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Archive for the 'Cultura' Category

Para textos culturais, poesias, obras, exposições, etc.

Gestão da Cultura em São Paulo na berlinda

Posted by waltersorrentino on 15th setembro 2011

Uma das obras de Ianelli não aceitas pela gestão do MAM

Uma das obras de Ianelli não aceitas pela gestão do MAM

Tenho acompanhado pela imprensa o quiproquó sobre a não-aceitação pelo MAM de alguns trabalhos de Arcângelo Ianelli (1922-2009), deixados por ele em testamento, para o MAM-SP.

O testamento indicava 170 obras representativas da arte de Ianelli pra dezesseis museus nacionais e estrangeiros. Para o MAM-SP, eram destinadas quatorze peças. Segundo a filha do pintor Katia Ianelli, “O MAM não tem nenhuma escultura do meu pai. Estavam propostas duas esculturas e mais uma escultura em madeira. Não tem nenhum pastel. Estavam propostos vários pastéis. Nenhuma transição e nenhuma arte figurativa. Eles não tinham nada dessas fases e dessas técnicas, como escultura de mármore, relevo pintado, que foi o último segmento da obra do artista, com 30 exemplares – e um deles estava indo pro MAM. Tudo que foi proposto era inédito. Se nada disso era contribuição, acho que eles não queriam mesmo a contribuição do artista, e não das obras”.

Surpreendentemente, a resposta curta e seca à família foi: “O Conselho Consultivo de Artes do Museu de Arte Moderna, em sua última reunião, posicionou-se contrariamente à entrada dessas obras no acervo do museu. Assim sendo, entendemos por bem recusar as mesmas”. “Tinha redundância em relação ao que a gente já tem do Ianelli”, argumenta o curador do MAM, Felipe Chaimovich, em conversa com Terra Magazine, numa excelente matéria de Cláudio Leal

Mas há contestações, porque as obras retratavam diversas fases do artista: quadros da fase figurativa e da transição; esculturas em granito preto, mármore e madeira pintada; relevo pintado (o último trabalho do artista); três pastéis geométricos, um pastel pós-geométrico e três pastéis da última fase.

Ainda por Claudio Leal, há uma resenha das obras doadas e que não foram aceitas pelo MAM

História do artista

O artista tem uma longa história e produção, e marca as artes plásticas do século 20.

No sitio Pitoresco encontramos em rápidas linhas essa contextualização.

“No Rio de Janeiro, o mestre Manuel Santiago (1897-1987) passou a orientar os «meninos» do Núcleo Bernardelli, e de lá surgiram nomes como os de Pancetti, Malagolli, Bustamante Sá e Milton Dacosta. Com o mesmo propósito, formou-se em São Paulo o Grupo Santa Helena, em que jovens, quase todos pintores de paredes, quase todos autodidatas, se reuniam para trocar ideias, recebendo orientação do professor Mário Zanini. E de lá sairam para cenário artístico Rebolo e Volpi, para citar apenas dois nomes. Em 1948, formou-se na zona Sul de São Paulo o Grupo Guanabara, que se reunia à noite na oficina de molduras de Tikashi Fukushima. Eram quase todos japoneses ou de descendência nipônica, mas entre eles podia-se encontrar alguns «estrangeiros», e a estes se juntou Arcângelo Ianelli. Realizaram exposições, entre 1950 e 1959, das quais participaram os integrantes do grupo e mais artistas convidados, entre eles Manabu Mabe e Tomie Ohtake. Com a exposição de 1959, o Grupo Guanabara foi extinto, cada um seguindo seu próprio caminho. E Arcângelo Ianelli, já com nome firmado na praça, iniciou seu vôo solitário, caminhando por entre as nuvens, enfrentando tempestades e vencendo desafios.

Até 1960 a pintura de Ianelli foi abertamente figurativa e, embora apresentasse avanços significativos na técnica, não logrou experimentar estilos mais em voga na arte e que eram praticados mesmo por aqueles artistas incluídos em sua roda de amigos. Na década de sessenta, vagarosamente, mas com firmeza e direção, sua arte começou a evoluir. As figuras, ainda visíveis, começavam a perder sua forma e, aos poucos, as linhas e formas geométricas passaram a dominar por completo os quadros que pintava.

