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Archive for the 'Conversa.com' Category

Joane Vilela: a educação emancipadora

Posted by waltersorrentino on 10th maio 2011

Há um cometa brilhante no firmamento político de Foz de Iguaçu e do Paraná. É Joane Vilela, secretária de educação do município, que levou o Ideb (índice de desenvolvimento da educação básica), no município de Foz do Iguaçu de 4,2 para 6,2 em 2009. Ela é uma pessoa com quem dá gosto conviver. Joane integra a direção estadual do Paraná, do PCdoB, e diz: “vibro com a possibilidade de um partido que dialogue com a sociedade, que participe da vida do brasileiro, que consiga implementar as mudanças necessárias”. Partilho a alegria desta entrevista com o leitor, graças à boa vontade dela e do amigo Luiz Henrique Dias.

Joane Vilela: a secretária da educação e da cidade.

* Por: Luiz Henrique Dias

Quando, em São Paulo, Walter Sorrentino passou-me a tarefa de entrevistar a Secretária Municipal de Educação de Foz do Iguaçu, Joane Vilela, fiquei ao mesmo tempo feliz e preocupado. Feliz pela confiança de poder contribuir ao blog de um dos nomes mais expressivos de nosso Partido, e preocupado pelo medo de cair na arriscadíssima armadilha da parcialidade, pois somos eu e a Joane camaradas de Partido aqui em Foz, membros da Executiva e ela é a Secretária de Educação da minha cidade. Uma cidade que construiu, nos últimos anos, uma rede de ensino consistente, efetiva e com visão de futuro. Assim, mais que um camarada, sou um admirador do trabalho da Secretária Joane e de toda sua equipe.

E toda essa competência resultou em um trabalho danado para conseguir a entrevista que segue abaixo. Foram ligações, tentativas de encontros rápidos, viagens lado-a-lado, mas com questões diversas a resolver. Quando eu achava impossível conciliar as agendas para conseguir respostas às perguntas e poder, assim, dividir isso com os leitores do blog do Walter, eu chego ao meu escritório, certa manhã, e sou presenteado com um email da Joane.

E aí ficou fácil.

Ela respondeu as perguntas com admirável simplicidade e formidável precisão no pensamento. Mostrou delicadeza ao redesenhar em palavras sua trajetória e pulso firme e coeso ao falar de Políticas Públicas e da Educação no Brasil.

Editando agora a entrevista, aproveitei para conhecer um pouco da história dessa pessoa que conheço há menos de três anos, mas já admiro como se fosse uma colega de militância de décadas.

Boa leitura!

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FED: privilégios de Estado sem o ônus de órgão de Estado

Posted by waltersorrentino on 3rd maio 2011

O privilégio de criar e emitir dinheiro não é apenas uma prerrogativa suprema do governo, mas é a maior oportunidade criativa do governo”. É com essa citação inspiradora da política monetária de Abraham Lincoln, primeiro presidente republicano dos EUA, Ricardo Peres foi convidado por mim a chamar a atenção para um aspecto pouco ventilado no debate econômico (e macroeconômico) mundial, que tem afetado profundamente as relações internacionais.

Ricardo Peres acompanha atentamente o quadro que se desenvolve na luta política dos EUA e eu tinha uma questão em mente relativa ao banco central norte-americano, pouco conhecida. Como diz Ricardo: “O FED tem, por um lado, muitos privilégios desfrutados por órgãos governamentais, mas ao mesmo tempo tem os benefícios de organizações privadas, tais como a imunidade ao Freedom of Information Act. O FED pode fazer acordos com bancos centrais estrangeiros e governos estrangeiros, e o GAO – Government Accountability Office – é proibido de fazer uma auditoria ou sequer ver esses acordos. Todas essas proteções viabilizam a amarração secreta costurando os interesses corporativos, financeiros, militares e políticos. Por que uma agência estabelecida pelo governo, cuja força policial tem poderes de aplicação da lei federal, e cujas notas têm status de curso legal no país, tem a permissão de fazer acordos com potências e instituições bancárias estrangeiras sem supervisão?

Bem, que é o FED, como surgiu, como acumulou esse poder? Parto daí para dar a palavra a Ricardo.

Ricardo, grato pelo esforço. Sei que você acompanha e tem estudado essas questões. O mundo vive a crise capitalista detonada em 2008. Ela afeta especialmente o centro do sistema, EUA, Europa e Japão, e vem produzindo profundas mudanças na geopolítica e correlação de forças internacionais. No centro da crise está o sistema financeiro, o maior poder real da atualidade. E no centro dele os EUA, que tem a liberdade singular de produzir dólares, moeda nacional e internacional a um só tempo (este último aspecto pelo menos por enquanto…). Como as “matriuchkas” russas, no centro do centro está o FED, banco central norte-americano. Foi de lá que partiram os falsos anos de ouro do neoliberalismo e, por extensão, do consenso de Washington que arruinou a periferia do sistema mundial. Nomes como Volcker, Alan Greenspan e Bernancke, são nomes conhecidos em todo o mundo, “guerreiros modernos” da atualidade.

Pergunto: o que é o FED, como surgiu? Todos pensam nos termos da institucionalidade brasileira, um órgão do Estado… Mas não foi exatamente assim que o FED surgiu, pois não?

O FED representa a terceira e mais recente tentativa de centralizar o sistema monetário dos EUA. George Washington fundou o primeiro banco central, em 1791, e James Madison o segundo, em 1816. Entre 1837 e 1862, reinou um período chamado de Free Banking Era, quando apenas bancos estaduais existiam, seguido da implantação de um sistema nacional de bancos. Passada a Guerra Civil, Lincoln foi assassinado em 1865, as crises continuaram, culminando na crise de 1907, que produziu as recomendações da Comissão Monetária Nacional de 1908 (presidida por Nelson Aldrich) que se tornariam a base do Federal Reserve Act de 1913.

Em 1913, Woodrow Wilson se tornou presidente (após uma campanha financiada pelos banqueiros), já prometendo montar um banco central. Dois dias antes do natal, em 23 de Dezembro daquele ano, enquanto a maioria dos membros do congresso nacional estava ausente celebrando as festas natalinas país afora, o PL do FED passou e o presidente ratificou. A arquitetura do FED ficou, principalmente, nas mãos de J.D. Rockefeller, J.P. Morgan, Paul Warburg e, inevitavelmente, dos Rothschilds. Segundo eles, o novo Banco Central seria um “estabilizador econômico”.

A grande maioria das pessoas, inclusive nos EUA, pensa que o FED é uma instituição do governo dos Estados Unidos. Não é. O FED é um monopólio de crédito privado que explora o povo dos Estados Unidos para o benefício próprio e de clientes estrangeiros. Ou seja, especuladores e manipuladores nacionais e estrangeiros. Nesse grupo de piratas financeiros existem aqueles que usam o dinheiro para comprar votos e controlar a legislação do país, e existem aqueles que mantêm uma propaganda internacional com a finalidade de iludir o mundo, visando obter novas concessões que lhes permitam cobrir os crimes do passado e perpetuar seu poder no futuro.

A situação nos EUA não é isenta de conflito sobre esse tema. Como tem sido a reação a esse gigantismo do poder financeiro? O congresso norte-americano, o povo, os verdadeiros democratas?

O povo estadunidense é a primeira vítima desse esquema falsário do FED, e a dívida pública, que já passa dos US $ 14 trilhões, está aí para provar. O esquema tem funcionado mais ou menos assim: os democratas querem mais e mais dinheiro para a burocracia estatal social e os republicanos querem mais e mais dinheiro para a burocracia estatal militar. Como não tem o montante para acomodar todo mundo, a “solução” é se endividar e deixar o FED monetizar essa dívida, o que significa duas coisas: 1) dívida pública crescente, e 2) desvalorização do dólar. A conivência de ambos partidos com o esquema do FED é de natureza sistêmica.

Os verdadeiros democratas são incomuns. Ron Paul no partido republicano, Dennis Kucinich no partido democrata, Jesse Ventura (ex-governador de Minnesota) como independente, Ralph Nader, entre outros, representam exceções gritantes.  A grande maioria está muito satisfeita com essa forma trágica de gerar riqueza, que, inevitavelmente, produz as crises com o objetivo calculado de concentrar cada vez mais riqueza nas mãos da elite.

Ron Paul é um republicano, conservador, mas ele está liderando um movimento de expressão sobre isso. O Tea Party fala dele… que coisa mais contraditória! Fale um pouco do que você vem acompanhando.

Ron Paul é um deputado republicano de viés libertário, uma raridade hoje em dia, apesar de ser o político atual mais alinhado com a constituição do país. Ron Paul pertence a uma linhagem de políticos que lutam contra o corporativismo e, dentro dos parâmetros de partidos políticos, trabalham com uma filosofia libertária de sociedade, muito próxima aos ideais promovidos por gente como Noam Chomsky, Thomas Ferguson e outros acadêmicos notáveis em atividade. Ron Paul é oposição dentro do próprio partido republicano tanto quanto com relação aos democratas, porque aponta problemas sistêmicos da política, assim exigindo uma reorientação da grande maioria de seus colegas no congresso e, claro, criando problemas para todo mundo lá dentro…

A propósito, o deputado Ron Paul recentemente conseguiu uma auditoria parcial do FED, descobrindo, entre outras coisas, que o Banco Central da Líbia recebeu dezenas de bilhões de dólares no esquema de resgate pós-crise, que mulheres casadas com executivos financeiros de alto escalão receberam milhões de resgate, e por aí vai. Um escândalo. Ron Paul quer total transparência, mas a blindagem ao redor do FED ainda é muito poderosa.

Voltando ao rentismo parasitário exacerbado, cujo vértice é o FED, o dólar e o Estado norte-americano, pode-se dizer que não é mais aquela situação clássica do “complexo militar-industrial” quem dá as cartas, mas o complexo “financeiro-militar-industrial”, não é assim?

Correto. Considerando que as despesas militares do país atualmente passam de US $ 1 trilhão, a pergunta é: quem financia isso? A resposta, como já visto na resposta à segunda pergunta, está na dívida pública que já passa dos US $ 14 trilhões. E quem monetiza a dívida para sustentar mais de 700 bases militares em 135 países diferentes? O FED.

Mas, evidentemente, antes de financiar as guerras é preciso de uma razão econômica justificando o financiamento. Então, notamos que o Afeganistão tem minas de Lítio avaliadas em mais de U$ 1 trilhão. Vale a guerra. O Iraque, a Líbia e todo o oriente médio têm petróleo. Vale a guerra. E assim por diante. No final das contas, a OTAN, o Council of Foreign Relations e grupos privados de industrialistas ligados à diplomacia internacional operam como arquitetos do “complexo financeiro-industrial-militar”, digamos assim.

É essencial notar que o FED tem, por um lado, muitos privilégios desfrutados por órgãos governamentais, mas ao mesmo tempo tem os benefícios de organizações privadas, tais como a imunidade ao Freedom of Information Act. O FED pode fazer acordos com bancos centrais estrangeiros e governos estrangeiros, e o GAO – Government Accountability Office – é proibido de fazer uma auditoria ou sequer ver esses acordos. Todas essas proteções viabilizam a amarração secreta costurando os interesses corporativos, financeiros, militares e políticos.

Por que uma agência estabelecida pelo governo, cuja força policial tem poderes de aplicação da lei federal, e cujas notas têm status de curso legal no país, tem a permissão de fazer acordos com potências e instituições bancárias estrangeiras sem supervisão?

