• O blog

    O blog Projetos para o Brasil visa ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.

  • Contato

    meu e-mail
  • Twitter

    twitter
  • Facebook

    siga-me
  • Minhas Fotos

    1988_Turma_Unidade_e_Revolucionarização_Escola_Nacional_PCdoB (17)

    1988_Turma_Unidade_e_Revolucionarização_Escola_Nacional_PCdoB (3)

    1988_Turma_Unidade_e_Revolucionarização_Escola_Nacional_PCdoB (2)

    1988_Turma_Unidade_e_Revolucionarização_Escola_Nacional_PCdoB (1)

    1988_Turma_Unidade_e_Revolucionarização_Escola_Nacional_PCdoB (18)

    More Photos
  • Meus vídeos

    Watch videos at Vodpod and more of my videos
  • Compartilhar este Blog

    Bookmark and Share

Archive for the 'Leitura recomendada' Category

Dependência das commodities ameaça economia, diz Palma

Posted by waltersorrentino on 26th janeiro 2012

Valor Econômico, 17/01/2012

Gabriel Palma, da Universidade de Cambridge:

“A desindustrialização que está ocorrendo no Brasil é inconcebível”

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro não pode e não vai crescer mais do que 3,5% a 4% ao ano, porque o governo não criou as condições para crescer acima disso sem gerar distúrbios sérios, avaliou o economista chileno Gabriel Palma, professor da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Um dos maiores especialistas em desenvolvimento econômico e América Latina do mundo, Palma critica a visão “excessivamente otimista” com a economia brasileira, para ele sustentada artificialmente pelos preços elevados das commodities e o forte ingresso de capitais estrangeiros, impulsionados por um mundo em crise.

“A desindustrialização que está ocorrendo no Brasil é inconcebível. É preciso, urgentemente, criar um modelo alternativo de política industrial para que o PIB cresça acima de 4% ao ano de maneira sustentável”, disse. Para ele, a indústria é central para o país evitar a armadilha das commodities, que contamina os países latino-americanos, e em especial Brasil e Chile.

“Se o preço do cobre [principal produto exportado pelo Chile] voltar ao normal, isto é, aos níveis em que esteve em toda a história à exceção dos últimos dez anos, o déficit em conta corrente como proporção do PIB saltará 18 pontos percentuais. No Brasil, se as commodities recuarem, o déficit corrente saltará entre 5 e 6 pontos percentuais como proporção do PIB”, afirmou Palma.

Segundo o economista, os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff perderam uma oportunidade histórica, dada pela crise mundial iniciada em 2008, de desenvolver a indústria nacional. “O Brasil cresce sobre bases que o governo não tem controle, como o fluxo de capitais externos e os preços das commodities”, disse. “Na hora que isso mudar de mão, o Brasil terá sérios problemas.”

Defensor do controle de capitais, Palma também entende que a taxação aplicada pelo governo não é eficaz. “O investidor que recolhe IOF é aquele que tem um mau contador. Os controles no Brasil são muito porosos, o mercado pode escapar facilmente.”

Palma esteve no Brasil, na semana passada, para participar do seminário internacional Latin America Advanced Programme on Rethinking Macro and Development Economics (Laporde), promovido pela Universidade de Cambridge e pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), que sediou o evento. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: O mundo vê o Brasil em 2012 como um país que cresce muito acima das nações ricas, conta com queda na relação entre dívida líquida e PIB, um crescente mercado consumidor doméstico e uma agenda cheia de grandes eventos, como a Copa do Mundo [em 2014] e Olimpíada [em 2016]. O futuro chegou?

Gabriel Palma: Não, muito pelo contrário. Na superfície, de fato, a situação do Brasil é fantástica. Mas, se analisarmos com calma, veremos que o país cresce impulsionado, principalmente, por pontos que fogem de seu controle. Os preços muito elevados das commodities, que sustentam enormes saldos comerciais desde 2004, não vão ficar nesse patamar para sempre. Na realidade, vivemos a fase final da era de boom das commodities. A economia está preparada para essa realidade diferente? Claramente não. Outra base de sustentação do vigoroso crescimento recente, a entrada de capitais estrangeiros em ritmo de tsunami, tem sido impulsionada, cada vez mais, porque o resto do mundo está em gravíssima crise. Qualquer investidor minimamente inteligente vai optar por investir num país que está crescendo do que deixar em um país que está em recessão e as taxas de juros são quase zero, como é o caso dos EUA, da União Europeia e do Japão. Isso vai durar para sempre? Acho que não.

Valor: Em relação ao forte ingresso de recursos internos, no entanto, o governo tem aplicado controles, como a taxação de IOF…

Palma: Esses controles de capitais aplicados pelo Brasil são muito porosos, é muito fácil evitar. Os investidores estrangeiros que recolhem IOF são aqueles que têm um mau contador. O Brasil tem controles de capitais só para dizer que tem, e isso fica claro pela reação do mercado. Não há muita gente reclamando, e isso é sempre um mau sinal quando falamos de taxação. Sem dúvida que é necessário controlar o fluxo de capitais estrangeiros, mas os países latino-americanos, de forma geral, e o Brasil, de forma especial, não estão fazendo com o rigor necessário. E não fazem, porque estão se aproveitando disso.

Valor: Depois de crescer 7,5% em 2010 e cerca de 3% em 2011, o PIB brasileiro deve se acelerar, prevê o governo, para níveis de 4,5% a 5% neste ano. Qual é a sua avaliação?

Palma: O PIB brasileiro não pode crescer mais do que 3,5% a 4% ao ano. Mais que isso: ele não deve crescer além desse nível, a não ser que vocês queiram gerar grandes distúrbios macroeconômicos. O governo brasileiro perdeu, de 2008 para cá, uma oportunidade histórica de desenvolver novas bases de crescimento econômico no Brasil. A saída da crise foi por meio do incentivo desenfreado ao consumo, o que foi positivo em termos, porque o país foi um dos que mais rapidamente deixaram o cenário recessivo mundial. Mas não há, no Brasil, nenhum estímulo para mudanças estruturais, como um apelo maior dos investimentos. Se há uma baixa na economia, o estímulo é sempre ao consumo. Basta ver a mais recente medida, da redução de imposto [do IPI] à indústria de eletrodomésticos [da linha branca, em dezembro de 2011].