Ele próprio declarou em entrevista: «O quadro deve falar apenas por si, sem necessidade de dissertações. Deve transmitir algo às pessoas sensíveis, somente pelo conteúdo pictórico. Nunca com a finalidade de “contar uma história, revelar estados psíquicos”, etc. Devemos deixar esse problema aos literatos, que se expressam muito melhor em seus livros. Um pintor deve ter em mente realizar, antes de mais nada, pintura».

A gestão cultural em São Paulo deixa a desejar

Não pretendo “dar nota” à obra. Não domino muito a “gestão” da arte e tampouco dos critérios que regem a doação-aceitação de obras pelos museus. A verdadeira questão é que, em São Paulo, poucos dominam, porque tal gestão é hermética, exclusivista e, até, sectária. Este último episódio me pareceu uma grosseria e merecia explicação pública mais cabal. Até onde entendo, Arcângelo é referência nacional e internacional, sua obra “nos pertence” e o melhor lugar para registro dela para a posteridade, será mesmo o MAM. Deixa transparecer a tentativa de “dar nota” ao artista e às obras doadas, para “justificar” a não aceitação. Rubens Ianelli, filho do artista, meu colega médico e dileto amigo a quem conheço há décadas, aliás também artista plástico que admiro (e já resenhei no blog), diz: “A gente entende que um museu deve saber o que é relevante. Parece que o MAM ficou sem memória e esquece um artista importante, que teve seu momento na arte brasileira. Existe uma memória seletiva e um ponto de vista pessoal. Não é uma visão mais abrangente, mais aberta, sem tendências. É preciso ter essa história”.

O caso que li nos jornais sobre Arcângelo me parece mais uma dessas infelicidades da gestão cultural de SP. A celeuma em torno do assunto reforça minha abordagem muito crítica da gestão da cultura em SP. Vão se completar vinte anos de governos que têm deixado legado elitista e eivado de pequenas disputas e pouca substância. Particularmente, pouco poder seminal para um ação cultural que de fato possa ser disseminada em ampla escala. Em apenas oito anos, Gilberto Gil e o governo Lula revolucionaram a gestão nacional em cultura, democratizando-a e pondo-a em vibração com o tempo. Em SP, o contrário, mas em vinte anos.

No caso do Andrea Matarazzo, atual secretário de cultura do Estado, ele se envolve em muitas polêmicas falsas, mal colocadas ou desnecessárias. Esta foi mais uma.

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Leci prega a liberdade nos seus 67 anos de vida completos hoje

Posted by waltersorrentino on 12th setembro 2011

Parabéns a você! Nessa data querida! Muitas felicidades! Muitos anos de vida!

Leci  passeou por vários gêneros, mas com o trabalho focado nas questões sociais. Com 67 anos, completos hoje, faz da arte um instrumento em defesa das pessoas. No início da década de 1970, ela já era a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores da Mangueira:

Uma das músicas resgatadas nesse CD que acaba de sair, foi Zé do Caroço. “Na época em que eu escrevi, a música não foi aprovada pela gravadora. Depois estourou, e hoje não posso fazer nenhum show sem cantá-la. É uma história real. O Zé do Caroço existiu, mas já morreu.”

Deixa, Deixa fala de um tema atual:  “Naquele tempo já havia violência. A letra fala: Deixa ele beber, deixa ele fumar, deixa ele jogar. É melhor do que sacar de uma arma para nos matar” (ouça abaixo).

Para os mais jovens ou até mesmo aos mais desavisados, que conhecem Leci Brandão apenas por sua atuação como comentarista durante anos em transmissões dos desfiles de carnaval, há agora a oportunidade de descobrir o porquê de ela ser considerada uma das maiores compositoras e intérpretes de samba do País.

Em mais um exemplo de como resgatar e preservar o patrimônio cultural nacional, a Universal Music acertou em cheio ao relançar os discos de Leci – feitos na época de contrato com a Phonogram/Polydor – agora em um único CD.

Das dezoito faixas, com registros que vão de 1976 a 1981, há espaço também para arranjos mais pop, como em Vinte e Duas Horas (referência ao tempo de duração de uma viagem de Leci ao Japão).

Composições como Questão de Gosto (samba-jazz de primeiríssima), Ombro Amigo, Chantagem, Assumindo e Ferro Frio relembram a veia de Leci como autora que sempre pregou todo e qualquer tipo de liberdade, seja de expressão, política ou sexual.