No final das contas, a conclusão é que a luta contra o rentismo é uma luta unívoca de todos os povos livres, a começar pelo povo dos EUA. É preciso revelar amplamente que o inimigo não é nem um povo, nem uma nação, nem um ditador e nem uma cultura, mas sim uma oligarquia internacional com nome, endereço e telefone.

Pode-se dizer também que Obama foi “capturado” ou ao menos imobilizado por esse poderio. Para mim ele está se apequenando perante sua mensagem de campanha…

Considere que o Ato Patriota (uma espécie de AI-5) implantado por George W. Bush foi ampliado significativamente pela administração de Obama. Hoje o Estado pode torturar e assassinar “terroristas” explicitamente e sem dar explicações, mesmo tratando de cidadãos estadunidenses dentro de seu próprio país. Nunca as liberdades civis foram tão atacadas como sob o regime de Barack Obama. Além disso, esse presidente entrou numa guerra com a Líbia de maneira inconstitucional, sem aprovação do congresso. Em resumo, Obama foi irremediavelmente emasculado. Dá até dó!

A frouxidão de sua política fiscal tampouco conseguiu criar empregos, como havia prometido. Considere, a) US $ 700 bilhões do programa de resgate econômico, b) quase US $ 1 trilhão em gastos de estímulo, c) a aquisição da General Motors pelo governo e, d) centenas de bilhões de dólares de garantias para Fannie Mae, Freddie Mac, HUD, FDIC, etc.  Além desses programas, foram mais de US $ 4 trilhões de dolares de assistência ao longo dos últimos poucos anos, através de dispositivos de crédito, compras de títulos lastreados em hipotecas, e agora uma segunda rodada de flexibilização quantitativa. No entanto, mesmo depois desses trilhões de dólares em gastos e resgates, o emprego total da folha de pagamento não-agrícola ainda tem sete milhões de empregos a menos do que tinha antes dessa crise começar.

Por fim, o topo 0.1% da população nunca ganhou tanto dinheiro como no presente, enquanto que 42 milhões de pessoas consomem food stamps (segurança alimentar) e outros 45 milhões perderam suas casas desde a crise imobiliária. Como se vê, a mudança prometida por Obama não está ocorrendo.

Que perspectivas você vê nesses enfrentamentos políticos que se travam nos EUA? Você viveu muito tempo lá e conhece os meandros da luta que lá se trava, muito diferente das condições do Brasil. Noam Chomsky e outros liberais (no sentido norte-americano) tem tido papel destacado? E o povo?

O que se nota é um despertar dos jovens do país.  Existe uma massa crítica bastante esclarecida de jovens universitários, que se mostra politizada e crítica da situação. Isso vai ajudar muito para gerenciar o inevitável processo de deterioração social que se desencadeia no país, que tende a piorar bastante. Mas acredito que os jovens vão reagir bem ao esfacelamento e subseqüente reconstrução da sociedade estadunidense.

O que pouca gente sabe é que existem, no presente, várias milícias civis organizadas, especialmente em áreas fronteiriças onde o estado está menos presente, o que sinaliza que a desintegração institucional e social dos EUA está em pleno curso. De fato, estima-se que mais de 200 milhões de armas estão sob controle civil, por conta da segunda emenda constitucional. Também sinalizando o inevitável, os programas secretos da FEMA envolvendo enormes complexos de detenção localizados em seis regiões estratégicas do país deixam claro que o governo federal espera pelo pior.

Ricardo, obrigado.

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Política, sátira e humor de Mossoró

Posted by waltersorrentino on 27th abril 2011

FotoGutemberg

Há tempo devo aos leitores o que vai abaixo. Sempre achei incrível uma revista de política, cultura e humor em Mossoró, ativa desde 2004. É a Papangu. Muita gente boa sustentando isso, entre eles o companheiro que entrevistei para dá-lo a conhecer a vocês.

Gutemberg Dias é formado em geografia pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, mestrando em Recurso Naturais (UERN), diretor técnico da empresa PROGEL, ocupa desde 2005 o cargo de Conselheiro Regional do CREA/RN, está presidente do Comitê Municipal do PCdoB de Mossoró tendo sido candidato a vice-prefeito em 2008 e candidato a deputado estadual em 2010.

Um blogueiro só não faz o verão. Tenho muitas pessoas para conversar e fazer conhecidas dos leitores do blog. Algumas “me devem” um retorno há meses! Gutenberg saiu na frente.

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Inclusão digital para socialização do conhecimento

Posted by waltersorrentino on 14th março 2011

fotopercival5 (1)Quero que vocês conheçam Percival Henriques de Souza. É um desses brasileiros que “se fez”, implausivelmente, como homem de ideias, de alta capacidade empreendedora, comunista. Eu vou deixar ele mesmo contar essa história ao final desta importante conversa, voltada para algo decisivo: inclusão digital, movimentos sociais, potenciais de emancipação. Ele preside a ANID, Associação Nacional de Inclusão Digital, que todos precisam  conhecer e utilizar. Depois da entrevista com Mágico Fu-Xu sobre o tema, espero demonstrar o quanto o considero estratégico. Com vocês Percival.

Caro, como surgiu a ANID e qual seu objetivo?

A ANID surgiu meio que por acaso. Existia um esforço para organização dos pequenos provedores de internet e muitas associações foram criadas. Ajudei na mobilização e estruturação de algumas dessas entidades. Contudo, não me enquadrava nestas organizações, por não ser dono de provedor de internet e, ao mesmo tempo precisávamos de algo mais amplo que fomentasse realmente a inclusão digital, ajudasse as pessoas a conseguirem obter o melhor da tecnologia para melhorar suas vidas, sua cidade, sua comunidade. Tínhamos necessidade de organizar, não apenas as iniciativas dos provedores de internet, mas todo e qualquer esforço que contribuísse para a socialização do conhecimento a partir de empreendimentos de base tecnológica. Assim, há três anos, um grupo de  dez pessoas, apertadas na sala de meu apartamento em João Pessoa, fazia a assembleia de fundação da ANID.

O objetivo geral da ANID é a socialização do conhecimento.  A luta pela Inclusão Digital, Democratização da Comunicação, Universalização da Banda Larga, Fortalecimento das Micro e Pequenas Empresas de Base Tecnológica, entre outras bandeiras, são etapas a serem vencidas por esse objetivo maior.

Quais projetos estão sendo desenvolvidos com vistas nisso?

Trabalhamos com quatro grandes frentes:

a) Construção de uma infraestrutura nacional independente de comunicação por IP, capaz de interferir, mesmo que de maneira singela, no monopólio das grandes empresas de telecomunicação, fomentando e fortalecendo a atuação no setor por micro e pequenas empresas de base tecnológica, estados, municípios, associações de moradores e outras entidades da sociedade civil.

A Rede da ANID tomou proporções surpreendentes. Estamos fisicamente do Ceará ao Rio Grande do Sul, crescemos de quatro a seis novos pontos de presença, a cada mês, com capacidade para centenas de Mbps. Para se ter um ideia, a nossa capacidade de trânsito e transporte de banda IP é maior que a do Serpro – Serviço de Processamento de Dados do Governo Federal, por exemplo.

Para agilizar todo esse processo e minimizar custos, montamos uma pequena metalúrgica como parte integrante do patrimônio da ANID, esta também sem fins lucrativos, que já conta com vinte e dois funcionários trabalhando exclusivamente  na fabricação de torres para telecomunicações, abrigos para os equipamentos, contêineres e  estruturas metálicas para os Centros de Cultura Digital da ANID, além de alguns projetos pontuais.

Outros pontos de presença nossos têm estrutura de data center, nos quais  instalamos servidores e disponibilizamos espaço, sem nenhum custo, para que o CGI.br instale pontos de troca de tráfego.

Montamos também uma estrutura de telefonia IP capaz de processar centenas de milhares de ligações simultâneas. Esse serviço ainda é usado de forma muito tímida. Está ativo há mais de um ano, mas não utilizamos nem 5% da capacidade disponível. Pretendemos fazer um amplo programa de telefonia social em parceria com o movimento comunitário. Imagine instalar esse serviço nas residências, onde um morador da comunidade da Maré no Rio possa falar com a prima no Alto do Moura em Caruaru, ou com a avó Baturité no Ceará, o tempo que quiser, sem pagar um tostão para nenhuma grande tele, por estarem os dois dentro dessa rede comunitária nacional.

b) Produção de conteúdo e software livre

Uma das diretrizes da ANID é o uso de tecnologias livres, de forma que não usamos software proprietário e todo o resultado do nosso esforço de criação  também é livre. Da prensa hidráulica, que projetamos e construímos para a automatização da fábrica de torres, aos programas de computador para gestão de associações e de pequenos provedores de internet e lan houses, que estamos desenvolvendo, são livres, podem ser copiados e modificados e os autores das modificações obrigam-se a mantê-los abertos.

Atualmente, mantemos uma equipe destinada exclusivamente à manutenção de servidores, desenvolvimento de novas aplicações e pesquisa de novas tecnologias.

c) Formação continuada em telecomunicações e gestão de pequenos negócios de base tecnológica

A ANID promove sistematicamente treinamentos e cursos em todo Brasil. Nos dois últimos meses, tivemos atividades em João Pessoa, Brasília, Curitiba e Porto Alegre e até o final de 2011 serão mais de 30 cursos em 15 estados, envolvendo temas como fibras ópticas, rádio enlaces de alta capacidade, gestão de pequenos negócios, entre outros.

d) Apoio a iniciativas da sociedade civil pela democratização da comunicação e inclusão digital

À medida de nossa capacidade, procuramos cooperar com quaisquer atividades de outras organizações que efetivamente contribuam para democratização das comunicações e para a inclusão digital. Nesse esforço estamos lançando, ainda neste mês de março, um edital no valor de R$ 4.900.000,00 (quatro milhões e novecentos mil reais) a serem aplicados em conexões banda larga de alta capacidade, dentro da rede ANID, para fortalecer projetos de entidades da sociedade civil.

Pretendemos disponibilizar salas de reunião em vídeo conferência para entidades do movimento popular, incentivar pontos de acesso à internet de alta velocidade, dentro de associações comunitárias e clubes de mães, inclusive como oportunidade de utilização da telepresença para palestras e debates com nomes nacionais da cultura, política, ciência e tecnologia. Ou, ainda, fazer com que essa interação aconteça entre as comunidades, visando o inter-relacionamento entre os movimentos sociais e populares, independente se uns fazem parte da luta sindical, outros são ativistas culturais ou atuam no movimento de mulheres, índios, negros ou LGBT. Nós podemos reforçar a luta de cada setor e  incentivar a mobilização coletiva a partir do uso da tecnologia e ferramentas que democratizem e deem efetividade e eficácia à comunicação.

Acredito que o potencial desta rede para o movimento social e popular é revolucionário e outras  parcerias surgirão naturalmente.

Você integra comissão do governo responsáveis pela democratização da informação?

A minha aproximação com o governo face à inclusão digital ainda é muito recente. Nos primeiros seis anos do Governo Lula eu estava profissionalmente ligado ao INMETRO e a minha atuação “governamental” esteve, neste período, voltada à Metrologia Legal e Avaliação da Conformidade, quando exercia o cargo de Diretor Técnico do Órgão Delegado da Autarquia na Paraíba. Nessa fase, acabei assumindo alguns grupos de trabalho no âmbito do Mercosul no sentido de internalizar regulamentos técnicos, ou seja, no governo o meu negócio era proteção do consumidor e harmonização de regulamentos de produtos.

