O mapa da violência no Paraná
Posted by waltersorrentino on 2nd maio 2011
Quero que vocês conheçam Cezar Bueno, professor de sociologia da PUC-Paraná e articulista da Gazeta do Povo em Curitiba. É comunista e autor do livro “Jovens em conflito com a lei: liberdade assistida e vidas interrompidas”. Tem crescente influência no panorama daquele Estado. Dia desses vou entrevistá-lo sobre o livro. O tema que ele aborda é importante, porque se criou a mística de que o Paraná é Estado com grande qualidade da vida urbana. Na verdade, por trás disso se esconde uma realidade pesada com respeito à juventude, em nada diferente do resto do país. Por enquanto, fiquem com o artigo O mapa da violência no Paraná.
Com a palavra Cezar Bueno.
A divulgação do último levantamento do Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros (1998-2008), sob orientação do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, aponta o descalabro do sistema de segurança pública na maioria dos Estados e municípios brasileiros e coloca o Paraná na dianteira do triste e abominável espetáculo de homicídios de jovens e adultos.
Nos últimos dez anos, o Estado paranaense saltou do 14º para o 9º lugar no ranking dos Estados brasileiros com o maior número de homicídios entre a população adulta. A cidade de Foz do Iguaçu colecionou, em termos proporcionais, o título de cidade brasileira com o maior número de jovens assassinados. A situação de Curitiba não foi diferente. A capital paraense saiu do 18º para assumir o 5º lugar entre as capitais que lideram os índices de homicídios de jovens no país. A evolução dos atos de violência e morte, fornecidos pelo Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério Saúde, chocam e desconcertam a opinião pública, além de expor a crise do modelo de funcionamento da segurança pública no Estado.
A reação negativa das autoridades públicas frente à veracidade dos dados divulgados demonstra que o processo de redemocratização política do país ainda encontra enormes desafios, no sentido imprimir transparência às ações do Estado e de superar o autoritarismo político das elites políticas e altos burocratas que ocupam funções dirigentes. Por isso, a sociedade precisa, através dos movimentos sociais e entidades representativas, intensificar a luta em defesa da desprivatização dos aparelhos estatais. O controle social mais próximo sobre os órgãos e atividades de repressão criminal é uma maneira de impedir que homens públicos inescrupulosos, burocratas arrogantes e bem remunerados permaneçam em suas salas climatizadas e, do alto de suas poltronas, dirijam-se à população para repetir sempre mais do mesmo. Ou seja, rebater e contestar, com bravatas, a progressão dos números da violência, isto é, de destruição sangrenta de vidas humanas e exposição de bairros inteiros a um processo de etiquetamento sem fim.
Numa sociedade democrática, igualitária e pacífica, a realização de pesquisas acadêmicas em torno da violência serve de alerta às autoridades públicas. Cabe, portanto, aos altos dirigentes de Estado responsáveis pela segurança da população, refletir e adotar medidas políticas capazes de reverter núcleo das causas sociais que gera instabilidade urbana e reproduz atos insuportáveis de agressão, morte, medo e insegurança. A escalada de agressões e mortes em diversos municípios brasileiros exige maior compromisso, transparência funcional e diálogo da cúpula política, responsável pela segurança pública, com todos os setores da sociedade civil organizada.
A grave posição do nosso Estado nas estatísticas que interceptam vidas de jovens e adultos brasileiros aponta a urgente necessidade de os aparelhos de repressão e controle admitirem a gravidade do momento e repensarem maneiras mais eficazes de atuação. Afinal, a utilização de discursos populistas e a arrogância burocrática, como técnica de desqualificar e por em xeque verdades acadêmicas não autorizadas pelo Estado, mostrou-se historicamente mais conveniente a governos despóticos, corruptos e autoritários. Hoje em dia, esse tipo de atitude já não serve para calar a crítica e, tampouco, contribui para resolver as necessidades e direitos constitucionais básicos que o povo atribuiu às instituições de repressão e controle do Estado, com o propósito de prevenir a violência, cuidar e proteger a vida.
JORNAL GAZETA DO POVO: ARTIGO PUBLICADO EM 10/03/2011. CADERNO OPINIÃO, p.2
Tags: juventude, segurança pública
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