua pequena estrutura e particularmente o tempo de TV restrito impõe constrangimentos importantes para um salto. Foi fundamental se apresentar em disputa de 6 capitais, mais centenas de cidades, e avançar em eleger vereadores com chapas próprias. Na verdade, é a dinâmica de acumulação no país: eleições municipais guardam relação estatisticamente significante com as eleições de deputados federais e estaduais. Assim, o partido falou amplamente a parcelas crescentes da sociedade, reelegeu importantes prefeitos como em Olinda e Juazeiro, vai ao 2º turno em uma capital – Manaus – e em três das cidades com 2º turno – Belford Roxo, Contagem e Jundiaí. Aumentou sua bancada de vereadores em mais de 50%, com crescente votação. Ainda há a vice prefeitura conquistada em Recife, e mais em outras quatro capitais nas quais os comunistas ocupam a vice: São Paulo, Salvador, Belém e Rio Branco. Um caso especial é emblemático: o poderoso polo pecedobista representado por Flávio Dino em São Luis, com vistas à vitória em 2012 e em preparação de 2014 ao governo do Maranhão. Tudo isso será mais aprofundando no exame após o 2º turno, mas representam conquistas importantes para a eleição de bancada federal e estadual fortalecida em 2014.

Importante ainda nos resultado eleitoral nacional foi o maior espraiamento de forças da base de sustentação a Dilma que detêm posições municipais. Mesmo com três fortes cartéis partidários (PT, PMDB, PSDB), quatro das 12 megacidades com mais de 800 mil eleitores (e mais três disputadas em 2º turno) vão para outras agremiações; 16 cidades (e mais 25 disputadas em 2º turno) também. Nessas forças se incluem PSB, PCdoB, PRB, PSC, PTC e outras. Não estranha, assim, que muitas das disputas significantes se deram na própria base de sustentação de Dilma como força em ascenso; legitimamente, decerto, mesmo que em algumas demonstrando miopia política para de fato unir-se para vencer – como é o caso, no 2º turno, em São Luís.

A vitória do campo Dilma é inconteste, por ora, e pode se acentuar com êxitos em São Paulo, Salvador e Manaus, além do fortalecimento do PT, malgrado toda a ofensiva contra si, e o PCdoB. Particularmente em São Paulo, a liderança de Lula na vitória será formidável. Isso tudo será importante alavanca para a indicação de Dilma à reeleição, dependente também da evolução econômica no país, das respostas das forças progressistas à ofensiva política contra as forças populares promovida pelo julgamento no STF da ação 470 e ao rearranjo político a ser promovido pelo governo com vistas à aliança com PMDB na eleição da presidência da Câmara e a eventuais mudanças no Ministério.

 

 

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Hiato político

Posted by waltersorrentino on 21st março 2012

Na cena política, Renato Rabelo de modo certeiro apontou que o governo Dilma está sem agenda política clara para o Congresso Nacional. Malgrado a força de Dilma e do governo, deixa assim prosperar instabilidades na base de apoio. E a amplitude da base, que foi uma grande conquista, vai sendo vilipendiada pela mídia.

Um outro fator, correlato a esse, é menos visível e, no entanto, muito importante. O PT, como maior partido nacional e líder das forças governistas, parece estar sem interlocução política ao nível das exigências. Sua agenda política reflete mais que o desejável movimentos partidistas de suas correntes e propósitos eleitorais próprios. Também a alteração dos petistas na liderança politica da Câmara dos Deputados envolveu disputas internas.

Talvez se fie na força de Lula, que está temporariamente fora da ação política direta. Na verdade, o maestro do PT é Lula, cuja força e habilidade e imensa;  a ausência provisória dele tem alto custo. O governo, de sua parte, não tem um esquema de liderança política direta, de alto teor, que o ajude a avançar no enfrentamento da crise e numa agenda avançada, para o Congresso e para o governo. Com isso, e mais a liderança direta de Dilma na condução política presidencialista, poderia equacionar as instabilidades na base e pacificá-la.

Como se sabe, foi desarticulada qualquer relação nuclear de forças políticas avançadas no centro do governo. Esta seria poderosa, nas atuais circunstâncias. Restaria a outra perna, o PT enquanto partido: ter maior consciência desse hiato, não possibilitando que certo autismo prevaleça.

O Brasil tem pressa, e há forças suficientes para avançar o programa de mudanças necessárias para um novo estágio do projeto vitorioso em 2002. É preciso impulsioná-las, juntando forças e partilhando não só os desafios como também os êxitos. Só uma única força política será insuficiente para vencer o desafio.

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Boas leituras

Posted by waltersorrentino on 23rd setembro 2011

Coisas para a seção Leitura Recomendada são tantas! Mas algumas podem ter passado desapercebidas por vocês, então sugiro:

“Do PCdoB ao PCBlz: musa pop e nova linguagem na política nacional: musa pop e nova linguagem na política nacional”. Interessante o estudo de comunicação de autoria de Neusa Demartini Gomes e Viviane Fontana Graminho que capta a sensibilidade da comunicação da Manuel D’Ávila e do percurso do PCdoB nessa área. PCBlz é referência à marca da campanha de Manuela, “E aí, beleza?”, com a qual conquistou o título de deputada federal mais votada da história do Rio Grande dos varões gaúchos do sul.