Nos últimos dois anos, minha dedicação foi exclusivamente para ANID,  aproximando-me das ações do governo a partir da Conferência Nacional de Comunicação em 2009. Com a discussão do Plano Nacional de Banda Larga nos engajamos pela reestruturação da Telebrás e pela formação do Fórum Brasil Conectado, do qual acabamos ficando de fora, por questões que até hoje não entendemos direito.

Em fevereiro deste ano fui eleito para o conselho do CGI.br que é o fórum oficial da governança de internet no Brasil.

Quais as perspectivas hoje do MinComunicações?

Vejo com grande entusiasmo a postura do Ministro Paulo Bernardo na defesa dos interesses mais legítimos da sociedade brasileira, pela democratização das comunicações, inclusão digital e massificação da Banda Larga. Entendo que o acirramento na campanha eleitoral, onde a grande mídia atacou de forma implacável o candidatura Dilma, contribuiu, de forma decisiva, tanto para o posicionamento quanto pela própria escolha do ex Ministro do Planejamento de Lula para pasta da comunicação.

Outro recado importante com essa escolha diz respeito ao PNBL. Se a então ministra Dilma era “mãe do PAC”, o ministro Bernardo é o “pai do PNBL¨. Ou seja, mudou a motivação e a escolha sinaliza claramente a opção do governo Dilma por um avanço na pasta das comunicações. Não podemos esquecer que mesmo no governo Lula, o Ministro das Comunicações era ligado à Rede Globo e passou todo tempo defendendo a política neo liberal herdada de FHC e os interesses dos grandes grupo empresariais do setor.

Acredito que o governo Dilma, neste momento, é um governo em disputa, no sentido de que a grande mídia, as teles e poderosos grupos econômicos não vão desistir da cooptação do Ministro Paulo Bernardo e da própria Presidenta para o seu campo, e entendemos que isso não atende aos interesses do povo brasileiro. Por outro lado, não dá para simplesmente assistir o bonde passar achando que as coisas se resolvem para um lado ou outro apenas pela vontade pessoal de quem detêm um mandato ou ocupa um cargo no executivo.

Sem o acompanhamento e mobilização dos movimentos sociais e a compreensão exata das lutas que se travam bem como a identificação das forças envolvidas, ganha o lobby profissional, cuja eficácia e efetividade é inversamente proporcional ao controle social  que tentamos garantir para o setor.

Enfim, pela primeira vez temos um Ministro das Comunicações com um discurso alinhado ao dos movimentos sociais. Particularmente, gosto da pessoa e do estilo. Objetivo, raciocínio rápido, não se incomoda, mistura vários sub temas na mesma conversa – bombardeio com informações e ele tira de letra, consegue em uma reunião ficar dois ou três tempos à frente da própria equipe técnica.

Contudo, há uma questão em aberto na relação do Paulo Bernardo com os movimentos sociais, notadamente os sindicatos de servidores públicos face às lutas salariais durante o período em que esteve no Ministério do Planejamento. Ora, era ele quem tinha a missão do corte no orçamento e não vem ao caso discutir a política econômica que desembocava no contingenciamento. O que eu defendo é que a visão precisa ser dialética. É o momento político atual e suas correlações de forças que precisam ser considerados. E o Minicom foi quem mais avançou, até agora, em todo governo Dilma.

O empreendedorismo parece ser marca forte em você. Que planos você tem para o futuro? Nesse tipo de envolvimento que você tem, onde você e a ANID estarão em cinco anos?

Não tenho planos de longo prazo. Espero contribuir pontualmente com uma onda de mudança política e tecnológica que deve acontecer nos próximos dez, quinze anos. Acredito que a marca forte é diminuir prazos para se resolver questões que, para muitos ,podem parecer inatingíveis e aí o segredo é estar atento para não perder o bonde da história.

Pretendo concorrer a reeleição na ANID no final deste ano. Assim, em cinco anos, se reeleito, estarei terminando o segundo mandato e pode ter gente mais arejada, com mais gás para tocar a ANID e eu, estando presidente ou não, ainda vou estar “lambendo a cria”. Acredito na organização do povo, na educação como base do desenvolvimento, no conhecimento como patrimônio coletivo e, com certeza, é nessa trincheira que vou estar daqui a cinco anos, seja como presidente ANID, professor, advogado, projetista de máquinas, militante do PCdoB ou cumprindo qualquer outra missão que a vida me presentear.

Percival, disse no início que você tem uma história implausível, no sentido que deve dar-lhe orgulho. Conte como foi que você chegou aí.

Nasci no dia 27 de dezembro de 1963, na capital da Paraíba, em um bairro bem afastado do Centro. Filho de mãe solteira, não conheci meu pai e fui criado por meu avô até os 11 anos.

Tenho lembranças bem antigas, da minha primeira infância mesmo, de muitos momentos com minha avó, que era a filha mais nova de um senhor de engenho da Mata Norte de Pernambuco, deserdada por fugir de casa e casar com um caboclo, neto de potiguaras, trabalhador braçal e analfabeto chamado Percival – ela morreu antes que eu completasse 05 anos, mas ainda lembro do seu cheiro, de todas as tardes com ela, do doce de araçá, da batida vigorosa no pilão fazendo do milho xerém, do café em grão misturado com rapadura no tacho de barro, do fogão de lenha e do aroma de café torrado, impossível de esquecer. Dessa fase de minha vida recordo até das galinhas no quintal, de cada uma delas, me perseguindo para defender suas crias. E foi essa facilidade para guardar as coisas que vejo e escuto que, de uma certa forma, me ajudou a compensar a ida “tardia” para escola.

Nos anos que se seguiram, após a morte de minha avó, grudei em meu avô e, todos os dias, assim que ele chegava do roçado, íamos caçar. Era muito mais que uma forma de termos carne no almoço. Os lambus, almas de gato, rolinhas, galinhas d’água e outros animais que o “Caipora” nos permitia caçar, eram apenas um detalhe. Toda a base do aprendizado de uma vida estava ali, a minha hiperatividade educada pela necessidade do silêncio e atenção na espreita da caça e o esforço recompensado com conselhos e histórias ancestrais contadas pelo meu avô no caminho de volta para casa, onde uma de minhas tias tratava as aves e as assava na brasa, para que comêssemos com feijão, farinha, maxixe e, às vezes, pedaços de manga rosa e pimenta malagueta com a qual tenho uma profunda relação sensorial desde essa época.

A minha tia Luiza, que era operária em uma fábrica e a única que tinha salário na família, resolveu que eu, já com 09 anos, devia ser alfabetizado e contratou uma professora particular. Foi um processo difícil, o fim das manhãs com meu avô e a minha facilidade para decorar as lições atrapalhavam o processo de aprendizado e decodificação da linguagem. Assim, eu “lia” trechos de jornais, revistas e folhas de gibis que geralmente vinham como embrulho de sabão em barra e outras mercadorias compradas na venda de seu Biu. O problema era que eu só conseguia “ler” se alguém lesse uma vez antes para eu decorar. Não importava se uma, duas ou três páginas, eu decorava.

Com quase 11 anos, fui para casa da minha mãe e meus irmãos que moravam em um bairro mais próximo do Centro. Passei a conviver com luz elétrica, água encanada, chuveiro, vaso sanitário. Era outra atmosfera, na rua coberta por paralelepípedos trafegavam as marinetes que haviam substituído os velhos bondes cujos trilhos ainda estavam por lá e nas manhãs, logo após o som dos galos, agora eu ouvia os vendedores de pão, de cuscuz bondade soprando flauta, o verdureiro aos gritos, o vendedor de peixe, o comprador de ferro velho avisando “compro litro, meio litro, garrafa meia garrafa”. A luz era outra; quando eu abria a porta via o cinza do calçamento e o colorido das casas. Era como se eu tivesse mudado de planeta.

Na metade do ano letivo, fui apresentado a minha nova escola, na verdade era um único vão nos fundos da casa de uma professora que ensinava a alunos da primeira a quarta séries ao mesmo tempo, em um único espaço físico. Dona Deca esforçava-se na organização do “rodízio”; eram dois quadros negros, cada um de um lado da sala e divididos ao meio. Os alunos da primeira e segunda séries ficavam de costas para os alunos,  da terceira e quarta séries, e cada grupo usava metade de um dos quadros. Dessa forma um quarto do tempo total era destinado para explicação da cada grupo e os três quartos restantes para fazer exercício. Não demorou e eu estava acompanhando o assunto das outras turmas. Em um ano e meio recebi o certificado do primário, consegui passar no exame de admissão do Colégio Oscar de Castro e pude entrar na quinta série com 12 anos de idade.

Antes de completar 14 anos eu já havia estabelecido um ritmo intenso de atividades. Era o presidente do Centro Cívico da escola, havia organizado o clube de xadrez, estava no movimento escoteiro, treinava judô, reproduzia e vendia peixes ornamentais, além de trabalhar em uma tipografia – meu grande sonho profissional era ser impressor de off set.

Entrei para o segundo grau no Colégio Osvaldo Pessoa que fica em um bairro próximo ao Distrito Industrial, no qual fiz o curso técnico em Processamento de Dados. No primeiro ano fui presidente do Centro Cívico, organizamos grupo de teatro, grêmio literário e feira de ciências. Nesse tempo conheci o pessoal que vendia o Jornal Tribuna Operária em frente da fábrica próxima ao colégio e onde minha mãe trabalhava como costureira.

A partir desse contato, entrei para o PCdoB, ainda clandestino e cerca de dois meses depois fui convidado para participar da direção do Partido. Estávamos no inicio da década de 80, militei no movimento estudantil, participamos da luta pelo fim da ditadura, pelas Diretas Já e por uma Constituinte livre e soberana.

No final dos anos 80 conclui o curso de física na UFPB, contudo nunca atuei especificamente na área. De lá pra cá trabalhei como professor de informática,  programador, analista de sistemas, gestor de projetos de TI, presidi uma cooperativa de serviços de informática e telecomunicações, ajudei a montar vários provedores de internet, militei no movimento de software livre, conclui um bacharelado em Direito, dirigi a área técnica do órgão delegado do INMETRO na Paraíba e, desde a fundação em 2007, exerço a presidência da ANID.

Muito obrigado Percival, aprendi muito e acho que o leitor também. Deixo uma dica que me pega a alma. Alguém – por que não a ANID – vai precisar traduzir todos esses termos em inglês (inevitáveis pelo vanguardismo norte-americano nessa fronteira de desenvolvimento da TI e computação) para o português que qualquer um poderia entender, principalmente nossa turma jovem. Uma espécie de glossário. É muito chato macaquear palavras que nem sempre sabemos a que se referem no sentido técnico mais preciso.

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Novíssima Viagem Filosófica da brasilidade na Terra sem Mal

Posted by waltersorrentino on 19th fevereiro 2011

Na mosca! Conheci Varela três dias atrás, em Belém. Antes, indo ao Amapá, recebi mensagem dele no tuíter. Mas foi na homenagem a Neuton Miranda que ele me envolveu, culto, inteligente, com prosa inesgotável (a gente não quer que termine). Na hora, pedi-lhe uma entrevista pro blog. É um presente de domingo aos leitores no conversa.com.

O caboco marajoara, patriota do Marajó, mostra suas armas. Vejam vocês mesmos. Deixei a biografia pro final, o melhor é curtir sua prosa antes. Ele é sobrinho de Dalcídio Jurandir, romancista e intelectual de nomeada daquelas terras, sempre prestigiado pelos comunistas.

Delicioso: “segundo Montaigne e Rousseau, foram “embaixadores” tupinambás levados à corte de Ruão que sugeriram aos sans cullote, anos mais tarde, a revolução de 1789”. A utopia da Terra sem Mal frutificou nestas paragens.