Valor: Qual é a saída, então?

Palma: A mais correta seria produzir uma boa política industrial, e não esses planos paliativos que o governo brasileiro está habituado a lançar. A desindustrialização que o Brasil está passando é inconcebível. Em 1980, o parque industrial brasileiro era maior que o da Tailândia, da Malásia, da Coréia do Sul e da China somados. Em 2010, a indústria brasileira representava pouco menos de 15% do que esses países somados produziram. Construir o que vocês construíram e depois destruir, em tão pouco tempo, é um ato de vandalismo econômico sem igual. Por que o Brasil representa cerca de 75% do comércio mundial de minério de ferro, mas apenas 2% do comércio total de aço? Algum economista brasileiro consegue me explicar por que um país que tem a Embraer não consegue ser minimamente competitivo também no segmento de aço? Além das fracas políticas industriais adotadas e do desprezo com a indústria das últimas décadas, não consigo encontrar uma boa resposta. A situação brasileira é cada vez mais frágil.

Valor: Por quê?

Palma: Porque a dependência de commodities torna cada vez mais perigosa a transição de um cenário de bonança nos termos de troca, que é o que o Brasil vive hoje, para outro, em que certa normalidade de preços é estabelecida. Se o preço do cobre [principal produto exportado pelo Chile] voltar ao normal, isto é, aos níveis em que esteve em toda a história, à exceção dos últimos dez anos, o déficit em conta corrente como proporção do PIB saltará 18 pontos percentuais. No Brasil, se as commodities recuarem, o déficit corrente saltará entre 5 e 6 pontos percentuais como proporção do PIB. O erro da América Latina é pegar os preços das commodities como estão hoje e projetar no futuro, o que dá margem para amplos incentivos ao consumo no presente.

Tags: ,
Posted in Leitura recomendada | No Comments »

A trama contra o Ministro Orlando e o PCdoB – Retrato do Brasil

Posted by waltersorrentino on 17th dezembro 2011

Jornalismo sério é possível no país, com independência.

É o que faz RETRATO do Brasil, dirigida por Raimundo Pereira

Nesta edição de dezembro dedica 18 páginas ao desvendamento da trama pela derrubada do ministro Orlando Silva.

Não deixe de ler, esta é só a primeira parte. Desvenda fatos e os analisa desvendando o papel da mídia plutocrática do país e da teia de interesses envolvida no episódio.

Dois meses passados da denúncia, NENHUMA PROVA OU INDÍCIO FOI CONFIRMADO CONTRA ORLANDO SILVA, ao contrário… O denunciante é um farsante e criminoso, condenado por obra do próprio Ministério dos Esportes.

A verdade prevalecerá, mais cedo que tarde. O episódio põe em evidência a proposição do PCdoB e de outras forças políticas: democratizar a mídia e o direito à informação é uma prioridade no país.


Tags: ,
Posted in Leitura recomendada | No Comments »

Iniciada a corrida armamentista no Sudeste Asiático

Posted by waltersorrentino on 9th dezembro 2011

Persisto na linha de acompanhar, nas páginas do blog, o desenvolvimento grave da situação internacional. É um poderoso jogo de hegemonias e contra-hegemonias no qual se plasmam as guerras do futuro, quaisquer que sejam suas modalidades.

Recomendo, por isso, a leitura do artigo informativo de Lee Wong, publicado em Monitor Mercantil.

A ideia central é de que os EUA aumentam sua “presença” militar no Pacífico, em mais um  lance agressivo no geopolítico jogo de xadrez do Sudeste Asiático.

Read the rest of this entry »

Tags: , , ,
Posted in Leitura recomendada | No Comments »

BRICS bloqueiam os EUA no Oriente Médio

Posted by waltersorrentino on 7th dezembro 2011

Quando se viaja muito às vezes se perde registros importantes. Só vi esta matéria hoje. É de Assis Ribeiro e foi postada por Luis Nassif, notável publicista. Acho que é um assunto estratégico que não envelhece. Partilho-o então com os leitores. O blog tem compromisso em partilhar leituras recomendadas.

Por Assis Ribeiro, Enviado por luisnassif, seg, 05/12/2011 – 09:19

BRICS bloqueiam os EUA no Oriente Médio

A reunião dos vice-ministros de Relações Exteriores dos países BRICS em Moscou, ontem, sobre a situação no Oriente Médio e Norte da África é evento de grande importância, como se vê pelo Comunicado Conjunto. Os principais elementos do Comunicado são:

a) Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS) assumiram posição comum sobre o que hoje se conhece como “Primavera Árabe”. Identificaram-se os princípios básicos dessa posição: o foco deve ser diálogo nacional pacífico; nada justifica qualquer tipo de intervenção estrangeira; o papel central nas decisões compete ao Conselho de Segurança da ONU.

b) Os BRICS adotaram posição comum sobre a Síria. A frase chave do Comunicado é “fica excluída qualquer tipo de interferência externa nos assuntos da Síria, que não esteja conforme o que determina a Carta das Nações Unidas.”

c) Os BRICS exigiram “revisão completa” para avaliar a adequação [orig. appropriateness] da intervenção da OTAN na Líbia; e sugeriram que se crie missão especial da ONU em Trípoli para conduzir o processo de transição em curso; dessa comissão deve participar, especificadamente, a União Africana.

d) Os BRICS rejeitaram a ameaça de força contra o Irã e exigiram negociações e diálogo continuados. Muito importante, os BRICS criticaram as ações de EUA e União Europeia de impor novas sanções ao Irã, chamando-as de medidas “contraproducentes” que só “exacerbarão” a situação.

e) Os BRICS saudaram a iniciativa do Conselho de Cooperação do Golfo, que encontrou saída negociada para o Iêmen, como exemplo a ser seguido.

