Gestão da Cultura em São Paulo na berlinda
Posted by waltersorrentino on 15th setembro 2011

Uma das obras de Ianelli não aceitas pela gestão do MAM
Tenho acompanhado pela imprensa o quiproquó sobre a não-aceitação pelo MAM de alguns trabalhos de Arcângelo Ianelli (1922-2009), deixados por ele em testamento, para o MAM-SP.
O testamento indicava 170 obras representativas da arte de Ianelli pra dezesseis museus nacionais e estrangeiros. Para o MAM-SP, eram destinadas quatorze peças. Segundo a filha do pintor Katia Ianelli, “O MAM não tem nenhuma escultura do meu pai. Estavam propostas duas esculturas e mais uma escultura em madeira. Não tem nenhum pastel. Estavam propostos vários pastéis. Nenhuma transição e nenhuma arte figurativa. Eles não tinham nada dessas fases e dessas técnicas, como escultura de mármore, relevo pintado, que foi o último segmento da obra do artista, com 30 exemplares – e um deles estava indo pro MAM. Tudo que foi proposto era inédito. Se nada disso era contribuição, acho que eles não queriam mesmo a contribuição do artista, e não das obras”.
Surpreendentemente, a resposta curta e seca à família foi: “O Conselho Consultivo de Artes do Museu de Arte Moderna, em sua última reunião, posicionou-se contrariamente à entrada dessas obras no acervo do museu. Assim sendo, entendemos por bem recusar as mesmas”. “Tinha redundância em relação ao que a gente já tem do Ianelli”, argumenta o curador do MAM, Felipe Chaimovich, em conversa com Terra Magazine, numa excelente matéria de Cláudio Leal
Mas há contestações, porque as obras retratavam diversas fases do artista: quadros da fase figurativa e da transição; esculturas em granito preto, mármore e madeira pintada; relevo pintado (o último trabalho do artista); três pastéis geométricos, um pastel pós-geométrico e três pastéis da última fase.
Ainda por Claudio Leal, há uma resenha das obras doadas e que não foram aceitas pelo MAM
História do artista
O artista tem uma longa história e produção, e marca as artes plásticas do século 20.
No sitio Pitoresco encontramos em rápidas linhas essa contextualização.

“No Rio de Janeiro, o mestre Manuel Santiago (1897-1987) passou a orientar os «meninos» do Núcleo Bernardelli, e de lá surgiram nomes como os de Pancetti, Malagolli, Bustamante Sá e Milton Dacosta. Com o mesmo propósito, formou-se em São Paulo o Grupo Santa Helena, em que jovens, quase todos pintores de paredes, quase todos autodidatas, se reuniam para trocar ideias, recebendo orientação do professor Mário Zanini. E de lá sairam para cenário artístico Rebolo e Volpi, para citar apenas dois nomes. Em 1948, formou-se na zona Sul de São Paulo o Grupo Guanabara, que se reunia à noite na oficina de molduras de Tikashi Fukushima. Eram quase todos japoneses ou de descendência nipônica, mas entre eles podia-se encontrar alguns «estrangeiros», e a estes se juntou Arcângelo Ianelli. Realizaram exposições, entre 1950 e 1959, das quais participaram os integrantes do grupo e mais artistas convidados, entre eles Manabu Mabe e Tomie Ohtake. Com a exposição de 1959, o Grupo Guanabara foi extinto, cada um seguindo seu próprio caminho. E Arcângelo Ianelli, já com nome firmado na praça, iniciou seu vôo solitário, caminhando por entre as nuvens, enfrentando tempestades e vencendo desafios.
Até 1960 a pintura de Ianelli foi abertamente figurativa e, embora apresentasse avanços significativos na técnica, não logrou experimentar estilos mais em voga na arte e que eram praticados mesmo por aqueles artistas incluídos em sua roda de amigos. Na década de sessenta, vagarosamente, mas com firmeza e direção, sua arte começou a evoluir. As figuras, ainda visíveis, começavam a perder sua forma e, aos poucos, as linhas e formas geométricas passaram a dominar por completo os quadros que pintava.
Ele próprio declarou em entrevista: «O quadro deve falar apenas por si, sem necessidade de dissertações. Deve transmitir algo às pessoas sensíveis, somente pelo conteúdo pictórico. Nunca com a finalidade de “contar uma história, revelar estados psíquicos”, etc. Devemos deixar esse problema aos literatos, que se expressam muito melhor em seus livros. Um pintor deve ter em mente realizar, antes de mais nada, pintura».
A gestão cultural em São Paulo deixa a desejar
Não pretendo “dar nota” à obra. Não domino muito a “gestão” da arte e tampouco dos critérios que regem a doação-aceitação de obras pelos museus. A verdadeira questão é que, em São Paulo, poucos dominam, porque tal gestão é hermética, exclusivista e, até, sectária. Este último episódio me pareceu uma grosseria e merecia explicação pública mais cabal. Até onde entendo, Arcângelo é referência nacional e internacional, sua obra “nos pertence” e o melhor lugar para registro dela para a posteridade, será mesmo o MAM. Deixa transparecer a tentativa de “dar nota” ao artista e às obras doadas, para “justificar” a não aceitação. Rubens Ianelli, filho do artista, meu colega médico e dileto amigo a quem conheço há décadas, aliás também artista plástico que admiro (e já resenhei no blog), diz: “A gente entende que um museu deve saber o que é relevante. Parece que o MAM ficou sem memória e esquece um artista importante, que teve seu momento na arte brasileira. Existe uma memória seletiva e um ponto de vista pessoal. Não é uma visão mais abrangente, mais aberta, sem tendências. É preciso ter essa história”.
O caso que li nos jornais sobre Arcângelo me parece mais uma dessas infelicidades da gestão cultural de SP. A celeuma em torno do assunto reforça minha abordagem muito crítica da gestão da cultura em SP. Vão se completar vinte anos de governos que têm deixado legado elitista e eivado de pequenas disputas e pouca substância. Particularmente, pouco poder seminal para um ação cultural que de fato possa ser disseminada em ampla escala. Em apenas oito anos, Gilberto Gil e o governo Lula revolucionaram a gestão nacional em cultura, democratizando-a e pondo-a em vibração com o tempo. Em SP, o contrário, mas em vinte anos.
No caso do Andrea Matarazzo, atual secretário de cultura do Estado, ele se envolve em muitas polêmicas falsas, mal colocadas ou desnecessárias. Esta foi mais uma.
Tags: Cultura, São Paulo
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