Jose+VarellaVarela, Belém completa 400 anos em 2016 e São Luís agora em 2011. Há ligação entre os dois processos, pois não? Aliás, envolvem disputas Portugal X França e isso foi precedido por Olinda…

Tenho escrito alguma coisa sobre isto. Em 1999, no ensaio “Novíssima Viagem Filosófica” abordei o que se poderia dizer teoria do bumerangue: a conquista ultramarina atraindo sobre a Europa imperial efeitos inesperados da dispersão da velha Lusitânia pelo desvio do Atlântico Sul, se estabelece em Nova Lusitânia (Olinda, Pernambuco), se irradia para o Norte e funda Feliz Lusitânia (o Grão Pará, Amazônia lusitana (1616-1823), que se transformou na Amazônia brasileira através de um complexo processo histórico pouco conhecido do público luso-brasileiro.

Em 2002 reincidi na tentação historiográfica e publiquei um novo ensaio chamado “Amazônia Latina e a terra sem mal”. Desta vez, me atrevi a dizer que foram os Tupinambás os verdadeiros conquistadores do rio das Amazonas ao lado de arcabuzeiros “portugueses”, na verdade mamelucos de Pernambuco e da Paraíba. Os portugueses propriamente ditos colonizaram a região depois de conquistada por remos e arcos tupis. No que tange à França, segundo Montaigne e Rousseau, foram “embaixadores” tupinambás levados à corte de Ruão que sugeriram aos “sans cullote”, anos mais tarde, a revolução de 1789. Como se recorda a “Terra sem mal” é a utopia dos índios (lugar mítico sem fome, trabalho escravo, doença, velhice e morte) que corresponde à idéia de um paraíso eterno ou sociedade igualitária justa e perfeita.

A partir dos 400 anos de São Luís do Maranhão (cidade afrolatino-americana por excelência), em 8 de setembro de 2012, pode-se revisitar a invenção da Amazônia. Obra iniciada em Olinda-PE, durante o movimento sebastianista português, interno na chamada União Ibérica (1580-1640), que incluiu a ocupação holandesa do Nordeste e do Norte e remete à aventura geopolítica do “Quinto Império do Mundo” pelo controvertido e genial Padre Antônio Vieira, condenado pelo Santo Ofício pela heresia judaizante original do monge Joaquim de Fiori.

Minha tarefa consiste apenas em provocar a discussão acadêmica para inclusão das populações brasileiras marginalizadas pelo processo histórico e apartadas ainda na historiografia brasileira. Compreendo que não pode haver inclusão social nem cidadania de fato sem prévia inclusão no tempo e no espaço político do País.

A França teve posição ambígua na expansão colonial como monarquia católica e potência mercantil protestante: a denúncia, pelo monarca Francisco I da França, do tratado de Tordesilhas de 1494 entre Portugal e Espanha homologado pelo Papa Alexandre VI, o famoso “testamento de Adão”; explica esta contradição interna francesa, donde a precariedade da “França Antártica” (Rio de Janeiro) de Villegaignon; e da “França Equinocial” (Maranhão) de La Ravardière.

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A liberdade de conhecimento e a internet

Posted by waltersorrentino on 22nd janeiro 2011

O mapa-mundi segundo as patentes.

http://www.worldmapper.org/images/largepng/167.png

O conversa.com privilegia fazer conhecer pessoas interessantes cujo trabalho se associa a temas importantes (e geralmente subestimados) de nossa ação política. Hoje vou apresentá-los a uma figura que junta essas três coisas à perfeição. Devo-o a indicação de outra entrevistada, Carla Santos (link), postagem que motivou o maior “assédio” ao blog. Obrigado Carla!

Vou falar com Fabrício Solagna, o mágico FuXu. Quer dizer, ele vai falar conosco. O tema é o futuro da sociedade em um mundo cada vez mais interconectado, onde a interação desintermediada e a tecnodependência poderiam tomar propósitos de empoderamento do ser humano. Temas assim, às vezes ficam longos, mas este o posto sem rebuços: vale a pena ir até o fim. O cara sabe das coisas.

A propósito, ontem o Diário Oficial editou instrução normativa que estabelece as normas de criação do software público brasileiro, modelo de licença livre, adotado por todo o governo e permitirá a utilização gratuita de seus conteúdos para fins de cópia e distribuição. É amparada na “tese do bem público”. A decisão da ministra é incompreensível após tantos anos de lutas, de compromissos assumidos, de plataformas apontadas nas eleições. Dilma Rousseff, Ana de Holanda e Aloísio Mercadante têm que dar melhores explicações de terem rompido com a licença Creative Commons do sítio do MinC, instituída por Gilberto Gil em compromisso com o livre conhecimento. Este blog segue com a licença CC.

Essas são facetas estratégicas do tema. Outra é a rapidez das transformações, como pode ser visto no filme A Rede Social, que mais parece um filme datado, de época, não obstante ser a época atual. Dez anos são um uma escala geológica nesse caso. Vale a pena conhecer a experiência de alguém, ainda jovem, que vivenciou e estudou essas mudanças.Uma arqueologia.

Inclusive quanto à divertida (mas séria) história de uma patente que foi concedida e depois caçada na Austrália. É um “dispositivo circular de auxílio ao transporte”, que, nada mais é do que a roda, inventada a milhões de anos. Essa patente foi obtida por um conjunto de militantes críticos ao sistema de patentes que queriam demonstrar como o sistema era falho e sujeito somente a uma gramática jurídica interna. Lembra aquele caso de publicação de artigo absurdo pós-modernista numa famosa revista científica…

Fabrício, pelo começo. Mágico? FuXu?

Walter, meu apelido está diretamente ligado com a relação com o PCdoB. Quando estava saindo um pouco do meu quarto escuro em que ficava noites aproveitando uma internet discada e de baixa velocidade, encontrei um amigo de quem comprava discos de Vinil. Comentei que estava procurando apartamento para dividir e ele me indicou dois outros comunistas, Alex Necker e Jorge Vinicius. No dia da mudança, não sei porque um livro velho que havia lá em casa acabou parando na minha caixa. Ele se chamava “Manual do Mágico Amador”, escrito pelo por um suposto mágico argentino chamado Fu-Xu. O livro era cômico, escrito com um português anterior a reforma de 62, com coisas como telepatia e ilusionismo. Bem, bastou para ser adotado como apelido. Hoje, pessoas para além do partido me conhecem pelo meu nick. Na internet, passei a adotá-lo também e, se alguém me pergunta sobre o interesse sobre truques e mágicas até arrisco dizer que tenho certo interesse (rsrs).

Então quem é você?

Fu Xu

Sou Fabricio Solagna, 30 anos, sociólogo, formado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Vivo em Porto Alegre, mas nasci no interior do estado, em Passo Fundo. É conhecida pela Jornada Internacional de Literatura mas, na década de 60 e 70, foi adotada pelo cantor regionalista Teixeirinha, um fenômeno que chegou vender 88 mil cópias em 40 discos e produziu 12 longas-metragens. Decidi vir para cá em 2004 para estudar em uma universidade pública. Hoje não me imagino morando em outro lugar do Brasil.

Trabalho em uma ONG que promove anualmente o Fórum Internacional de Software Livre, auxiliando a organizar o temário do evento. A Associação Software Livre.org (ASL.org) é uma entidade que nasceu em meio à erupção da discussão sobre software livre no Brasil. Desde o final da década de 90, tanto o Governo Olívio Dutra como os Fóruns Sociais Mundiais alavancaram a discussão para além das esferas técnicas. Em pouco tempo, estava em páginas de revistas e jornais e, principalmente, tomando a pauta das discussões sobre o futuro da sociedade em um mundo cada vez mais interconectado, onde a interação desintermediada e a tecnodependência poderiam tomar propósitos de empoderamento do ser humano. Logicamente, foi um momento de explosão da utilização de sofreares livres em todo mundo, a expansão da internet foi, na sua grande medida, a expansão dos modelos abertos e colaborativos de construção de software.

Atualmente faço parte de um grupo de pesquisa chamado ANTROPI, ou Antropologia da Propriedade Intelectual (www.urfrgs.br/antropi). Temos um livro publicado (http://www.tomoeditorial.com.br/?m=livro&cod_livro=705)  e algumas pesquisas espalhadas pelo mundo através dos nossos pesquisadores associados.

Vamos falar sobre o que forma esse amálgama entre técnica, antropologia e militância … Como foi essa trajetória entre os computadores?

Quando encontro amigos que não vejo há tempos,  a pergunta recorrente é em qual área de exatas eu me formei. Bem, a pergunta é pertinente pois era uma aspiração de adolescente quando a maior parte do meu dia era dedicada a desmontar alguns computadores ou perder (ou ganhar) as noites na internet. No ensino fundamental ganhei uma bolsa de estudo de apenas um mês em escola de informática, em Passo Fundo. Era 1992. Uma escola simples, com computadores antigos. A Internet no Brasil ainda nem havia chegado ao estágio comercial – havia alguns cabos que conectavam a UFMG, UFRJ e a USP a Universidade da Califórnia, em São Diego. Comecei a aprender algoritmos rudimentares em BASIC, por ironia do destino uma linguagem que se tornara muito popular na década de 80 por conta dos computadores Altair  que alavancaram a embrionária Microsoft. Eu, especificamente, estava aprendendo num TRS-80 clonado, produzido no Brasil fruto da reserva de mercado de informática.

Costumo dizer que me convenci a me tornar sociólogo dez anos depois porque comecei a aprender programação de maneira errada. O BASIC é uma linguagem pouco estruturada e muito permissiva, com poucos comandos de manipulação. Bem, se tratando de 1992, essas máquinas eram extremamente ultrapassadas, sendo a época da explosão de sistemas de janelas e o triunfo dos sistemas sujos, como o MS-DOS e o sistema de Janelas Windows 3.10. A vantagem é que conheci um sem número de computadores antigos e manipulá-los me causava um prazer tão grande como se a cada algoritmo novo que eu criava era como se o Joshua falasse comigo [WOPR/Joshua era o computador estrelado no filme "War Games" em 1983; no enredo, um adolescente acessa acidentalmente um mainframe militar que controlava a capacidade de ataque e defesa nuclear norte-americano. Atipicamente para época, o computador era capaz transformar as respostas de texto em voz, a exemplo do HALL em 2001: Uma Odisseia no Espaço].

Algum tempo depois, eu estava trabalhando em computadores Intel 386. Como eram computadores dispendiosos e caros, as escolas de informática eram a maneira mais fácil de se manter perto de um terminal.  Outra estratégia minha na época era visitar as lojas (escassas) de computadores, e na maioria das vezes os vendedores eram atenciosos e acreditavam que de fato eu estava realmente a fazer algo sério nos computadores. Mal sabiam que na minha casa ainda nem havia um televisor em cores.

Com 14 anos comecei a trabalhar em um jornal local como “digitador” – um ofício que já faz parte da história. Meu papel era receber as laudas da redação e redigitar em terminais PC XT. Foi muito divertido voltar para a tela verde sem gráficos, mas o que eu tinha disponível era nada além de um editor de texto – o famigerado WordStar. Fiquei por lá por quatro anos, porém, foi em 1998 que começou uma outra pequena revolução.