O PCdoB tem a honra de te-la como Deputada Estadual em suas fileiras partidárias. E deixo a ela o meu forte abraço pelos seus 67 anos de vida!

o canto livre de leci brandaoO CD:

O Canto Livre de Leci Brandão

01 Questão de gosto (Leci Brandão – 1976)
02 Deixa pra lá (Leci Brandão – 1976)
03 Ombro Amigo (Leci Brandão – 1977)
04 Chantagem (Leci Brandão – 1980)
05 Deixa,deixa (Leci Brnadão – gravaç.original, inédita sobra de estúdio)
06 Assumindo (Leci Brandão – gravaç.original, inédita sobra de estúdio)
07 Marias (Leci Brandão – 1977)
08 Ensopadinho (Leci Brandão – 1978)
09 Não cala o cantor (Leci Brandão – 1980)
10 Vamos ao teatro (Leci Brandão – 1977)
11 Sem Vingança (Leci Brandão – 1980)
12 Essa tal criatura (Leci Brandão – 1980)
13 Dança doce (Leci Brandão – 1981)
14 Troca (Leci Brandão / João Nepomuceno – 1978)
15 Dobrando as cobertas (Leci Brandão / Ivor Lancelotti – 1980)
16 Ferro Frio (Leci Brandão – 1978)
17 Vinte e duas horas (Leci Brandão – 1981)
18 Zé do Caroço (Leci Brandão – gravação original, inédita sobra de estudio)

O Canto Livre de Leci Brandão, Leci Brandão (Universal), tem 18  faixas, custa R$ 19,90 e se encontra nas lojas.

Site da Leci:  http://www.lecibrandao.com.br/

Deixa Deixa

Leia também aqui no Blog: Leci Brandão uma dama do Brasil

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Preludio para o ano 3001 – Con un fiore rosso all’occhiello…

Posted by waltersorrentino on 13th agosto 2011

Tu verás que vou renascer no ano 3001
Com pessoas que não mais estarão mas que então haverá
Abençoaremos a terra, a nossa terra… e te juro
Que juntos, de novo, este país se fundará.

Astor Piazzolla, imortal, compôs Preludio para el año 3001 (Rinascerò), com Horacio Ferrer e Angela Dania Tarenzi. Tratava-se de Buenos Aires. Mas me encontrei com a magistral gravação ao vivo dessa música no show em Tókio, 1988, na interpretação divina de Milva, italiana. A letra arrebatadora vai transcrita, em homenagem à bela e imorredoura Itália, hoje sob o tacão do atraso e da regressão (o que será em vão, antes de 3001).

Alguns de seus versos são de inequívoco sentido:

Renascerei da fruta de um mercado local
e da desleixada atmosfera de um romântico café
e das ruínas de um pequeno lugarejo abalado
e da raiva das pessoas do Sul, renascerei.
Com uma flor vermelha na botoeira
Para terminar o poema que deixei pela metade,
Minha bela cidade estará numa festa de cores
País meu… século 30… tu verás…

Tu verás que vou renascer no ano 3001

Com pessoas que não mais estarão mas que então haverá
Abençoaremos a terra, a nossa terra… e te juro
Que este país de novo e juntos se fundará.

Rinascerò! Rinascerò! Rinascerò!

PRELUDIO PARA EL AÑO 3001 (RINASCERÒ)

Io nascerò um altra volta in una sera de giugno
Con questa voglia di amare e di vivere più che mai…
Rinascerò – è destino – nell’anno 3001;
sarà una festa di colori la mia bela città.

I cani randagi abbaieranno alla mia ombra…
Col mio modesto bagaglio giungerò dall’Al di la
e inginocchiato sulla riva del mare trasparente,
um cuore nuovo di sale e fango mi plasmerò.

Verranno um vagabondo, um pagliaccio e um mago,
Miei immortali compagni, dirano “Forza… su…!
Così… cosi. Coraggio, fratello… nasci che è duro,
Ma difficile Il lavoro di morire e di rinascire poi.”

Rinascerò! Rinascerò! Rinascerò!
E una gran você extraterrestre, mi dara
La forza grande e pura che mi servirà…
Ritornerò… ricrederò… e lotterò!

E um fiore rosso all’occhiello porterò
E se nessuno è mai rinato: lo potro!
Paese mio… secolo trenta… tu vedrai…
Rinascerò! Rinascerò! Rinascerò!