É momento sumamente importante para os BRICS – e também para a diplomacia russa. Cresceu consideravelmente a credibilidade dos BRICS como voz influente no sistema internacional. Espera-se que, a partir da posição comum agora construída sobre as questões do Oriente Médio, os BRICS passem a construir posições comuns também em outras questões regionais e internacionais.

Parece evidente que a Rússia tomou a iniciativa para o encontro da 5ª-feira e o Comunicado Conjunto mais ou menos adota a posição que a Rússia já declarou sobre a Primavera Árabe. É vitória da diplomacia russa, que ganha diplomaticamente, ter obtido o endosso dos países BRICS também no que diz respeito às graves preocupações russas quanto à situação síria, ante ao risco, cada dia maior, de o Irã sofrer ataque de intervenção ocidental semelhante ao que ao que a Líbia sofreu.

Recentemente, Sergey Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, manifestou vigorosamente as crescentes preocupações russas. Moscou mostrou-se frustrada com o ocidente e a Turquia, que têm interferido claramente no caso sírio, não só contrabandeando armas para o país e incitando confrontos que, cada vez mais, empurram o país para uma guerra civil, mas, também, sabotando ativamente todas as tentativas para iniciar um diálogo nacional entre o regime sírio e a oposição.

A posição dos BRICS também será bem recebida em Damasco e em Teerã. Mas, ao contrário, implica dificuldades para os EUA e seus aliados, que investem muito em fazer crescer a tensão contra a Síria e o Irã. A Índia ter participado da reunião em Moscou, e ter assinado o Comunicado conjunto também é notícia particularmente importante. Washington registrará. A Rússia, na prática, conseguiu que os BRICS assinassem clara censura às políticas intervencionistas dos EUA no Oriente Médio.

Muito claramente, não há caminho aberto, agora, para que os EUA consigam arrancar autorização do Conselho de Segurança da ONU para qualquer tipo de intervenção na Síria. A Turquia, em relação à Síria, pode ter dado passo maior que as pernas. E Israel também recebeu uma reprimenda.

A formulação que se lê no Comunicado conjunto dos BRICS – “segurança igualitária e confiável” para os países do Golfo Persa, a partir de um “sistema de relações” – pode ser vista, sim, como repúdio ao advento da OTAN como provedor de segurança para a região. O Comunicado Conjunto dos países BRICS pode ser lido em http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/notas-a-imprensa/comunicado-conjunto-por-ocasiao-da-reuniao-de-vice-ministros-de-relacoes-exteriores-do-brics-sobre-a-situacao-no-oriente-medio-e-no-norte-da-africa-2013-moscou-24-de-novembro-de-2011

Tags: , , ,
Posted in Leitura recomendada | No Comments »

O Mediterrâneo será um “lago da OTAN”

Posted by waltersorrentino on 26th novembro 2011

Na apreciação dos comunistas, pelas palavras de Renato Rabelo, presidente nacional do PCdoB, “estamos diante de uma escalada de guerra do imperialismo que corresponde a uma necessidade essencial do imperialismo. Na ofensiva atual, voltam suas baterias contra a Síria e o Irã”.

O dirigente do PCdoB chamou a atenção para a preparação política e ideológica que as forças imperialistas fazem, através dos meios de comunicação, para tornar suas ações agressivas “justificáveis” perante a opinião pública. “Trata-se de um cinismo atroz”, disse, “apresentar essas guerras criminosas como intervenções humanitárias, em defesa da paz, da democracia e dos direitos humanos”, enfatizou ( acrescento eu: amanhã também em nome dos “interesses ambientais).

Nesse sentido, é preciso uma enorme atenção para os planos políticos do Grande Oriente Médio, sob a batuta do imperialismo dos EUA (com ajuda da Europa e OTAN). Partilho com os leitores um artigo que apresenta um número significativo de informações, análise e perspectiva geopolítica dessa situação. A autoria é de Pepe Escobar e foi postado em Asia Times Online. No centro, a contenda atual na Síria, para isolar o Irã e transformar o Mediterrâneo num “lago da OTAN”.

Os leitores por vezes reclamam de artigos longos. É verdade. Mas alguns temas são mesmo complexos e merecem atenção. e o compromisso do Blog é partilhar coisas interessantes que leio: neste caso enviada pela sempre atenta Mara Loguércio, querida companheira gaúcha.

Não deixe de ler: A estrada pedregosa para Damasco.

Read the rest of this entry »

Tags: , , ,
Posted in Leitura recomendada | 1 Comment »

Consenso do Rio – macroeconomia para o desenvolvimento

Posted by waltersorrentino on 24th novembro 2011

O leitor do blog acompanha o debate em suas páginas sobre os desafios do desenvolvimento. Embora estejamos no fim do ano, digo que este é um dos melhores textos produzidos pela inteligência nacional em termos de abrangência, concisão, foco e medidas. Partilho-o com todos até porque está recolhendo adesões.

A autoria é do INTERSUL – Instituto de Estudos Estratégicos pela Integração da América do Sul - cujo lema é Desenvolvimento para Todos.

Trata-se de um conjunto de proposições solicitadas pelo Intersul a um grupo de economistas, discutidas e aprovadas em encontro no Rio de Janeiro, em 7 de novembro de 2011. A elaboração é do mencionado Instituto, com participação dos economistas Luiz Gonzaga Belluzzo (coordenador), Denise Gentil, Miguel Bruno e José Carlos de Assis. Foi escrito sob a forma de colaboração da sociedade civil ao Mercosul e ao Conselho de Ministros de Economia e Finanças da Unasul.

Não deixem de ler. Pela abrangência, ele não é longo. Mas denso.

IDEIAS GERAIS PARA UMA POLÍTICA MACROECONÔMICA DESENVOLVIMENTISTA CONVERGENTE DOS PAÍSES DA AMÉRICA DO SUL

Objetivo

O Intersul propôs a um grupo de economistas identificar as principais características de uma política macroeconômica estimuladora do desenvolvimento dos países da América do Sul, conciliando estabilidade de preços, crescimento e promoção do pleno emprego. A política deverá assegurar também estabilidade externa, eliminação da miséria e redução dos índices de concentração de renda e de riqueza, com aumento do bem estar social das populações.