Éramos garotos entre 17 e 18 anos experimentando as primeiras conexões da internet. Trocamos o dia pela noite. As conexões eram por linha telefônica e após as 0h o valor da conexão era bem mais baixa. Ficávamos conectados até as 6h da manhã, quando a tarifação voltava a subir. Nossas aulas eram à tarde, o que nos permitia dormir pela manhã. O meu trabalho começava às 18h e iria até 0h, os horários eram perfeitos. Não tínhamos muita vida social além dessa. Logicamente, também organizávamos conversas de pessoas que se encontravam só na Internet, o que provava para nós mesmos que não estávamos conversando com o R2D2 [robô amigo de Anakin Skywalker na serie de Star Wars].

Num final de semana estávamos reunidos esperando que o download terminasse. Era imenso e durou cerca de dois dias. Nem sabíamos ao certo o que era – a idéia fora dada por outro amigo. Um sistema operacional do tipo *nix [sistemas parecidos com Unix]. Depois de gravar o primeiro CD com uma estação de gravação emprestada, começamos a instalar o sistema lendo um manual de cerca de 200 páginas. Depois de dois dias e a noite do domingo para a segunda sem dormir, pela primeira vez apareceu na tela uma mensagem “Welcome to Slackware Linux 3.1! Login:”.

Entramos em um mundo em que não fazíamos a mínima idéia, mas que explicava como o resto do mundo funcionava. Enfim, parecia que tínhamos realmente de fato entrado em contato com um sistema operacional de verdade, onde grandes sistemas, provedores de internet, enfim, grandes aplicações da internet funcionavam [nesta época, por ironia, o software livre de código aberto mais usado era o Apache - e ainda é - para hospedar sites de Internet].

Quer dizer, foi como ter escolhido a pílula azul, conhecer as liberdades… Já estamos na década de 80, do micro?

Sim, a década de 80 foi o nascimento do conceito de micro-computação e a idéia que cada pessoa poderia ter seu próprio computador. Foi o momento também em que grandes gigantes nasceram, como a Apple e a Microsoft. Foi o momento que conhecemos o computador tal como conhecemos hoje, com interfaces gráficas, mouse, etc. Também o software mudou, tendo cada vez mais importância sobre o resto do processo. A principal mudança se deu na forma de comercialização, agora cada vez mais concentrado em venda de “licenças de uso” do software, ou seja, uma quantia paga por “pedir uma licença” para usar um software já criado. Desde então, a venda de software se tratou da venda do software em sua linguagem “de máquina”.

O processo de criação de um software consiste na ordenação em sintaxe imperativa, comandos muito parecidos com a linguagem natural. Esse é o que se chama de código-fonte, linguagem que seres humanos podem ler. Em resumo, o código-fonte é como se fosse uma “receita de bolo”, aquela que você utiliza para fazer o seu doce preferido. O bolo em si é o código binário, ou seja, está pronto para ser servido.

Como todo ser criativo, com uma “receita de bolo” você pode variar a composição e alterar a receita, o resultado vai depender da sua experiência, criatividade e eficiência. Se você tiver acesso somente  ao bolo para consumir, talvez nunca saberá produzir um e ficará dependente da padaria mais próxima. Talvez você nunca queira  produzir um e seja melhor ir na esquina comprar um bolo pronto, mas, nesse ponto, a escolha e a liberdade é sua.

No mundo do software, a analogia do código-fonte e código binário funciona nesse sentido.  Quando somente uma cópia do software é vendida com uma licença de uso, na verdade se está assinado um atestado de dependência. Por conta dessa mudança, alguns especialistas na década de 80 lançaram o movimento de software livre.  Richard Stallman, que no momento trabalhava no  MIT lançou um apelo a outros hackers:

“Eu acredito que a regra de ouro exige que, se eu gosto de um programa, eu devo compartilhá-lo com outras pessoas que gostam dele. Vendedores de software querem dividir os usuários e conquistá-los, fazendo com que cada usuário concorde em não compartilhar com os outros. Eu me recuso a quebrar a solidariedade com os outros usuários deste modo. Eu não posso, com a consciência limpa, assinar um termo de compromisso de não-divulgação de informações ou um contrato de licença de software. Por anos eu trabalhei no Laboratório de Inteligência Artificial do MIT para resistir a estas tendências e outras inanimosidades, mas eventualmente elas foram longe demais: eu não podia permanecer em uma instituição onde tais coisas eram feitas a mim contra a minha vontade. Portanto, de modo que eu possa continuar a usar computadores sem desonra, eu decidi juntar uma quantidade de software suficiente para que possa continuar sem nenhum software que não seja livre. Eu me demiti do Laboratório de IA para impedir que o MIT tenha qualquer desculpa legal para me impedir de fornecer o GNU livremente”.

Vejamos se entendi: Stallman não queria aceitar que o seu trabalho fosse apropriado por outro?

Sim, exato. O fruto do trabalho da programação deveria ser mantido aberto, para que qualquer um pudesse reaproveitá-lo, modificá-lo ou consertá-lo. Não achava justo ter que constantemente assinar contratos de confidencialidade onde teria que se comprometer em deixar em segredo, inclusive de seus amigos, o que estivesse sendo desenvolvido. Sua justificativa moral remete  às raízes do liberalismo, porém, em um momento de predomínio de corporações sobre as áreas do conhecimento, serviu para inspiração para um novíssimo movimento social, baseado nas liberdades de se manter uma generosidade intelectual. Do movimento software livre nasceram os movimentos em torno da flexibilização do direito autoral ou mesmo de outras maneiras de se pensar a mídia, como é o caso do Wikileaks.

Hoje, um dos softwares livres mais conhecidos talvez seja o Linux. O mais usado por usuários finais hoje, talvez, o navegador Firefox. Porém, eles ainda não explicam a origem do termo.

Bem, voltaremos logo ao tema. Mas e a militância política, no caso, o PCdoB, o socialismo? Como foi esse encontro?

Entre uma instalação ou outra do novo sistema, eu costumava visitar um amigo para comprar discos de vinil.  A casa onde eu o visitava também funcionava a sede do Partido e, a cada visita, observava os posters, cartazes e, em muitas oportunidades ia conhecendo outras pessoas que ali circulavam. Até que um dia fui convidado para uma reunião, em pouco tempo, estava filiado.

O RS estava sendo governado pelo governador Olivio Dutra do PT e ocorriam as primeiras experiências da utilização do software livre na esfera pública. Já haviam acontecido as primeiras edições do Fórum Internacional de Software Livre e Richard Stallman já havia pisado em solo gaúcho. Muitas notícias já circulavam na internet e na imprensa escrita quando então, resolvi acompanhar presencialmente.  Aproveitando amigos conhecidos através do Partido em Porto Alegre, me hospedei na capital gaúcha durante uma semana e acompanhei dias de intensos debates, palestras e mostra de soluções num evento que era, e anda é, o maior evento de tecnologia livre do hemisfério sul.  Naquele momento, em meio a hackers, políticos, gestores, técnicos, percebi que o movimento de software livre estava além de aspirações técnicas, como divertimento de jovens que perdiam horas na frente do terminal. Era o momento uma nova forma de pensar tecnologia, com base nos princípios do que Stallman havia sugerido há quase 20 anos atrás. O próprio slogan do Fórum, falava por si só: “Tecnologia que liberta”.

A partir dessas duas experiências, software livre e Partido, é que decidi estudar sociologia. Acredito que a leitura marxista que aprendi desde então também me serviu muito para interpretar o mundo interconectado, principalmente a partir da perspectiva crítica da propriedade intelectual.
Voltemos ao tema da liberdade nesse contexto. Você falou em pespectiva crítica da propriedade intelectual…

Há uma frase de Willian Gibson em Neoromancer que sintetiza o papel que a PI exerce hoje no mundo: “O mal de todo atravessador é se tornar um mal necessário”.  Infelizmente é papel que a PI assumiu hoje no mundo. O sistema de Propriedade Intelectual nasce de duas vertentes fortes, de um lado o direito industrial, tratando de marcas e patentes, e de outro o direito autoral.  Eles foram  tratados separadamente, cada um com sua ordem e convenções, tendo inclusive, no caso do direito autoral, duas tradições diferentes, a francesa (utilizada também pelo Brasil) e a saxônica (a partir da Inglaterra e EUA).

Em 1994, com a criação da OMC, o sistema de PI entra como um regulador comercial, com possibilidade de sanções. Na rodada de negociações do Uruguai, se convencionou padrões mínimos a ser seguidos pelos países, com pequenos períodos de adaptação, o que chamamos de TRIPS. Cabe dizer que, desde então, a autonomia de cada país decidir qual a melhor forma de tratar o direito autoral e industrial ficou à mercê de estar ou  não nas rodadas de comércio mundial. Em outras palavras, ou  aceitamos os padrões de copyright elaborados pelo lobby da Disney para vender nossas laranjas, ou teremos que vender para os poucos países que sobram dos mais de cem que integram a OMC.

Porém, isso não é tudo. O TRIPS ainda prevê algumas salvaguardas e exceções que hoje, se mostram ainda mais avançadas que os acordos bilaterais estabelecidos principalmente com os EUA. Uma série de legislações punitivas, principalmente tratando de pirataria tem sido implantada em diversos países através de acordos entre países norte-sul.

Espere, dê um exemplo disso, num parêntese.

Por exemplo, as leis de perseguição e punição de usuários que efetuam download de material protegido por Direito Autoral. Desde 2001, em que os EUA implantaram uma legislação chamada DCMA (Digital Copyright Millenium Act), responsável por prender diversos jovens e donas de casa, países como Inglaterra, França, Hungria, Austrália e até Venezuela, tem adotado legislações parecidas. No Brasil, no ano passado, uma grande mobilização da sociedade civil conseguiu  barrar uma lei do mesmo escopo, apelidada de Lei Azeredo e iniciar um debate sobre o que seria um “Marco Civil para a Internet”.

Voltando. No que tange aos direitos de invenção e autoral, o que se percebe é que durante o século XX a imagem romântica do inventor fora substituída por grandes corporações detentoras de grande capacidade de investimento e de contratação de mão-de-obra especializada a fim de competir no campo das invenções como forma de garantir espasmos temporários de exploração de setores da alta tecnologia. É o caso dos fármacos, software e sementes, por exemplo.

Qualquer gráfico da nova divisão do trabalho no mundo vai demonstrar a distribuição de patentes no mundo e qual a importância econômica dessas perante os outros países. (É o mapa-mundi que encabeça a postagem). As opções seriam, de um lado, o sul correr em busca de legislações e capacidade de gerar mais patentes. Ou, de outro, à qual me filio, que este modelo está fadado ao fim.

Bem, voltemos a exemplificar…

Três exemplos: um na área de software, outro na área industrial e outro na área do ativismo.

O primeiro é o caso da Microsoft.  No início da década do século ela chegou a depositar o pedido de mais de três mil patentes por ano para softwares,  isso quer dizer mais de dez patentes por dia. No campo da invenção é impossível, mesmo com melhor time de desenvolvimento do mundo. No que tange a software é mais peculiar, pois são patenteados os algoritmos que fazem algo funcionar, excluindo qualquer outra perspectiva de fazê-lo de outra maneira. Isso explica, talvez, pedidos de patentes absurdas como a patente de “duplo clique do mouse” para abrir documentos ou “formas automáticas de inserir um espaço em branco em documentos de texto”.

Na área industrial, vejam o exemplo de uma patente para uma caixa de pizza   (http://www.google.com.tw/patents/about?id=bX0lAAAAEBAJ&dq=5702054). É um processo relativamente caro. Não o pedido, mas o processo de geração de documentação necessária e os especialistas necessários para elaborá-la e obtê-la. Um autor (Pedro Rezende) costuma dizer que as patentes tem sido vistas como uma grande cesta de possíveis processos jurídicos, que podem ser mobilizados contra seus concorrentes a revelia e a despeito da concorrência no mercado.