Rinascerò dalle cose che ho amato molto, tanto…
Quando Le ombre della casa diranno piano: “È qui!”
lo bacerò il ricordo dei tuei occhi taciturni,
per terminare Il poema che tralasciai a metà.

Rinascerò dalla frutta di um mercato rionale
e dalla sciatta atmosfera di um romântico caffè,
e dalle rovine di um piccolo paese terremotato
e della rabbia della gente del Sud, rinascerò.

Tu vedrai che rinasco nell’anno 3001
con gente che non c’è stata ma che allora ci sara
Benediremo la terra, terra nostra… e te lo giuro
che questo paese di nuovo e insieme si fonderà.

Rinascerò! Rinascerò! Rinascerò!
E una gran você extraterrestre, mi dara
la forza grande e pura che mi servirà…
Ritornerò… ricrederò… e lotterò!

E un fiore rosso all’occhiello porterò
E se nessuno è mai rinato: lo potro!
Paese mio… secolo trenta… tu vedrai…
Rinascerò! Rinascerò! Rinascerò!

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Itália despertou

Posted by waltersorrentino on 26th julho 2011

Minha grata e inesquecível amiga chilena, Eva Chávez, me brindou com uma manifestação de que não havia tomado conhecimento. Causou-me comoção que quero compartilhar com todos vocês do blog. Eu lhes digo: não deixem de ver. O povo italiano não está calado, sua indignação e patriotismo se alevantou sob o comando do grande director Ricardo Muti, num gesto pleno de significação histórica que leva às lágrimas por ser um momento sublime. O vídeo fala por si só.

A Itália finalmente despertou. Saboreiem este momento comovedor.

El último 12 de marzo, Silvio Berlusconi debió enfrentar la realidad.. Italia festejaba el 150 aniversario de su unificación y en esa ocasión se dio en la ópera de Roma la ópera “Nabucco” de Giuseppe Verdi, dirigida por el maestro Ricardo Muti. Nabucco es una obra tanto musical como política: evoca el episodio de  la esclavitud de los judíos en Babilonia, y su famoso coro “Va pensiero” es el canto de los esclavos oprimidos. En Italia, este canto es el símbolo de la búsqueda de libertad del pueblo, que a fines del siglo XIX -época en que se escribió la ópera – estaba oprimido por el imperio Habsburgo, al que combatió hasta la creación de la Italia unificada. Antes de la representación, Gianni Alemanno, alcalde de Roma, subió al escenario para pronunciar un discurso denunciando los recortes al presupuesto de cultura que hizo el gobierno, a pesar de que Alemanno es miembro del partido gobernante y viejo ministro de Berlusconi. Esta intervención política, en un momento cultural de los más simbólicos para Italia, produciría un efecto inesperado, puesto que Berlusconi en persona asistía a la representación.

Relatado luego por el Times, Ricardo Muti, director de la orquesta, contó que fue una verdadera velada de revolución: “Al principio hubo una gran ovación en el público. Luego comenzamos con la ópera. Se desarrolló muy bien hasta que llegamos al famoso canto Va pensiero. Inmediatamente sentí que la atmósfera se tensaba en el público. Hay cosas que no se pueden describir, pero uno las siente. Era el silencio del público que se hacía sentir. Pero en el momento en que la gente se dio cuenta que empezaba el Va Pensiero, el silencio se llenó de verdadero fervor. Se podía sentir la reacción visceral del público ante el lamento de los esclavos que cantan: “Oh patria mía, tan bella y perdida.”

Cuando el coro llegaba a su fin, ya se oían en el público varios “bis”.  El público comenzó a gritar: “¡Viva Italia!”, “¡Viva Verdi!”, “¡Larga vida a Italia!”. La gente en el gallinero comenzó a arrojar papeles con mensajes patrióticos. En una única ocasión Muti había aceptado hacer un bis  para el “Va Pensiero” en la Scala de Milán en 1986, puesto que para él la ópera no debe sufrir interrupciones. “Yo no quería sólo hacer un bis. Tenía que haber una intención especial para hacerlo”, relata. Pero el público ya había despertado su sentimiento patriótico. En un gesto teatral, Muti se dio vuelta y miró al público y a Berlusconi a la vez, y dijo:

“Sí, estoy de acuerdo con esto. “Larga vida a Italia”. Pero…

Ya no tengo más 30 años y he vivido mi vida, pero recorrí mucho el mundo, y hoy tengo vergüenza de lo que sucede en mi país. Entonces accedo a vuestro pedido de un bis para el Va Pensiero, nuevamente. No es sólo por la dicha patriótica que siento, sino porque esta noche, cuando dirigía el Coro que cantó “Ay mi patria, bella y perdida” , pensé que si seguimos así vamos a matar la cultura sobre la cual se construyó la historia de Italia. En tal caso, nuestra patria estaría en verdad “bella y perdida”.