Premissas

Três décadas de conformação das políticas macroeconômicas dos países sul-americanos ao neoliberalismo deixaram pouca margem de manobra aos governos regionais para buscar alternativas desenvolvimentistas. O padrão comum, com raras exceções, foi o de promover o Estado mínimo através de privatizações, restringir o endividamento e o investimento público e favorecer a suposta auto-regulação da economia dentro dos cânones da ortodoxia fiscal e monetária. Todavia, os acontecimentos recentes mostraram o fracasso dessa política, que resultou em crise nas próprias economias avançadas e em crescimento lento e instável nas regiões subdesenvolvidas e em muitos países em desenvolvimento, com altos custos sociais, dos quais apenas têm escapado países emergentes que se distanciam do padrão neoliberal.

Onde houve efeitos virtuosos das políticas neoliberais para os países em desenvolvimento – por exemplo, na acumulação de superávits comerciais e de reservas – eles se deveram a condições internacionais favoráveis, notadamente o aumento das importações de commodities minerais e agrícolas por parte principalmente da China, e não às virtudes da política macroeconômica em si. Quanto às melhoras de indicadores sociais, eles resultaram de políticas deliberadas de distribuição de renda adotadas por alguns países, fora do marco neoliberal.   Em síntese, eis os principais eixos dessas políticas:

  1. Política fiscal restritiva independentemente do ciclo econômico e do nível da relação dívida/PIB;
  2. Submissão às pressões do mercado para o pagamento da dívida pública, novamente de forma independente do ciclo econômico e do nível da dívida;
  3. Política monetária restritiva, articulada à política fiscal contracionista, determinadas, ambas, pela busca de investment grade por agências privadas de classificação de risco;
  4. Câmbio flutuante, a despeito de fortes oscilações desestabilizadoras da economia por parte de forças especulativas;
  5. Liberação do fluxo externo de capitais especulativos;
  6. Redução de direitos trabalhistas e previdenciários;
  7. Abandono do planejamento público e das políticas industriais;
  8. Liberação do comércio exterior com o abandono de práticas de proteção da indústria interna;
  9. Controle indireto das políticas macroeconômicas internas pelas agências externas de classificação de risco;
  10. Submissão a outros ditames do Consenso de Washington.

Nem todas essas políticas foram aplicadas por todos os países sul-americanos ao mesmo tempo. Mas, a conjunção dessas medidas teve um efeito macroeconômico comum: a redução rápida e significativa da autonomia da política econômica dos Estados nacionais. Estes foram premidos a se tornarem o fiador dos processos de liberalização financeira e comercial, num contexto marcado pela ausência de uma estratégia consistente de desenvolvimento econômico. Sua lógica interna era clara: conforme o estipulado pela ideologia neoliberal, tratava-se de reduzir o espaço do Estado do bem-estar social e ampliar as oportunidades de lucro corporativo, diminuindo-se ao mesmo tempo a tributação dos ricos em nome da maior eficiência econômica e da competitividade externa. É notável que, exceto pela explosão de preços e quantidades exportadas de commodities, já mencionada, essas políticas produziram resultados pífios, até sua derrocada nos países ricos na crise de 2008, anulando os efeitos de emulação que tiveram nas décadas anteriores na América do Sul.
O quadro internacional agora mudou radicalmente, e é por isso que se justifica essa proposta de uma nova política macroeconômica para a região. De fato, todo o mundo industrializado avançado está em crise financeira, fiscal e de demanda interna, submetendo-se à medicina do ajuste fiscal que classicamente recomendava aos países em desenvolvimento. Ajuste fiscal significa reduzir gasto público, salários e benefícios sociais para comprimir o mercado doméstico e gerar excedentes exportáveis. Numa situação em que todos os países ricos querem exportar mais e importar menos, é duvidoso que tais políticas tenham resultados positivos. Contudo, o fluxo das exportações dos ricos tende a buscar os países emergentes e em desenvolvimento, com o risco de um dumping industrial mundial que lhe venha destruir seu parque produtivo industrial. Países que têm uma base industrial estarão ameaçados, e países que não têm, mas aspiram a tê-la, estão igualmente em risco. Diante disso, no caso da América do Sul, é imperioso acelerar o processo de integração, pois dentro de um bloco econômico será possível proteger os mercados internos sul-americanos, sem ferir as regras da Organização Mundial do Comércio. Individualmente, qualquer país que recorra a barreiras comerciais corre o risco de discriminação e retaliações no mercado internacional. Num bloco, ele pode fazê-lo sem ferir tratados internacionais.


Proposição

Propõe-se uma estratégia macroeconômica de estímulo ao desenvolvimento econômico e social compatível com as necessidades sociais e o equilíbrio político dos países da América do Sul. Essa política, ou melhor, conjunto de políticas teria as seguintes características:

  1. Retomada do princípio do planejamento público como instrumento estratégico para alcançar os objetivos nacionais de desenvolvimento econômico, eliminação da miséria, redução das disparidades regionais e da extrema concentração renda, mediante a busca de um sistema tributário justo e progressivo que aponte na direção do Estado do bem-estar social;
  2. Política monetária que comporte a expansão da moeda de acordo com as necessidades do crescimento econômico com estabilidade monetária e tendo por objetivo último a máxima geração de emprego;
  3. Atribuição ao banco central desse tríplice objetivo, para cuja execução ele terá liberdade operacional, sujeita a verificação de eficácia pelas comissões de economia e finanças do Congresso Nacional;
  4. Controle fino da liquidez mediante a defesa pelo Banco Central, no open, da taxa de juros fixada conforme os objetivos em 1 e 2; a taxa básica de juros deve condicionar também o processo de internação ou retenção externa do fluxo de reservas, para compatibilizar esse fluxo com o nível de liquidez desejado;
  5. Política cambial no regime semi-flutuante, entendido como a administração do câmbio mediante utilização das reservas internacionais para manter o valor externo da moeda numa faixa que promova a competitividade externa, sobretudo a baseada em bens de maior valor adicionado, assim como o crescimento interno;
  6. Política fiscal anti-cíclica e pró-investimento do Estado para corrigir deficiências de infra-estrutura, admitindo-se, em situação de alto desemprego e alto índice de ociosidade no parque produtivo, aumento da relação dívida/PIB (como ocorreu sabiamente no Brasil com os investimentos de Petrobrás, Eletrobrás e BNDES financiados pelo Tesouro em 2009 e 2010); note-se que não existe razão teórica ou empírica para eliminar a dívida pública como fonte de financiamento do Estado, a não ser em condição de esgotamento da capacidade ociosa na economia; da mesma forma, trata-se de um viés ideológico inaceitável para países em desenvolvimento limitar a relação dívida/PIB a valores arbitrários, como aconteceu na Europa do euro sob o Tratado de Maastricht, hoje claudicante. A questão verdadeiramente relevante é a gestão de um endividamento público com caráter produtivo, isto é, a dívida pública deve ser utilizada, prioritariamente, para o financiamento do investimento público com potencial de aumentar a produtividade da economia. Macrodinamicamente, como o investimento público em infraestrutura eleva a taxa de investimento privado (efeito crowding in no médio e longo prazos), a base tributária se expande e a própria dívida pública tende a reduzir-se ou estabilizar-se. Atualmente, não é isso o que ocorre; o endividamento público nos países avançados e em desenvolvimento converteu-se no eixo da acumulação rentista, através de estruturas de revalorização da riqueza pouco ou nada conectadas às necessidades das atividades diretamente produtivas.  Nesse contexto, não é surpresa que as finanças públicas encontrem-se subordinadas às finanças privadas, de acordo com as demandas dos detentores de capital e de grandes bancos e investidores internacionais.
  7. Promoção do investimento de integração econômica, estruturando um novo modelo de desenvolvimento econômico e social ancorado na nova política macroeconômica aqui sugerida, nos termos propostos em projeto de lei em anexo, já em tramitação no Senado brasileiro e em discussão em entidades da sociedade civil de outros países da América do Sul;
  8. Aperfeiçoamento e expansão do uso do CCR nas transações comerciais e de investimento na América do Sul;
  9. Estruturação do sistema de financiamento de investimentos públicos e privados na América do Sul em torno do Banco do Sul, da CAF, do BNDES e de outros bancos públicos regionais, mediante um mecanismo próprio de avaliação de risco que desconsidere as agências externas de classificação, e que funcione como um selo de qualidade para investidores fora da região.


Conclusão

A crise financeira em curso nos países industrializados avançados não põe em risco apenas o futuro do capitalismo. Põe em risco o futuro da civilização. Mais do que essa crise, em si, são as políticas aplicadas para se tentar superá-la que ameaçaram arrastar o mundo para uma situação de estagnação com surtos de recessão, implicando dramáticas consequências sociais e políticas. É que estamos diante de uma evidente ressurgência neoliberal na Europa e nos Estados Unidos, materializada em fortes pressões internas por ajustes fiscais recorrentes com inelutável efeito recessivo.

Os países que têm contornado a crise com relativo sucesso são os emergentes, notadamente a China e a Índia. É notável que a grande mídia não se tem dedicado a investigar a causa dessa performance, limitando-se a registrar dados. Entretanto a China, uma economia socialista de perfil capitalista, e a Índia, uma economia capitalista de perfil socialista, têm em comum planejamento público centralizado e sistema bancário quase inteiramente público. A diretriz do planejamento ganha imediatamente eficácia através do financiamento produtivo, não especulativo. Esta é a essência da mágica. Outro emergente, o Brasil, reduziu consideravelmente o impacto da crise em 2009 por efeito do influxo de crédito de seu sistema bancário público, 40% do sistema bancário do país, o qual cresceu 27%, enquanto a expansão do crédito bancário privado ficou em 4%. Se fosse depender apenas deste último, dificilmente a economia brasileira teria se recuperado.
Entretanto, sequer a força combinada de todos os emergentes pode, em termos estritamente econômicos, funcionar como locomotiva do mundo. Mas os países emergentes podem ser um importante sinalizador de alternativas de política econômica. Na medida de seu sucesso, e do fracasso inevitável do novo surto neoliberal nos países ricos, é de se esperar um renascimento nestes últimos da opinião pública crítica mobilizando-se no sentido de reverter sua política economicamente ineficaz e social e politicamente suicida, destruidora de seu pacto social básico ancorado no Estado de bem-estar social. É que não há melhor argumento que fatos.
Nosso intuito é, pois, oferecer aos formuladores de política econômica da América do Sul uma contribuição no campo das idéias para o estabelecimento de uma nova estratégia econômica para o continente. Ao mesmo tempo, estamos oferecendo às sociedades de região um conjunto de princípios que eventualmente sirva para alimentar o debate em torno de nossa situação presente e de nosso destino. Não podemos assistir passivamente a um processo que pode nos arrastar para o mesmo abismo em direção ao qual forças retrógradas estão empurrando vários países europeus. Sem uma estratégia clara de ação, estaremos condenados ao retrocesso econômico, social e político.

Naturalmente, mesmo enquanto região, não estamos isolados em relação ao que acontece no resto do mundo, em especial nos países industrializados avançados. Embora não possamos influir diretamente nas políticas ali praticadas, podemos chamar a atenção das respectivas sociedades para suas contradições e incongruências que põem em risco a nossa própria estabilidade. Entre os países ricos, os Estados Unidos enfrentam um problema, sobretudo, de dívida privada, remanescente do colapso do mercado imobiliário. Como emissores da moeda mundial, seu problema de dívida pública é de ordem sobretudo ideológica; são, pois, razões políticas que impedem os Estados Unidos de agirem decididamente por sua recuperação e a recuperação mundial. Já na Europa do euro, onde quebraram vários Estados para que fossem salvos os bancos, a dívida pública tornou-se um foco permanente de especulação. Em ambos os casos, políticas fiscais restritivas são ineficazes para o relançamento das economias. Assim, nos parece inevitável alguma forma de socialização dos bancos como preliminar da reestruturação das dívidas com alguma perda por parte dos investidores, para possibilitar a retomada do desenvolvimento econômico e social sustentável em escala planetária.