Por último, gostaria de deixar este link http://tinyurl.com/4osm9nz, é uma patente que foi concedida e depois caçada na Austrália. É um “dispositivo circular de auxílio ao transporte”, que, nada mais é do que a roda, inventada a milhões de anos. Essa patente foi obtida por um conjunto de militantes críticos ao sistema de patentes que queriam demonstrar como o sistema era falho e sujeito somente a uma gramática jurídica interna.

O movimento de software livre sempre gosta de relembrar que, na verdade, Propriedade Intelectual, é um oxímoro. Propriedade sobre idéias sempre foi algo inexeqüível e posto sob questionamento desde a fundação dos princípios liberais (nem precisamos mobilizar os princípios socialistas).  Porém, a idéia de que vivemos em uma economia baseada muito mais em criatividade do que produção também leva a se pensar que se pode colocar propriedade em áreas do conhecimento. Bem, outras  iniciativas de colaboração mostram que quando se funda um commons de idéias e práticas, a aceleração da produção intelectual pode fluir muito mais. O software livre é o melhor exemplo disso, a capacidade de renovação e criação em rede se tornam muito mais ágeis e eficientes do que qualquer corporação que mantém seus códigos a sete chaves.

Fu Xu, quais os desafios hoje nesse sentido?

Como Sérgio Amadeu diz, a Internet está sob ataque. E não é recente. Na verdade, iniciativas a partir da propriedade intelectual e mobilizadas pelo direito autoral através da cruzada contra a pirataria sempre rondaram o espectro da internet como grande vilã das perdas de lucro dos artistas. É só lembrar de episódios longínquos -  para a temporalidade da Internet -  como o caso do Napster e o Metalica.  Porém, ultimamente tem se tentado atacar algo que é de mais precioso na Internet e o que a sustenta sua capacidade de ser a rede das redes.

Quando a Internet foi criada, se pensou em uma separação de camadas e de controle. Ao contrário de que muitos afirmam isso não quer dizer que a rede é anárquica. Aliás, a Internet é uma rede totalmente hierárquica, mas que não precisa de um nó central.  Além disso, os diversos sujeitos dentro dela se colocam em tarefas estritas dentro da sua esfera. Por exemplo, provedores de Internet são responsáveis pela camada de transporte. Eles não têm motivo – em tese – de interferir na camada de conteúdo. Isso é que garantiria um e-mail passar por diversos roteadores, provedores, e chegar ao destinatário sem ninguém precisar ler seu conteúdo, afinal, dentro da rede ele é um pacote de dados endereçado como todos os outros, independente do seu conteúdo.

A isso denominamos Neutralidade da Rede, termo criado por Tim Wu (http://timwu.org/), que escreveu sobre o processo de monopolização das comunicações nos EUA e de como a Internet está tomando o mesmo caminho. Nisso está em jogo a privacidade e a capacidade das operadoras de telecomunicação poder ditar as regras dentro da rede. No mundo analógico você não tem escolha, infra-estrutura e conteúdo são parte de um mesmo pacote. Quando você contrata uma TV a cabo é a mesma empresa que te entrega o cabo e os canais. Na internet, quem provê a infra-estrutura não deveria se importar com o tipo de conteúdo que você está demandando da rede. Por exemplo, se você é usuário do Youtube ou do Vimeo, ou se  freqüenta mais sites de música on-line ou gosta de baixar seus discos para ter no seu HD. Isso é garantido pela neutralidade da rede onde “todos os pacotes são iguais perante a rede” (frase do Inri Simon, um dos pais da internet brasileira). Porém, se cada provedor começar a priorizar certos pacotes, nós começaremos a ter muitas ilhas.

É o que o criador da Web,Tim Berners Lee, tem alertado desde o ano passado e alertou neste ano no Brasil aqui na Campus Party, em São Paulo. Muitas têm sido as ilhas criadas na web, como por exemplo os acordos da Google com a Verizon, ou da Netflix com a MetroPCS (todas operadoras de celular nos EUA). Além disso, o grande mercado de aplicativos para celular com conteúdo embarcado tem se tornado pequenos feudos. A Apple, por exemplo, com aplicativos para revistas destinadas diretamente para Ipad, faz com que você não possa compartilhar aquele conteúdo com outras pessoas. Mais do que isso, é uma linguagem e um protocolo próprio (iTunes), desrespeitando toda a infra-estrutura baseada em consensos em que a Internet foi construída (consensos firmados inclusive com corporações, diga-se de passagem).
Bem, na legislação brasileira, como anda a coisa? O Brasil é uma fronteira avançada desse combate, pois não?

Precisamos aprovar no parlamento o Marco Civil da Internet, que garanta a Neutralidade da Rede como bem fundamental no Brasil. Não vamos garantir isso no mundo inteiro, mas será um passo fundamental e um exemplo a partir do hemisfério sul. O Brasil tem tomado posições de vanguarda no campo do direito autoral – agora em suspenso com a nova ministra da Cultura – e na afirmação pró-ativa de uso de software livre como forma de garantir autonomia. Não somos um país menor no mundo da Internet e garantir a Neutralidade aqui dentro pode ser uma chave importante na disputa mundial sobre as liberdades na rede.

Aliás, você enviou um novo mapa-múndi com o peso internético de cada país, que ilustra a matéria. Está em http://www.worldmapper.org/images/largepng/167.png

É, demonstra de novo a assimetria. O Fórum Internacional de Software Livre deste ano, que acontecerá de 29 de Junho a 02 de Julho em Porto Alegre, tratará fundamente deste tema: “como garantir a neutralidade da rede como forma de sobrevivência da rede”.   Nesse contexto, discutiremos como padrões abertos de vídeo, texto, imagem são tão importantes para se manter  também um ambiente saudável.  Veja, os padrões abertos é que permitem que eu possa enviar um email de qualquer tipo de programa e você ler com qualquer outro. Você não precisa saber qual tipo de webmail eu utilizo, basta eu enviar para seu endereço. Tente fazer isso com um editor famoso, muito utilizado no Windows,  para que a outra pessoa possa lê-lo terá que ter o mesmo programa e a mesma versão do software (um tanto anacrônico para o nosso tempo, não?).

Para garantir que a internet continue sendo um território de liberdades e não de controles, é fundamental que possamos garantir o respeito aos fundamentos básicos motivados no início da ArphaNet, num período de guerra fria, mas também de explosão do movimento hippie, quando hackers construíram uma rede baseada em consensos técnicos visando a interdependência. Será uma escolha nossa viver na Matriz, na iHouse ou em numa Zion com poder de gerenciar nosso mundo digital.

Fabrício, fale um pouco sobre participação e governança Digital.

Uma ação a que vou me dedicar este ano será pensar estratégias para isso. O Rio Grande do Sul é pioneiro na discussão sobre tecnologias livres, como já falei. No governo Tarso, está se pensando em como  realmente as ferramentas digitais podem auxiliar o governo na gestão pública.

A governança digital tem vários anos mas ela sempre esbarra em um problema: a dinâmica da rede é muito diferente da dinâmica de governo. Imagine, um governo tem vários processos de decidir prioridades e projetos e alocar recursos. Comunidades na rede são efêmeras e se agrupam por interesses comuns.

Equilibrar essas duas forças é uma equação complexa. A grande chave, acredito, é justamente apostar nos focos de atenção. Ferramentas digitais são muito dinâmicas para captura de feedback, como forma de receber um retorno sobre algo que está sendo feito ou que aconteceu. Porém, eu acho que temos que avançar além disso, temos que deixar de pensar a rede como uma massa homogênea como pensamos as pessoas votando num plebiscito, quando elas dizem sim ou não. Imagine se pudermos reunir os melhores especialistas em torno de assuntos de interesse comum. Se pudermos ter um feedback qualificado nas áreas mais difíceis de tomada de decisão. Não estamos falando de elitização da gestão pública, mas de conseguir reunir capacidade técnica na decisão e não depender somente da vontade do gestor ou da pressão da mídia.

Se você olhar bem, no campo da política, mesmo com mais de vinte anos de internet, a mídia tradicional, o que chamávamos de “opinião pública”, é ainda o principal mobilizador das pautas políticas. Estamos motivados tentar dar espaço a uma nova “esfera pública”, aproveitando as mídias digitais para aferir realmente o que a sociedade civil tem a dizer sobre gestão.

Não será uma tarefa fácil e ela nem tem ainda escopo definido, por isso não posso adiantar mais detalhes, mas com certeza gostaria de contar com a ajuda dos camaradas e especialistas que já trabalharam com isso.

É uma boa pauta e boa luta. Fazemos assim: ainda quero te ouvir sobre Wikipedia, Wikileaks, Gramsci nessa reflexão sobre empoderamento e senso comum forjado pelos aparatos ideológicos dominantes, agora na disputa da internet… Tenho certeza de que uma segunda conversa será necessária. O leitor pode contar? Forte abraço, obrigado Fabrício. Deixo a todos seus endeletrônicos:

fabriciosolagna at softwarelivre.org. fabricio at lumea.com.br. fabricio at minuano.org. skype magicofuxu.

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Globalização, neoliberalismo e a questão nacional

Posted by waltersorrentino on 21st janeiro 2011

Loguercio, José Vieira é o novo doutor em ciência política. Das circunstâncias, ele mesmo dirá. Sua tese foi Globalização e Nação no Século 21, pelo IFCH da UFRS.

Gosto quando as coisas vão direto ao ponto. A primeira linha da tese é: “As nações tendem a perder relevância com a globalização atual? Esta tese responde negativamente e demonstra que, ao contrário, as nações tendem a adquirir uma importância que nunca tiveram antes do século 21”.

Lidando com as noções de capitalismo, nação, estado e soberania, a tese dá o que pensar. São premissas e hipóteses que levam a confrontar as experiências de Argentina, Brasil e México, concluindo que “as nações que mantiveram ou recuperaram suas soberanias (após a avalanche da globalização neoliberal), e também o papel indutor de seus Estados, conseguem enfrentar a crise econômica atual em melhores condições”, contrapondo no caso Argentina e Brasil ao México.

A conclusão dele é peremptória: “como … a principal disjuntiva política no mundo atual é a submissão ou soberania das nações, a tendência é que o século 21 será o da história política, econômica, cultural e lingüística de nações soberanas”.

Não há como fornecer o texto, só o acesso ao Autor. Por isso, seu endeletrônico é jovilog@yahoo.com.br. Mas posso fornecer algo melhor: uma conversa.com o Autor. A palavra com Loguercio. DSC00186

Parabéns, Loguercio. É um êxito considerável e uma alegria. Demorou mas você superou as vicissitudes. Conte um pouco dessa história do doutorado.

Ingressei nas Ciências Sociais da UFGRS em 1968. Preso em outubro no Congresso de Ibiúna, condenado, cumpri pena no Tiradentes. Solto em 1969 a perseguição política me levou à clandestinidade. Regressei após a Anistia em 1980, mas não tinha curso noturno o que só aconteceu em 1995; então prestei novo vestibular, já com a idéia de aprofundar a questão nacional. Gostei da afirmação do orientador diante da banca: “sou testemunha que o Loguercio defende essa opinião não apenas antes da crise e até antes mesmo do auge no neoliberalismo”. Quando entrei era visto como dinossauro (ou em ET) mas o fracasso do neoliberalismo foi me dando razão.