(Aplausos , incluidos de los artistas en escena)


Continuó: “Ya que reina acá un clima italiano, yo, Muti, me callé la boca muchos años. Quisiera ahora… tendríamos que darle sentido a este canto; estamos en nuestra casa, el teatro de Roma, y con un coro que cantó magníficamente bien y que acompañó espléndidamente. Si quieren, les propongo unirse a nosotros para que cantemos todos juntos”.

Entonces invitó al público a cantar con el  coro de esclavos. “Vi grupos de gente levantarse. Toda la ópera de Roma se levantó. Y el Coro también. Fue un momento mágico en la ópera.

“Esa noche no fue solamente una representación de Nabucco, sino también una declaración del teatro de la capital para llamar la atención a los políticos.”

Acá está el video de ese momento lleno de emoción:


http://www.youtube.com/embed/G_gmtO

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Jorge Mautner: Um patriota, radical e do bem comum

Posted by waltersorrentino on 23rd julho 2011

Projetos para o Brasil rende homenagem singela a Jorge Mautner, uma das personagens clássicas para o escopo do blog. Ele completou 70 anos neste ano.

Jorge Henrique Mautner nasce no Rio de Janeiro em 17 de janeiro de 1941, filho de Anna Illich e Paul Mautner. Ambos vieram para o Brasil como refugiados na Segunda Guerra Mundial. Sua mãe, Anna, era austríaca de origem iugoslava e católica, se ocupava dos afazeres domésticos; seu pai Paul, judeu-austríaco, era extremamente culto, e entre outras atividades, trabalhou no Brasil com a comunicação da agência de resistência judaica anti-nazista.

Considero-o um gênio, não apenas como músico, mas pelo poderoso intelecto e enorme bagagem cultural, pela imensa brasilidade que ele traduz na arte que produz.

Sua obra é extensa, mas a maior contribuição de seu trabalho julgo ser exatamente essa capacidade de captar o Brasil. Ele faz jus em inteira medida à reflexão de Ezra Pound de que o artista é a antena da raça.

De fato, Jorge Mautner e seu parceiro Nelson Jacobina são antenas vanguardeiras do tempo e do Brasil. Gente assim como Mautner não podia senão ser radical e comunista na melhor acepção das palavras: ir às raízes para a compreensão de que a sociedade pode e deve ser regida pelo bem comum, em nome do bem comum.

Como diria o amigo Célio Turino, o Brasil precisa de brasileiros, radicais e comunistas. Mautner é um desses. Parabéns a ele pelos 70 anos e pela obra.

Tudo sobre  Mautner em seu site:  http://www.jorgemautner.com.br/

Ouça : A bandeira do meu Partido

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Alma lírica brasileira

Posted by waltersorrentino on 25th junho 2011

Uma pérola encantada o ALMA LÍRICA BRASILEIRA, de Mônica Salmaso, com Teco Cardoso no sax e flautas, Nelson Ayres ao piano, os três se alternando. Há momentos em que a voz é da flauta de Teco, e vez em que a flauta é a voz de Mônica.

Mônica Salmaso é, entre todas, meu ponto alto no atual panorama musical brasileiro. Pela arte, sensibilidade e voz.  Mas sobretudo pelo trabalho de conjunto, de rara fineza e elevação. Vejam entrevista dela sobre o CD

O tratamento obtido para Trem das Onze, Samba Erudito e Melodia Sentimental é sublime. A música que mais me marcou é Mortal Loucura. Não há ainda na íntegra para compartilhar, mas vejam um trecho:

Mortal Loucura

(José Miguel Wisnik sobre o poema ”Oração” de Gregório de Matos)

Na oração, que desaterra a terra,

Quer Deus que a quem está o cuidado dado,

Pregue que a vida é emprestado estado,

Mistérios mil, que desenterra enterra.