(seguem as assinaturas dos primeiros signatários) Maria da Conceição Tavares, Luiz Gonzaga Belluzzo, Carlos Lessa, Luiz Carlos Bresser Pereira, Franklin Serrano, Denise Gentil, Theotônio dos Santos, Ricardo Carneiro, João Sicsú, Luiz Fernando de Paula, Luiz Pinguelli Rosa, Carlos Cosenza, Francisco Antonio Doria, Miguel Bruno, Luís Nassif, José Carlos de Assis e Roberto Saturnino Braga.

Tags: , , , ,
Posted in Leitura recomendada | No Comments »

“Vamos nos unir e trazer a Marajó os Jodos dos Povos Indígenas de 2012 numa celebração histórica”.

Posted by waltersorrentino on 15th novembro 2011

Caboco marajoara, que o leitor do blog deve  conhecer, propôs essa grande ideia ao ministo Aldo Rebelo. Eu apoio! A Ilha tem todo o simbolismo para sediar os jogos, projetar o sentido democrático de integração de nosso povo, dar a se conhecer internacionalmente e pôr o Pará onde merece na família nacional.


Aproveito para partilhar o texto do Varela, nosso caboco marajoara que tem um lindo blog sobre a questão dos indígenas e brasilidade e recupera a memória do grande comunista Dalcídio Jurandir.

indios_brasil_2


Sabem por que Jorge Amado chamou de “índio sutil” a Dalcídio Jurandir? Primeiro, que o nome civil do autor de “Chove nos campos de Cachoeira” é Dalcidio José Ramos Pereira e ele próprio adotou nome de “Jurandir” (Jurandi, “aquele que veio com a luz do céu”, o relâmpago). Depois, que o laureado romancista da Amazônia encarna o arajó profundo: ponha lá mais de mil anos da primeira ecocivilização das terras baixas da América tropical somada a importantes contribuições negro-africanas, açorianas e, por último, galego-portuguesas de que nosso doutor Honoris Causa Vicente Salles ensina com maestria. Sem esquecer a presença incontornável do Nordeste brasileiro a partir das primeiras migrações Tupinambá com choque cultural disto decorrente até o êxodo das grandes secas desde fins do século XIX.

Sem excluír o caminho do Maranhão ao Grão-Pará passando pelo Caeté [Bragança-PA], o rio dos Tocantins foi a grande via do sertão para o Alto Amazonas (Peru), donde o arquipélago do Marajó, obviamente, tornou-se campo de guerra antropofágica. Se ao sul reinava o Pindorama ao norte era a Tapuya tetama [terra dos Tapuias], transformada em Amazônia, quem daria as cartas.

Esta semana, em Porto Nacional (Tocantins) trancorrem os XI Jogos dos Povos Indígenas (JPI). Um evento de esportes no calendário brasileiro, cada vez mais importante, e que extrapola ao campo da competição esportiva para se tornar numa celebração e confraternição entre todas etnias da brasilidade.

Porto Nacional, no Tocantins, poderá ficar na história como o lugar em que se tomaram a decisão dos JPI se tornarem internacionais, provavelmente pan-amazônicos sobretudo. E queira, então, o grande Espírito dos povos originais que venha ser o Marajó do dito “índio sutil” a próxima parada dos JPI na sua primeira versão internacional.

Bela coincidência da ilha-mãe da civilização amazônica (cf. Antropologia / Denise Schaan) onde o Araquiçaua [Arakyxaua, lugar onde o sol ata sua rede] atraiu e seduziu os caraíbas Tupinambá na saga da Terra sem mal [ver Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro e outros], em guerra com os Tapuias no Maranhão (lembrar Tapuitapera [tapera tapuia, ruina tapuia], hoje Alcântara-MA, centro brasileiro de lançamento de foguetes). No além fronteira do Oiapoque, o centro espacial europeu, em Kuru (Guiana francesa) parece avivar a memória do Contestado do Amapá que, pouco a pouco, transforma a fronteira que antes separava agora na ponte que aproxima…

Pois não foram aqueles bravos Tupinambás de outrora que — na justa e perfeita ambição de toda humanidade um paraíso mágico onde não há fome, trabalho escravo, doenças, velhice e morte — convidaram corsários franceses a se instalar no Maranhão?

E não foram eles em embaixada à corte de Paris, onde seus antepassados da Guanabara foram antes, em Ruão, segundo Montaigne, levar a sugestão da revolução francesa? Pois o confronto tupinambá-tapuia, como se sabe, pariu a “France Équinoxialle“, com a fundação de São Luís do Maranhão a completar 400 anos em 2012. Ou seja, a invenção da Amazônia.

O “nheengaíba” [falante da "língua ruim"] foi o marajoara guerreiro que encarou a avançada Tupinambá. A falta de interesse acadêmico (apesar da monumental historiografia jesuítica a partir de Luiz Figueira, massacrado em Marajó em 1745) empalidece a resistência marajoara na História do Brasil e esconde ainda as raízes do circum Caribe no norte do Brasil apenas revelado nos rítmos e na música popular paraense. Eis que pelo casamento da necessidade com o acaso, mais uma vez, como o povo fala Deus escreve certo por linhas tortas…

Os incipientes Jogos dos Povos Indígenas (JPI) começados contra muitas incertezas e desânimos chegarão, nos 400 anos de invenção da Amazônia [fundação de São Luís-MA, 2012 - fundação de Belém-PA, 2016] em sua primeira versão internacional.