Veja em : http://www.izquierdas.cl/revista/wp-content/uploads/2011/07/Demartini-y-Fontana.pdf

***

Em Questão do dia, órgão informativo da SECOM do governo federal, vem de publicar dados sobre a evolução do investimento e informa que obras do PAC terão R$ 1 trilhão em infraestrutura até 2014.

O processo de recuperação da (estrangulada) infraestrutura do país já está em curso; esperemos que não se faça como as obras de SP que demoraram mais de vinte anos. Entretanto, a questão dos investimentos públicos é mais profunda que a questão  da infraestrutura; educação, ciência, tecnologia, conhecimento e cultura, são indispensáveis ao projeto de nação e representam mesmo o futuro da nação. Sem falar em ssaúde e segurança. Mas a base está dada: o desenvolvimento. Em uma década o Brasil pode superar esses impasses se seguir a trilha aberta por Lula e agora avançando com Dilma.

Veja em: http://www.secom.gov.br/sobre-a-secom/nucleo-de-comunicacao-publica/copy_of_em-questao-1/em-questao-do-dia/investimento-para-garantir-crescimento-economico?utm_campaign=Newsletteremquestao&utm_medium=Economia&utm_source=Investimento.Crescimento&utm_content=220911

***

A revista Caros Amigos no. 174 deste ano, trouxe duas interessantes matérias que não sei se todos viram. Caros Amigos tem cumprido bom papel no pensamento crítico.

Uma é de Renato Pompeu, saudando a edição da Boitempo Grundrisse, de Marx. Sob a forma de “esboços”, em 1857-58, a obra é seminal para o entendimento de O Capital. Pompeu considera o fato o lançamento mais importante do ano.

A outra é a brilhante entrevista com Lincoln Secco, inteligentemente feita por Julio Delmanto, sobre o novo livro do professor da USP em que analisa a trajetória do PT e o papel de Lula na sua história.

Lincoln Secco é um amigo grato, marxista que respeito muito, de pensamento vivo e crítico; aliás por isso mesmo um dos grandes estudiosos de Gramsci. Não li o livro, mas a entrevista é extremamente motivadora.

Duas pérolas: “Que o PT se reinvente pela esquerda não é impossível, mas eu acho improvável, porque ele não é mais um partido de militantes”. “A tensão dialética entre o impulso eleitoral e a força militante se resolveu na forma de um partido ao mesmo tempo parlamentar e hegemônico nos movimentos sociais”.

Deem uma lida:

http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/component/content/article/156-edicao-174/1947-ideais-de-botequim-grundisse-de-marx-o-lancamento-do-seculo

http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/component/content/article/156-edicao-174/1952-entrevista-lincoln-secco

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Disfunção política

Posted by waltersorrentino on 10th junho 2011

Uma marca central da cena política, das mais preocupantes, é a conduta do PT nesse período Dilma. Nada de totalmente novo, mas houve grande recrudescimento da divisão petista.

No maior debate político havido no país no período Dilma, o PT se dividiu na votação do Código Florestal. Não teve clareza exata do foco da questão e do que estava em jogo. Junto com o governo, saiu prejudicado.

Agora, na crise levada ao governo pelo caso Palocci, a substituição de Luiz Sérgio na articulação política está protagonizando outras cenas negativas. “Tá lá o corpo estendido no chão”, mas o PT se digladia. Há três nomes em jogo para sucedê-lo e a pressão sobre Dilma é enorme. Todos os três “estão muito felizes onde estão”, mas na surdina se movimentam. Pregam “mais equilíbrio” na distribuição das funções. De que equilíbrio se trata? Entre as correntes internas do PT! Por que levar esse tipo de instabilidade ao governo? Dilma não merece isso e, espera-se, saberá pôr um ponto de afirmação inequívoco para seu governo.

Espera-se que Palocci saiba tirar lições de ter sido atingido duas vezes pelo raio. Seus trunfos não eram tantos. Poderá continuar prestando serviços privados empresariais ao bloco que o estimulou mas não o sustentou politicamente, como o atesta a conduta da mídia nos dois casos de crise que protagonizou.

Palocci foi o homem providencial que entreviu –  foi estimulado a ver – uma chance política de ouro. Estando assentado que a vitória de Lula necessitava de um pacto com as forças dominantes na economia, a “Carta aos Brasileiros” de 2002 surgiria. Palocci foi o encarregado de articulá-la. Consta que foi escrita na sede da Rede Globo. Lá nascia um novo espaço político: ser o fiador disso e pavimentar o caminho da confiança com a banca. Poderia ser o caminho à presidência, no futuro próximo. A “mosca azul” zunia. A conversão foi completa e conseqüente, até do ponto de vista da vida pessoal. Uma divisão se estabeleceu no PT, já que Dirceu trilhava por outros caminhos. Crises foram levadas ao governo Lula.