Quero perguntar sobre alguns aspectos que me chamaram a atenção, além do conjunto que julgo muito consistente. Você distingue (e relaciona) globalização e neoliberalismo, e diz necessário atualizar o conceito de imperialismo. Como é sua compreensão disso?

Considero a globalização como parte da essência do capital. Sendo o capital uma “relação social entre pessoas efetivada através de coisas”, e que teve seu início no século 11 na Europa Ocidental, o capitalismo pode ser considerado o processo histórico da generalização dessa relação pelo planeta. Na globalização dessa relação, ela foi destruindo ou absorvendo as demais que encontrou pela frente.

O neoliberalismo é um projeto de um Estado Nacional (os EUA), cuja base econômica é o fortalecimento do capital produtor de juros e o objetivo político a supressão da soberania das nações. É apenas uma das facetas da globalização capitalista e, por ter uma base vazia, tem fôlego curto.

O imperialismo, enquanto fase superior do capitalismo tinha uma essência política enquanto existiam os impérios coloniais e outra quando estes foram eliminados. A essência política atual do imperialismo é a supressão da soberania das nações.

Esclareça isso. “Fôlego curto” em que sentido? Você relaciona isso com a insistente diferença estabelecida entre capital portador de juros e capital financeiro. Ao ponto de afirmar que, nessa base, o neoliberalismo não pode ser considerado fase ou etapa nova do capitalismo e que tal questão embaralhou a percepção da centralidade da questão nacional. É isso? Uma novidade essa distinção…

No meu entender, é aqui que está o “x do problema”. Os dados do BIS, divulgados pelo Valor Econômico em outubro de 2008, todos em dólares correntes, são eloquentes: PIB Mundial 65 trilhões; Ativos Financeiros (dívida primária) 130 trilhões; DERIVATIVOS (e outros inovações financeiras) 600 trilhões!  Simplificando: 65 trilhões é o capital em forma estatal, industrial e comercial; 130 trilhões é capital financeiro. E os 600 trilhões? É capital produtor de juros. E este, tanto nas formas antediluvianas ao capitalismo como agora é simplesmente usura. É impossível entender esses dados da realidade sem partir da análise marxista do capital. Veja bem, em outubro de 1979 o PIB mundial era 10 trilhões e os ativos financeiros 12 trilhões, existindo apenas marginalmente os “derivativos”!  A humanidade não pode viver da coisa (o dinheiro) aumentando por si mesma. Os EUA detinham em out/1979 a moeda reserva mundial; as dívidas públicas de dezenas de nações; incontrastável poder político-militar. Ao elevarem unilateral e abruptamente a taxa de juros através do FED, drenaram para seu tesouro vultosos recursos e liberaram a formação de instituições especializadas em ‘derivativos e outras inovações financeiras’. Ou seja, liberaram o capital produtor de juros. E este, como explicou Marx à saciedade, é o fetiche autômato perfeito, não podendo jamais globalizar-se. Em conclusão, confundiu-se o esforço de uma nação em submeter outras com a globalização.

Supreendeu-me um tanto, também, partir de Paul Sweezy nessa renovação conceitual do imperialismo…

Sweezy foi sugestão de uma doutora da banca de pré-qualificação que acabou sendo muito útil.  Sua obra está influenciada pela chamada Idade de Ouro do capitalismo (1945-1970), quando então estados indutores e protagonistas da economia, sob formas diversas, se espalhavam pelo planeta. E isso articulado com a vigorosa luta anti-colonial que dará origem às nações asiáticas e africanas. Sweezy  tentou fazer uma pequena correção na teoria do imperialismo de Lenin exatamente no ponto que se tornaria vital a partir de 1979 – a ‘oligarquia financeira’, reprimida no período anterior, liberou-se das amarras do capital financeiro e de outras formas de capital, criou centenas de instituições próprias e passou a ter hegemonia nos EUA e Europa.

Bem, Argentina, Brasil e México. Sintetize em que as experiências convergem e divergem, no passado e na atualidade.

Essas três nações se originam da expansão do império ibérico (Portugal e Espanha) quando essas duas nações estavam na vanguarda da manufatura capitalista no Europa ocidental. Formam-se quando da substituição da manufatura pela maquinaria capitalista e o decorrente enfraquecimento de Portugal e Espanha e fortalecimento da Inglaterra e França. Consolidam-se inicialmente, quando da transição da concorrência fabril para os monopólios; e se consolidam primordialmente, após as duas grandes guerras inter imperialista. As três foram duramente atingidas pelo projeto neoliberal iniciado em outubro de 1979 com a alta unilateral da taxa de juros pelo FED. Neste início de século 21 o México (que tinha sido a nação mais soberana entre 1930-1979), continua submisso (nafta); Argentina e Brasil a partir de 2003 (Kirchner e Lula) não aceitam integrar a ALCA e nem o monitoramento do FMI.

Loguercio, a questão nacional é a chave pela qual você norteia a reflexão e intervenção política. O Programa do PCdoB também pôs o acento tônico nesse ponto – um novo projeto nacional de desenvolvimento como caminho, o socialismo como rumo. Pergunto: o Brasil tem forças substanciais na compreensão dessa centralidade?

Vou recorrer à tese, Sorrentino, para te dizer que a questão nacional já é a chave para entender a intervenção política transformadora em qualquer parte do mundo. As forças substanciais na compreensão dessa realidade ainda estão em formação. A base delas são os povos e eles têm demonstrado em muitos lugares, um instinto político avançado. A realidade vai impondo a indispensabilidade de compreender que, sem Soberania não há desenvolvimento, democracia, distribuição de renda e mesmo, sustentabilidade, em nenhuma parte do planeta. O PCdoB deu um passo à frente no seu 12º Congresso ao iniciar a abordagem da chamada questão nacional de maneira mais adequada. Devemos nos empenhar para que prossiga neste caminho. Contudo, entre “iniciar a abordagem” e “realizá-la como exige a luta de classes no século 21” há uma grande distância.

O PT como força maior da esquerda hoje e pólo principal do governo cresceu sem ter assimilado em profundidade a “questão nacional”. O governo Lula, e o próprio com toda sua intuição formidável, encaminharam-se por inclinação nessa direção. Mas até hoje o projeto do PT tem o social como o fator determinante da retomada do desenvolvimento, combinada com democracia e soberania. Qual tua opinião sobre isso?

Após a eleição de Chávez (1998) e de Kirchner e Lula (2002) houve a retomada da soberania em novas bases em várias nações latino-americanas. Esse “passo à frente no movimento real” se efetivou em boa medida à revelia da consciência de seus atores. Os próprios resultados obtidos dão lugar a uma situação na qual “sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário”. Não importa se o PT ‘pense’ que o social é o ‘fator determinante’ e outros que é o desenvolvimento. O que importa é que se Lula tivesse aceitado integrar a ALCA e a manutenção do monitoramento do FMI não teria havido nem bolsa família, nem 15 milhões de novos empregos com carteira, nem crescimento econômico.

Como isso, a teu ver, se reflete no governo Dilma Rousseff?

Dilma tem um domínio da questão nacional que foi reforçado com sua militância no PDT de Brizola e sua participação no governo Lula. Uma vez, por determinação do FORUM das ESTATAIS, tive que conversar com os dois para convencê-los a caminharem junto pela Rua da Praia contra as privatizações; quando eles aceitaram e realizamos a marcha, me convenci desde então que eles conheciam a nação Brasil e seu povo muito mais que seus partidos (e como se sabe o PDT e o PT não se organizam de maneira leninista).

Precisamos nos empenhar no êxito do governo Dilma. Isolar a elite usurária paulista e trazer para o nosso lado as massas de pequenos e médios proprietários rurais, surgidas na esteira do soja, e influenciada por aquela (aliás esse grão foi trazido para o Brasil pela comunista Pagú). Temos que ajudar Dilma a colocar o vetor na soberania. O controle pelo Estado sobre a moeda nacional e, em consequência, no fluxo de capital e nos juros é uma questão de soberania nacional como defendem, acertadamente, os asiáticos, notadamente o governo chinês. Temos que ajudá-la a vencer certo “economicismo sofisticado” dela e de seu ministro Mantega.

A mim me parece que ainda há, em decréscimo acentuado, gente no PT para quem a célebre questão de ser o PCdoB um aliado histórico, estratégico e leal, não consistir numa crescente hipocrisia. Tarso Genro vem demonstrando em fatos uma compreensão melhor disso, ao lado de outros petistas importantes. Como você, gaucho, vê o governo Tarso?

O PT chegou ao seu auge ao fim do governo Lula e está mais parecido com o PMDB (partido nacional com forte predomínio de forças regionais e seus ‘caciques’) . Essas forças regionais tendem a substituir o papel das antigas “correntes”. A mais próxima do neoliberalismo é o “núcleo de São Paulo’.

Tarso é compelido pelos acontecimentos a realizar talvez o melhor governo desde Getúlio Vargas (em dois anos revolucionou o estado) e o de Brizola. Depois de eleito ampliou ainda mais o leque de alianças incluindo o PDT e o PTB. Vai havendo um consenso de que não há saída para o RS fora de um novo projeto nacional. O PSDB não cresce no RS porque o neoliberalismo se tornou bandeira do núcleo hegemônico do PMDB.

O êxito dos governos Tarso e Dilma estão imbricados. É possível que os gaúchos (que lutaram em armas por trezentos anos para serem brasileiros e que lideraram o primeiro projeto nacional), possam enfim se livrar da modorra que os acompanha desde o golpe militar de 64. Tarso pode liderar a contribuição dos gaúchos para um novo projeto de nação: um Brasil soberano, desenvolvido, com progresso social e democracia, dotado de uma ciência e tecnologia que ajude a utilizar e preservar suas imensas riquezas naturais e contribuir para sua defesa.

Loguercio, tuas ideias são importante contributo ao debate de atualização da teoria revolucionária. Lamento que não possa fornecer a tese a todos, mas agradeço este aperitivo. Instigante, de todo modo.

Quero apenas me pôr no lugar do leitor que provou o aperitivo. Isso de diferenciar capital financeiro e capital portador de juros vale quase mais uma tese, pois não? Um fica com o elefante atrás da orelha… Quais são as fontes em que você se apóia nessa empreitada? Como você fundamenta essa importante questão? Há outros investigadores nessa pista? Olhe, o blog estará à disposição de uma segunda conversa sobre esses pontos. Não nos falte.

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“É a geração do futuro, a geração C”

Posted by waltersorrentino on 14th janeiro 2011

Renato Meirelles é fora de série. Conheço-o há 25 anos (!), desde a UJS. Sempre inquieto, criativo, inteligente. Aquela geração teve muita gente boa, Paula Palamartchuk, Nara Guisoni, Júlio Filgueira, Renata Mielli, Luciano Martorano, Davi Molinari, Laudert, nossa… vou cometer injustiça com muita gente, não citando o nome agora. O bom é que estão até hoje com a consciência política em dia.

Há tempos pretendia uma conversa.com ele, mas perdi a mão. Ele ficou famoso antes. Aí não tive mais chances, mas insisti.

O fato é que aí está nossa conversa. Há anos ele trabalha com Data Popular, é um publicitário que trabalha intensamente com pesquisas, principalmente sobre as camadas populares. Sua base de dados e estudos permitiu-lhe acumular um enorme conhecimento sobre o que se chama hoje de “nova classe média brasileira”. Neste 2010 e início de 2011, esteve em grandes revistas e mesmo na TV dando entrevistas sobre o tema. Arguto como é, com uma formação política avançada (que ele nunca perdeu e com a qual ele segue comprometido em consciência), ele sabe extrair conseqüências desses fatos. É o nosso assunto.