Quem não cuida de si, que é terra, erra,

Que o alto Rei, por afamado amado,

E quem lhe assiste ao desvelado lado,

Da morte ao ar não desaferra, aferra.

Quem do mundo a mortal loucura cura,

A vontade de Deus sagrada agrada,

Firmar-lhe a vida em atadura dura.

Ó voz zelosa que dobrada brada,

Já sei que a flor da formosura, usura,

Será no fim dessa jornada nada.

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Luiz Henrique Dias: A entrevista

Posted by waltersorrentino on 13th junho 2011

- O senhor pode me dizer o seu nome pausadamente, para que eu possa avaliar o timbre de sua voz?

- Alberto.

Ele respondeu olhando ora nos olhos, ora nos lábios dela. Quem sabe fosse ela importante na empresa, pois fora escolhida para fazer as entrevistas dos candidatos à vaga de atendente de portaria. Algo como uma gerente. Mas uma gerente de pescoço aparente e fios de cabelo castanho claro escapando do coque e escorrendo em volta das orelhas, indo desaguar pouco acima dos ombros. Era dona de olhos também castanhos, mas pouco mais escuros, realçados e expressivos. Uma boca com pouco mais carne no desenhado lábio superior. Falava calmamente, tinha as mãos sobre a mesa e a pelugem do braço eriçada.

- E já tem experiência em atendimento?

- Absolutamente.

- Vejo que fala inglês com fluência.

Ela afirmou com base na ficha entregue a ela para orientar a entrevista, mas, nesse momento, já não tinha mais os olhos na ficha. Observava os ombros de Alberto: desenhados por natureza, pois nunca em vida frequentou uma academia. O mesmo se poderia dizer do restante do corpo.  O perfume amadeirado que usava se realçou naquele instante. O rosto de traços finos era valorizado pelos olhos esverdeados – iluminados pela luz que vinha da janela -   e o cabelo estava bem cortado, aparado para a entrevista.

- Falo inglês desde pequeno, moramos um tempo fora do país.

- Agradecida. Assim que houver um resultado, faremos contato.

O rapaz levantou-se, estendeu a mão a ela e a cumprimentou. Seus olhos encontraram-se ainda uma última vez antes de ele chegar à porta e rumar na direção da rua, ouvindo apenas, ao fundo, a voz dela dizer “o próximo”.

O que fez o resto da tarde foi ler, ao lado do telefone, e esperar. Ali ficou por horas, por livros, por pensamentos, até adormecer. Acordou em alguma hora da madrugada com um barulho de interfone. Ao atender, a voz pediu para subir. À porta, ela entregou-lhe um envelope.

- Aqui estão seus documentos. Infelizmente a vaga já foi preenchida.

Ele a beijou e, enquanto os passos orquestrados de ambos os levavam para dentro do apartamento, ele prendeu com seus lábios o dela, o mais carnudo e, novamente – dessa vez sem medo do presente – os olhos se encontraram.

* Luiz Henrique Dias é dramaturgo. Siga ele lá: @LuizHDias

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AMAZONIDADE, por José Varella

Posted by waltersorrentino on 9th junho 2011

Já foi publicado no excelente sítio da Fundação Maurício Grabois. Mas não resisto a postá-lo para compartir com os leitores do blog este lindo poema. É do amigo José Varella, o cabocomarajoara, um historiador que encanta a todos que o conhecem. Ele faz pela preservação da cultura marajoara e brasileira coisas que nem as instituições nacionais fazem.

AMAZONIDADE

Coração pulsante da América do Sol
Cerca da cidade sagrada de Cusco
Nasce o maior rio do mundo para banhar a Amazônia.

O Rio
Apenas rio-cosmo sem mais nem menos
Como o chamava a mais antiga gente da Amazônia.

O Rio corre a galope cordilheira abaixo
E se despenca inventando mitos e ‘pongos’ agitados
Então se chama Marañon na terra peruana da Amazônia.

Embora o Peru lhe seja parteiro da geografia
Na história foi o Equador que lhe serviu de berço
Orellana inventando lenda das guerreiras da Amazônia.

Espumando saliva dos pedrais andinos
O Rio amansa o curso na solidão barrenta do Solimões
Onde Brasil e Colômbia se ajuntam na profunda Amazônia.