O principal, porém, são as lições que o PT  precisa extrair. A divisão recorrente do PT torna-se disfuncional ao processo político do país. Em vez de liderar, impõe.  Em vez de visão política larga e inclusiva, quer fortalecer-se isoladamente. Transfere suas querelas internas ao governo Dilma. Em lugar de um projeto nacional renovado, disputa pragmaticamente posições de poder.

Nunca se subestime o PT, seu papel decisivo na onda progressista no Brasil e América do Sul, mas é hora de um gesto de seus líderes em novas direções, pois sem isso perderá crescentemente apelo na sociedade. Vive uma disfunção política: ficará apenas forte e essa tem sido a “maldição” que afeta os partidos que lideraram projetos de poder no país após a democratização.

Em tempo: o PT se dividiu na votação que visava a cassar o mandato do vereador Netinho de Paula na Câmara de Vereadores de São Paulo. Negou qualquer voto de apoio a uma aliança antiga e sólida, num processo insano de baixa perseguição política ao vereador que é candidato a prefeito de São Paulo. É grave.

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Mais PT, menor margem de manobra

Posted by waltersorrentino on 3rd junho 2011

A situação do governo, neste momento, é a de quem vive um determinado tipo de crise política. A intensidade e profundidade são evidentes.O mesmo diagnóstico parte de onze entre dez observadores: é preciso rearticular a condução política do governo e isso exige liderança política da presidente.

Aos cinco meses de governo, a crise não nasceu na esfera da condução econômica. Esta, se tem contradições inerentes – défices, fragilidades cambiais, riscos para a indústria, dificuldades para alavancar investimentos – não deixa entretanto de se diferenciar positivamente da situação mundial. O governo busca mudanças na forma de condução da política macroeconômica, e Dilma chama a si o papel central nessa área.

Veio da política, como se disse. Mas como e por quê? As circunstâncias foram as de fragilização de Palocci e as enormidades de desencaminhamentos do governo e da base – principalmente entre PT e PMDB – na Câmara dos Deputados sobre o Código Florestal. Aliás, este se revelou a maior polarização política ocorrida na sociedade, no governo e no Congresso, tamanha sua importância e tamanho a falta de dimensionamento do que estava em jogo.

A questão de fundo é que, uma vez posto no centro do palco o eixo PT-PMDB, será difícil evitar esse tipo de derivação mais frequente no governo.

Certamente, essa aliança é indispensável à governabilidade. Mas isso levou em contraponto o PT a buscar se fortalecer isoladamente, para fazer frente ao PMDB.  As forças aliadas mais à esquerda foram (relativamente) apartadas do núcleo político do governo. Trata-se de uma situação que não é emuladora entre os dois maiores partidos da base, mas tendencialmente  instabilizadora do ambiente.  É uma lei física: insatisfações se acumularão com o PT e seu hegemonismo que exclui. O PMDB tem alto profissionalismo no jogo político e dá mostras de ter recomposto uma condução unitária para (quase) todo o partido. E faltou liderança política afeita ao conflito, ao imprevisto, ao comando.

Então a crise não diz respeito apenas aos atributos de liderança política necessários da presidente Dilma: se o motor é o estilo de Dilma, o combustível da crise é a opção adotada de eixo político do governo. Dificilmente será diferente, mesmo com juras crescentes de amor entre PT e PMDB.

Se só houver PT no “centro” do governo mais crises ocorrerão. A sua equação política será pobre e dará sinalização apenas de uma estratégia eleitoral de curto prazo para se perpetuar no poder. Mesmo com a ajuda prestimosa da (inexistência de) oposição, o PT não empolga a sociedade como antes, mesmo que em 2012 cresça como parece provável. Parece uma sina: alguns a chamam de peemedebização, um fenômeno bem brasileiro e cruel. Partidos e seus personagens podem ter maior ou menor consciência disso. A aparente prepotência com que agem indicam que a consciência é muito pouca. O fato é que grande parte dos problemas do governo, desde Lula, tem o PT, suas disputas e seu apetite pantagruélico como origem. Seria casual o fato de que um raio atingisse duas vezes à mesma pessoa?

Dilma é PT e o governo tem o PT na alma. Porém, quanto mais o governo se confundir com o PT, tanto menor será sua margem de manobra para o cumprimento dos compromissos assumidos em campanha. Ao lado da governabilidade, será necessário um “centro” de governo a um só tempo com clareza programática e mais amplo. Restará, mais uma vez, o desempenho real da economia e o avanço do projeto de desenvolvimento sob o governo Dilma, mas este tampouco pode ser liderado apenas pelo PT, como aliás se viu no debate do Código Florestal. Seria a diferença entre ter hegemonia política ou praticar o simples hegemonismo próprio do corporativismo.

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