As ideias têm asas
Posted by waltersorrentino on 26th maio 2011
Le destin, de Youssef Chahine, é um filme inesquecível. No original é Al Massir, produção franco-egípcia, de 1997. O autor faleceu em 2008, mas deixou essa obra histórica, passada em Córdoba do século XII, em plena Al Andaluz.
É um libelo contra o fundamentalismo. Fala-nos da figura gigante de Abu al-Walid Muhammad Ibn Ahmad Ibn Munhammad Ibn Ruchd, em árabe أبو الوليد محمد بن احمد بن محمد بن احمد بن احمد بن رشد, (Córdoba, 1126 —Marraquexe, 1198), conhecido pelo nome de Averróis, distorção latina do antropônimo árabe. Foi um grande filósofo, médico e muçulmano andaluz, que a certa altura da jornada foi defenstrado por Al Mansour, califa de Granada, motivado pela vaidade, e a quem o pensamento livre de Averróis passou a representar uma ameaça. Em conseqüência, Al Mansour apoiou-se nas seitas fundamentalistas e ordena a queima de todos os livros de Averróis em fogueira pública.
Averróis, detalhe da pintura A Escola de Atenas de Rafael
Al-Andaluz (Córdoba) era então uma terra culta, tolerante com a diversidades, inventiva, musical, alegre, inventiva. Quem já visitou a Andaluzia não pode deixar de se impressionar até hoje com suas realizações, sua música, seu colorido, suas mesquitas. Sevilha e Granada são duas das cidades mais belas que já conheci, e isso se deve muito à influência moura. As paisagens do filme, a música, a dança, a alegria leve da vida, são marcantes.
Mas emociona ainda mais a história de Averróis, sua cultura, liberdade de espírito, sabedoria. O mundo árabe era então dos mais avançados. Averróis era aristotélico. Com Avicena é o maior filósofo não só do mundo árabe mas de todo o mundo. Traduziu a obra do mestre Aristóteles para o árabe até cair em desgraça em 1195 e ser desterrado para Lucena. Mas seus discípulos, livres de espírito, conseguiram levá-la antes da fogueira para fora de Al-Andaluz, em Alexandria, preservando a obra, que teve grande influência também no Ocidente para o pensamento aristotélico.
É muito importante conhecer a fundo o valor da cultura árabe, de tempos imemoriais, sobre os valores humanos modernos. Além do filme, como não lembrar da tetralogia de Tariq Aziz, linda, singela e comovente, ao retratar diversos tempos da influência moura no mediterrâneo? Como não lembrar o magistral Orientalismo, de E. Said, precocemente falecido, esquadrinhando a anatomia ideológica do surgimento do sentido negativizado de “oriente”? Aliás, é um livro que me lembra, na esfera da filologia, o tratado estratégico que é Sete pilares da sabedoria, de Thomas Edward Lawrence, magistral obra sobre a ação árabe na derrocada do império otomano.
O mundo seria bem diferente se a liberdade de pensamento, cultura e diversidade que se verifica nesses tempos em que floresceu a civilização árabe no mundo. Não foram eles os fundamentalistas, poder-se-ia ver; não são águas revoltas de um rio, mas suas margens que os oprimem, barrando sua revolução nacional e democrática desde o capitalismo-imperialismo modernos.
Fico, assim, com a epígrafe do filme Le Destin: “As ideias têm asas. Nada pode deter o seu voo”. A queima dos livros de Averróis, sabedor ele de que já estavam em segurança para a posteridade, não impediu a difusão de seu pensamento.
É o caso de parafrasear, aproveitando uma publicação de Luis Manfredini:
“Um país se faz com homens e livros”, Monteiro Lobato.
“Oh, bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia…
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar”, Castro Alves
“Não se pode ter a cabeça erguida sobre os homens sem antes tê-la baixado sobre os livros”, Rui Barbosa.
“O homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o que não sabe ler”, Mark Twain.
“Casa sem livros, corpo sem alma”, Cícero.
Tags: cinema, liberdade, literatura, mundo árabe
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