E Marajó talvez brilhe por uma celebração dentre Povos Indígenas, sem precendentes no mundo dividido em guerras e loucura. Quem sabe, há de recuperar para sempre o espírito daquelas pazes “impossíveis” de 27 de Agosto de 1659, em Mapuá [Breves]. Que colocaram fim numa guerra invisível entre as nações indígenas e europeias no Pará velho de guerra… A esperança é a última que morre: quem ouviu ao longe o som de um clarinete tocado por mestre Bibiano Rodrigues ao cair da tarde junto à praia de Mangabeira (Ponta de Pedras ) [cf. Bernardino Ferreira dos Santos Filho em "Nas margens do marajó-Açu] pode crer que ainda chegará o dia em que as flautas sagradas vindas do Rio Negro e as clarinetas do Toré vindas do Oiapoque poderão ecoar sobre a baía do Marajó, nosso grande mar de água doce, desde a dita praia que foi no passado aldeia dos “nheengaíbas”. Como no igarapé morto do Vilar (antiga aldeia dos “Guaianases” referidos pelo Padre Antônio Vieira como uma das sete nações que celebraram a pax de Mapuá).

Aquelas pazes lesadas pela ambição colonial e a cegueira que o payaçu dos índios denunciou no “Sermão aos Peixes” em S. Luís-MA, 1654, sobre os cativeiros indígenas (lei de 1655 e fonte de conflito dos colonos com os padres). Tem uma chance de ser celebrada, de maneira inesperada, pelos 12º JPI e primeiro internacional no solo simbólico marajoara.

Tags: ,
Posted in Leitura recomendada | No Comments »

Biodiversa: Novo etanol sairá do solo amazônico

Posted by waltersorrentino on 14th novembro 2011

Biodiversa é um dos blogs que mais me chamam a atenção, pela qualidade do jornalismo e pesquisa científicos. É da Liana John é jornalista ambiental. Escreve sobre conservação, mudanças climáticas, ciência e uso racional de recursos naturais há quase 30 anos, nas principais revistas e jornais do país. Ao somar entrevistas e observações, constatou o quanto somos todos dependentes da biodiversidade. Mesmo o mais urbano dos habitantes das grandes metrópoles tem alguma espécie nativa em sua rotina diária, seja como fonte de alimento ou bem-estar, seja como inspiração ou base para novas tecnologias. É disso que trata esse blog: de como a biodiversidade entra na sua vida. E como suas opções, eventualmente, protegem a biodiversidade. É uma Leitura realmente Recomendada. Veja em http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/biodiversa/novo-etanol-saira-do-solo-amazonico/

Novo etanol sairá do solo amazônico, a matéria, indica mais um passo para a condição do Brasil como potência energética “limpa”. Como se sabe, essa é uma condição estratégica ao novo projeto nacional de desenvolvimento.

Não, ninguém está advogando a substituição de florestas por canaviais. O assunto aqui é etanol de segunda geração e o que virá do solo amazônico para as usinas são microrganismos capazes de digerir a parte mais ‘dura’ das plantas, ou seja,celulosehemicelulose lignina. Assim, uma gama bem mais ampla de plantas poderá ser transformada em etanol, aumentando a sustentabilidade da matriz energética, sobretudo no setor de transportes.

A pesquisa já está em andamento na Embrapa Agroenergia, unidade localizada em Brasília e criada há apenas 5 anos (2006). Lá, a bióloga Betânia Ferraz Quirino, com doutorado e pós-doutorado em Biologia Molecular pela Universidade de Wisconsin (EUA) é responsável pela busca dos microrganismos mais eficientes para a difícil missão. “Na serapilheira da Floresta Amazônica há muitas folhas, que são degradadas e recicladas por bactériasfungos e diversos outros microrganismos. Ou seja, ali, há milhões de anos, a natureza já está fazendo a seleção que presumivelmente nos interessa para uma aplicação industrial”, diz a pesquisadora.

A celulose é o principal constituinte das paredes celulares das plantas. É um polímero ‘imenso’ para os padrões celulares, porém composto somente de glicose, que é o que interessa na produção de etanol. As hemiceluloses também são polímeros, de composições variadas, que se intercalam na celulose e têm a função de garantir a elasticidade. Já as moléculas de lignina conferem rigidez, impermeabilidade e resistência ao conjunto.

As três juntas são “praticamente um cristal”, compara Betânia Quirino. “E nosso principal problema é despolimerizar esse ‘cristal’ para liberar a glicose e conseguir o substrato do qual obteremos o etanol de segunda geração”. Uma das vantagens desse etanol sobre o de primeira geração é o fato de ser produzido a partir de qualquer planta – como capimcascas de arrozpalha de milho ou outros resíduos agrícolas – e não apenas a partir de cana-de-açúcar.

O processo todo tem fases biológicas, térmicas e químicas. Bactérias, leveduras e outros microrganismos não dão conta de tudo, mas têm uma participação crucial na quebra do trio ‘duro de digerir’ (celulose, hemicelulose e lignina). E isso elas fazem com enzimas, sendo que cada espécie de microorganismo produz enzimas muito específicas para determinadas funções e com exigências muito especiais de temperatura, acidez, presença ou não de oxigênio e outros quesitos.

Em lugar de testar bactéria por bactéria das amostras de solo amazônico até encontrar aquela que produz as enzimas certas, a pesquisadora da Embrapa Agroenergia recorre a um atalho tecnológico conhecido como Metagenômica. Ela faz, digamos, um ‘caldo’ de DNA das dezenas de espécies de bactérias presentes em cada amostra de solo e testa o conjunto em ensaios funcionais. “Trabalho em parceria com engenheiros químicos e eles me trazem as demandas, como enzimas que resistam a altas temperaturas ou a ambientes com baixo pH”, explica. “O que orienta nossa busca é a expressão de cada enzima e não a identidade da bactéria”.

Uma vez identificadas as enzimas eficientes para executar as tarefas necessárias, elas são clonadas e multiplicadas, de modo a viabilizar o uso industrial. “Já temos um portfólio de enzimas para atender às exigências do processo de produção do etanol de segunda geração. Mas ainda precisamos fazer dessas enzimas um insumo, combinando-as com enzimas de fungos, num ‘coquetel’ capaz de funcionar a contento e a um preço competitivo”, acrescenta Betânia. Segundo ela, isso vai ajudar também a reduzir os químicos, contribuindo, mais uma vez, para a sustentabilidade
de todo o processo.