A Venezuela pelo Cassiquiare manda águas do Orenoco
Inventar no Rio Negro as Guianas e a Bolívia não se esquece
Do Madeira e do Tapajós que com o Trombetas fazem a Amazônia.

Rio-mar ‘Pará-Uaçu’ dos bravos tupinambás da Terra sem Mal
Grão-Pará seiva da Floresta Amazônica, Arte primeva Marajoara
Tesouro do Brasil caboco filho gentil da rubroverde Amazônia.

Jose Varella

veja e comente:
http://gentemarajoara.blogspot.com/

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Balada para un loco

Posted by waltersorrentino on 2nd junho 2011

Na série dos imperdíveis. Há tempos perseguia Piazzola ao vivo em Tokyo, 1988, com a magnífica cantora Milva. Chegou: Biscoito Fino nos presenteou com o que faltava. Não tenho palavras para descrever a sensação. Ouvir, assistir, só isso. Balada para un loco. Digna dos melhores momentos da música universal, algo de Edith Piaf com o melhor dos argentinos, que é o tango, dramático, profundo, renovado por Piazzola. Com vocês…

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Urros e Sussurros

Posted by waltersorrentino on 1st junho 2011

Mais um conto do amigo Luiz Henrique Dias

Era preciso um pouco mais de ar para conseguir respirar o suficiente e não – como pensou, no auge de sua tragédia – morrer. Por de trás daquela parede, produzindo sussurros, urros, espasmos sonoros, estava a Maria. Vieram, então, pensamentos, lembranças: o gramado da faculdade, os passeios até a sorveteria, o cinema, o teatro. Foram sempre cúmplices, um do amor do outro, e juraram a presença pela eternidade, de mãos dadas, habitando a pupila alheia. Apresentaram-se aos pais. Namoraram seriamente e de forma responsável. Foram noivos. Casaram-se. Foram felizes. Sempre. Ela bancária. Ele representante comercial. Os filhos já estavam na universidade naquele instante, quando ele ouvia os gemidos e continha a lágrima ou o que quer que escorra dos olhos naquele momento. Pensou em pegar a faca. Mas quem seria ali, com ela? E se fosse maior que ele? Como faria? Será mesmo um homem traído mais forte, mais violento? Eram perguntas a serem respondidas naquele minuto. Os urros se multiplicavam. A velha arma – pensou. A mente atordoada o obrigava a olhar os móveis, as fotos, os objetos daquele casamento. Ele bem sabia de sua falta de tempo. De sua indisposição para bom marido. Indisposição ao sexo, inclusive. Sempre trabalhou muito e viveu pouco. Mas não justifica – bradou, dentro de seu universo de valores familiares. Essa é nossa casa. Não tem direito de assim fazer. Ela agora gemia baixo, mas com maior frequência. O homem gemia junto, ainda mais baixo. Os ouvidos de um homem traído são atentos. Buscava, pelo ruído, identificar a identidade do homem que transava com sua mulher, em sua cama, em sua casa, em seu mundo raso, mas feliz. Seria o Aroldo? O Anselmo? O João Bernardo? Não – recuou – o João Bernardo não. Maior frequência. Mais sussurros. A cama estremecia. O chão de taco rangia. Da janela a luz de lua cheia o orientava a entrar lá e matar os dois. Sem piedade. Ela de joelhos, com um tiro na nuca e uma faca enfiada na vagina e ele enforcado com a própria camisa. Seria um crime justo. Um grito longo. Um gemido profundo. Ele precisava entrar. E entrou. O prazer era tanto que ela precisou terminar para entender que, ali na porta, estava o marido. E ele, o traído, frente à traição, precisou enxugar os olhos para constatar o Moacir, o velho amigo da faculdade, deitado embaixo de sua esposa. Os dois amantes taparam as partes como puderam. Nada falaram. Ela chorava: homem, traído, arrasado. Não pensou mais na faca, na arma, na carnificina passional, virou de costas e saiu em direção à rua. Somente seguiu caminhando, enquanto, na copa do velho ipê amarelo um pássaro cantava uma doce música desconhecida.

* Luiz Henrique Dias é dramaturgo e gosta de apresentar fatos para serem interpretados. E só. Leia mais em luizhenriquedias.com.br ou siga ele no twitter: @LuizHDias.

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