“O principal equívoco da oposição de hoje é o mesmo equivoco da esquerda do passado, se achar melhor que os outros”, diz ele. Porque o emergente não é burro, ao contrário. O retrato mais marcante da mobilidade social ascendente, anotado por ele: “os jovens da classe C são 68% mais escolarizados que seus pais, enquanto na classe A, onde o número cai para 10%. A educação já era vista como um meio para a melhora nas condições de vidas destas famílias e agora isto é colocado em prática. Nos últimos 8 anos a porcentagem de universitários da classe D foi de 5% para 15% e na classe C de 40% para 57%. Neste período o total de estudantes universitários passou de 3.6 milhões para 5.8 milhões de pessoas”.

RenatoMeirelles_Data-PopularEle se define, antes de tudo, como um curioso. É sócio-diretor do Data Popular, comunicólogo com MBA em gestão de negócio, desde 2001 se dedica a pesquisa e ao desenvolvimento de estratégias de atuação focadas no mercado emergente brasileiro. Especialista em conhecimento do consumidor (ou em gente, como prefere dizer), entende que o bom negócio é o que todos ganham: o cidadão, as empresas e a sociedade. Foi colaborador do livro “Varejo para Baixa Renda”, publicado pelo GV-CEV e autor do livro “Um jeito fácil de levar a vida – O guia para enfrentar situações novas sem medo”, publicado pela Saraiva.

Recentemente, Renato Meirelles (twitter: @datapopularRM ) organizou o 1º Congresso Nacional sobre Mercados Emergentes. É sobre isso que começo a conversa.com. Leia-a na íntegra.

Salve, Renato, bem-vindo à nossa conversa. Que significou organizar esse Congresso? A que conclusões se chegou?

Walter. Antes de tudo é um grande prazer conversar com você e com os leitores do Blog. Meu tempo de militância foi minha principal escola. É um privilégio poder dividir um pouco do que aprendi.

O Congresso ( www.mercadosemergentes.com.br) foi uma forma de consolidar o trabalho que o Data Popular tem feito desde 2001. Nossa empresa tem claro que só é possível ganhar dinheiro com a ascensão da nova classe média brasileira que todos os envolvidos no processo ganharem algo. Nós somos um trio de publicitários com vontade de fazer algo diferente do que as empresas faziam para a população de baixa renda, e acabamos encontrando no empreendedorismo uma forma de realizar nossos ideais e quebrar os paradigmas. Nossa missão é entender a falha na comunicação destinada ao consumidor da chamada base da pirâmide: ajudar o empresário a compreender seus anseios e necessidades, na verdade é uma forma de ajudar os dois lados a entrar numa sintonia. O empreendedor aprende que não pode enganar o consumidor. Esta pessoas não são passivas e sabem escolher entre o bom o ruim. Nosso objetivo é demonstrar ao mercado que ele não deve “ensinar” as pessoas a comprar, mas sim aprender o que eles precisam e a partir daí oferecer produtos que satisfaçam suas necessidades e seus anseios. É uma troca justa.

Você é um dos grandes estudiosos do assunto. Como foi que isso se iniciou profissionalmente? Há quanto tempo?

Quando eu estava no ensino médio participava ativamente de movimentos estudantis. Escolhi trocar o colégio particular onde estudava pelo público para sair da bolha em que eu, e muitos amigos meus na época, vivíamos. Eu gostava de estar com pessoas que não cresceram com as mesmas referências, as mesmas idéias com que eu fui criado, que tinham, talvez, mais contato com a realidade da maioria da população do Brasil. A experiência que ganhei nesta convivência foi o ponto de partida para atuar no Data Popular, que surgiu para cobrir uma carência deste mercado, que desponta em proporções gigantescas. O que antes era visto apenas como um ‘nicho’, hoje pode ser considerado o próprio mercado. Se um empresário quer ser líder hoje ele necessariamente deve ser líder nas classes C, D e E. Não tem como uma empresa ser importante hoje no Brasil se virar as costas para as pessoas que não estão no topo da pirâmide.

O Brasil está mudando. Uma realidade sócio-urbana marcante, grandes periferias, enorme incremento de cidadania. Vamos ver em números o que significa essa mobilidade social ascendente e como isso marca o país nos mais variados aspectos, além do mercado de consumo.

Estamos falando de um mercado de R$ 834 bilhões, o que não é pouca coisa! A classe C deixou de ser vista como personagem secundário nas relações de consumo, esta grande parte da população se transformou em protagonista de um mercado interno crescente. O que mudou? Tudo! Em muitos casos, é a primeira vez que este brasileiro tem plano de saúde, automóvel, computador, casa própria, e ainda por cima viaja de avião ao invés de ônibus  e por aí vai. O que antes era apenas um sonho, hoje se transformou em um objetivo palpável. Estas pessoas perceberam que se planejarem, tudo é possível, inclusive cursar uma faculdade. Tanto é, que os jovens da classe C são 68% mais escolarizados que seus pais, enquanto na classe A, onde o número cai para 10%. A educação já era vista como um meio para a melhora nas condições de vidas destas famílias e agora isto é colocado em prática. Nos últimos 8 anos a porcentagem de universitários da classe D foi de 5% para 15% e na classe C de 40% para 57%. Neste período o total de estudantes universitários passou de 3.6 milhões para 5.8 milhões de pessoas.

Tenho dito que um dos (maiores) problemas da oposição está em não compreender essas mudanças. Não dialogam com o país real, e acabam estigmatizando o povo como incapaz. Enquanto isso, a opção eleitoral está bem delineada há já 8 anos (e podemos ir prá 12!). Como você avalia isso?

O principal equívoco da oposição de hoje é o mesmo equivoco da esquerda do passado: a incrível capacidade de se achar melhor do que os outros faz com que errem na definição de bandeiras e na forma de comunicar seus pontos de vista. Agora sem ilusão. A esquerda errou da mesma forma por anos.

No mundo corporativo, alguns empresários também têm uma visão distorcida da realidade desta população. A maior dificuldade nessa comunicação está no fato de não compreender a realidade e o modo  de pensar da população. As pessoas que melhoram de vida não adquiriram hábitos e modos de pensar dos mais abastados. Eles não pensam como ricos. É uma lição de humildade entender isso, e não tive dúvidas quando passei uma temporada morando na Cohab para entender como vivem e pensam estas famílias, e assim pude ajudar vários empresários a compreender o ‘Brasil de Verdade’. A nova classe média e a base da pirâmide não almejam se tornar a ‘classe A’, para eles, este cara é um babaca, um perdulário, que não sabe dar valor ao seu dinheiro. O emergente não é burro. Se ele compra uma moto pelo dobro do preço por causa dos juros decorrentes do parcelamento, é porque é a única maneira que ele tem de adquirir este bem, que na verdade está longe de ser um supérfluo, é uma necessidade, é uma forma dele otimizar o seu tempo, melhorar sua condição de vida e chegar ao trabalho pontualmente, sem ter que enfrentar uma condução lotada e em condições precárias.

Renato, o povo é o artífice da nação. Não há afirmação nacional sem o protagonismo popular; ou ao menos, sem os brasileiros se reconhecerem entre todos. Há uma espécie de apartheid singular no Brasil, relativa a concentração de renda. No teu entender, politicamente, dadas as tendências atuais, o Brasil pode eliminar a pobreza absoluta no tempo da atual geração?

Acredito que tudo é uma questão de tempo. Nossas pesquisas só comprovam que a fatia da população, antes marginalizada, emergiu para uma nova condição social, e nada impede que isto continue ocorrendo. Segundo dados da PNAD e do IBGE a porcentagem de pessoas na miséria no Brasil caiu de 28% em 2003 para 15% no ano passado, com tendência essa queda ser contínua. A pirâmide social terá uma nova cara daqui menos de 10 anos. As famílias que  passam o mês com um salário mínimo vão continuar diminuindo e aquelas que ganhavam até três vão diminuir mais ainda, passando a fazer parte da nova classe média.  E isto já vem ocorrendo. A classe emergente que antes só podia comprar leite C, hoje tem iogurte em sua mesa. A classe D que não consumia iogurte, hoje já o compra esporadicamente, numa qualidade inferior que a C, mas compra, e é este é um ciclo que tende a crescer com o passar dos anos, até porque a base da pirâmide é jovem. Este pode parecer um exemplo banal, mas para estas pessoas isso é o resultado palpável da melhora de suas condições. E elas não vão querer abrir mão dessas conquistas. Além disso, enquanto o topo da pirâmide está envelhecendo, as classes C, D e E têm quase 70% de jovens, com emprego formal e dinheiro no bolso. É a geração do futuro, é a geração C.

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Entrevista com Carla Santos

Posted by waltersorrentino on 23rd novembro 2010

Demorou mas saiu! Há tempos pedi esta conversa com Carla Santos. Ela está por trás da TV Vermelho, uma ousadia (com o Toni C, já entrevistado aqui, gênio do hip hop. Seu pai faleceu semana passada, e o blog lhe dá sentidas condolências).

Carla é ousada em todos os terrenos. Fique com essa deliciosa conversa. Obrigado Carla, acho que os leitores vão gostar. E tuas sugestões foram ótimas para novas entrevistas.
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Carla, acho que você já conhece a proposta do blog na seção conversa.com?

Conheço sim e acho genial! É maravilhoso poder encontrar um blog que estimule a nossa curiosidade sobre quem são os milhares de comunistas brasileiros do século 21. É também uma maneira interessante de perceber a diversidade de conhecimentos que temos hoje. Vejo o conversa.com construindo pontes e diminuindo as distâncias entre todos esses saberes. Este mosaico, em permanente construção, me enche de esperanças, de uma alegria sincera por nos vermos assim tão ricos de história, de opiniões, de ações, de ideias.

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A Rocinha e Xaolin do PCdoB

Posted by waltersorrentino on 10th novembro 2010

Xaolin

Antonio Ferreira de Mello ficou conhecido mesmo foi como Antonio Xaolin. Ele é atuante na Rocinha, comunidade mundialmente famosa no Rio de Janeiro. Faz parte do imaginário brasileiro da “favela”, um microcosmo de Brasil. Lá, se você perguntar pelo Antonio, não vai achar; agora, se você procurar pelo Xaolin, só tem um.

Xaolin é comunista, líder sindical e líder na Rocinha. Foi candidato pelo PCdoB este ano. A entrevista é uma homenagem: por minhas enquetes espontâneas, é o mais assíduo leitor deste blog. Obrigado, Xaolin, você é generoso e paciente. Mas a entrevista tem muito a ver com o Brasil em mutação, lidando com a realidade da nossa famosa Rocinha.

Xaolin, como foi que veio esse apelido?

Desde criança eu queria ser sempre o capitão da equipe. Na escola municipal  Waldemar Falcão, essa escola foi demolida, ficava onde hoje é a Escola de Samba, e na própria Rocinha ,que ainda tinha campo “arranha gato” eu não gostava de ficar no banco de reservas. Eu jogava muita bola para não sair do time, Sempre gostei de dar o exemplo. Depois, resolvi lutar karatê influenciado pelos filmes de Bruce Lee e o professor resolveu “batizar” todos os alunos. Como eu era disciplinado ele resolveu que eu seria o inimigo do “mestre” e me “batizou” de Xaolin. Na época éramos uns 30 alunos e o único apelido que colou foi o meu. No inicio não gostei. Queria ser chamado de Antonio, mas os amigos insistiram e o apelido pegou e absorvi como sobrenome.

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