A pesquisa metagenômica conta com recursos da própria Embrapa, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF). A mestranda Ohana Costa faz parte da equipe de Betânia na Embrapa e ela ainda trabalha em parceria com especialistas da Universidade de Brasília, como a bióloga molecular Eliane Noronha e o microbiologista Ricardo Kruger, e da Universidade Católica de Brasília, como a microbiologista Cristine Barreto e a doutoranda Jéssica Bergmann.

Com tanta gente high tech de olho nos produtos do solo amazônico, a receita do caldo de enzimas promete ser das mais digestivas!

Foto: Liana John (serapilheira em Alta Floresta – MT)




Tags: , , , ,
Posted in Leitura recomendada | 1 Comment »

Boas leituras

Posted by waltersorrentino on 23rd setembro 2011

Coisas para a seção Leitura Recomendada são tantas! Mas algumas podem ter passado desapercebidas por vocês, então sugiro:

“Do PCdoB ao PCBlz: musa pop e nova linguagem na política nacional: musa pop e nova linguagem na política nacional”. Interessante o estudo de comunicação de autoria de Neusa Demartini Gomes e Viviane Fontana Graminho que capta a sensibilidade da comunicação da Manuel D’Ávila e do percurso do PCdoB nessa área. PCBlz é referência à marca da campanha de Manuela, “E aí, beleza?”, com a qual conquistou o título de deputada federal mais votada da história do Rio Grande dos varões gaúchos do sul.

Veja em : http://www.izquierdas.cl/revista/wp-content/uploads/2011/07/Demartini-y-Fontana.pdf

***

Em Questão do dia, órgão informativo da SECOM do governo federal, vem de publicar dados sobre a evolução do investimento e informa que obras do PAC terão R$ 1 trilhão em infraestrutura até 2014.

O processo de recuperação da (estrangulada) infraestrutura do país já está em curso; esperemos que não se faça como as obras de SP que demoraram mais de vinte anos. Entretanto, a questão dos investimentos públicos é mais profunda que a questão  da infraestrutura; educação, ciência, tecnologia, conhecimento e cultura, são indispensáveis ao projeto de nação e representam mesmo o futuro da nação. Sem falar em ssaúde e segurança. Mas a base está dada: o desenvolvimento. Em uma década o Brasil pode superar esses impasses se seguir a trilha aberta por Lula e agora avançando com Dilma.

Veja em: http://www.secom.gov.br/sobre-a-secom/nucleo-de-comunicacao-publica/copy_of_em-questao-1/em-questao-do-dia/investimento-para-garantir-crescimento-economico?utm_campaign=Newsletteremquestao&utm_medium=Economia&utm_source=Investimento.Crescimento&utm_content=220911

***

A revista Caros Amigos no. 174 deste ano, trouxe duas interessantes matérias que não sei se todos viram. Caros Amigos tem cumprido bom papel no pensamento crítico.

Uma é de Renato Pompeu, saudando a edição da Boitempo Grundrisse, de Marx. Sob a forma de “esboços”, em 1857-58, a obra é seminal para o entendimento de O Capital. Pompeu considera o fato o lançamento mais importante do ano.

A outra é a brilhante entrevista com Lincoln Secco, inteligentemente feita por Julio Delmanto, sobre o novo livro do professor da USP em que analisa a trajetória do PT e o papel de Lula na sua história.

Lincoln Secco é um amigo grato, marxista que respeito muito, de pensamento vivo e crítico; aliás por isso mesmo um dos grandes estudiosos de Gramsci. Não li o livro, mas a entrevista é extremamente motivadora.

Duas pérolas: “Que o PT se reinvente pela esquerda não é impossível, mas eu acho improvável, porque ele não é mais um partido de militantes”. “A tensão dialética entre o impulso eleitoral e a força militante se resolveu na forma de um partido ao mesmo tempo parlamentar e hegemônico nos movimentos sociais”.

Deem uma lida:

http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/component/content/article/156-edicao-174/1947-ideais-de-botequim-grundisse-de-marx-o-lancamento-do-seculo

http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/component/content/article/156-edicao-174/1952-entrevista-lincoln-secco

Tags: , , , ,
Posted in Leitura recomendada | No Comments »

Geopolítica dos minerais: disputas estratégicas

Posted by waltersorrentino on 16th setembro 2011

010125110915-riskListChart

Esse material é muito interessante sobre as disputas geopolíticas que se armam neste mundo em transição. Marcam o futuro. A China já aponta como “Everest” na matéria. Quanto ao Brasil, a questão do Nióbio é estratégica. Um novo Código mineral está sendo preparado pelo governo, vamos manter em foco de atenção.

Veja em http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=metais-mais-raros-terra-lista-risco&id=010125110915

Elementos de risco

O Serviço Geológico Britânico divulgou uma lista de “elementos ameaçados de fornecimento”.

Não é uma lista de elementos raros ou “ameaçados de esgotamento”, mas daqueles elementos mais importantes economicamente com risco de sofrerem quebra na cadeia de fornecimento global.

“A lista dá uma indicação do risco relativo para o fornecimento dos elementos químicos ou grupos de elementos que precisamos para manter nossa economia e nosso estilo de vida,” afirma o órgão britânico, em tom pouco diplomático.

A posição de cada elemento na lista é determinada por fatores que podem impactar sua oferta, incluindo a abundância de cada elemento na crosta terrestre, a localização da produção e das reservas atuais, e a estabilidade política desses locais.

Minerais tecnológicos

Os dados destacam a importância da China na mineração mundial, sobretudo nesta área dos chamados “minerais tecnológicos.

O Brasil está presente entre os elementos com sinal vermelho, graças ao nióbio – o país fornece quase a totalidade do nióbio do mundo, um elemento importante na indústria do aço, eletrônica, supercondutores e até dos experimentos com a fusão nuclear.

A lista é encabeçada por minerais como as terras raras, grupo da platina, o nióbio e o tungstênio.

Segundo os organizadores da lista, não há nenhum risco de esgotamento das reservas de nenhum dos minerais listados, sendo que os maiores riscos ao fornecimento são “fatores de risco humanos” – geopolítica e nacionalismo – e acidentes.

010125110915-elementos-de-risco

Tags: ,
Posted in Leitura recomendada | No Comments »