
Sydney Granja Affonso
A Conversa.com de hoje é com Sidney Granja. Bom do blogueiro é que recebe sugestões e cobranças. Uma delas veio acerca de falar do pré-sal, de fato assunto estratégico. Chamei Sidney para isso, ele que é filiado ao PCdoB, engenheiro, empregado concursado da Petrobras há 34 anos. Atuou em projetos de engenharia, soluções de TIC para Engenharia e áreas de negócio, planejamento estratégico e avaliação empresarial, percorrendo as áreas de Abastecimento (refino, transporte e comercialização), TIC e Gás e Energia. Foi Diretor do SINDIPETRO-RJ, Presidente do Núcleo da AEPET-SP, Diretor e Conselheiro da AEPET, Presidente do MODECON-SP, Coordenador Geral da TV Comunitária do RJ.
Sidnei, a descoberta do Pré-Sal é um passaporte para o futuro de um Brasil avançado, livre e justo. A condição para isso será a capacidade de formular uma política estratégica de Estado. Como você vê essa política, quais seus elementos nodais?
A descoberta da existência de petróleo em abundância no território nacional trouxe um verdadeiro tesouro para o povo brasileiro e isto foi possível com estratégia e esforço da Petrobrás ao longo de muitos anos, um braço de desenvolvimento do Estado. Como qualquer tesouro, trará oportunidades e ameaças. Os grandes campos do Pré-Sal contribuem para a formulação de um novo modelo de desenvolvimento para o Brasil, dando-lhe inclusive qualidade nas relações internacionais.
As projeções de crescimento das atividades de exploração, produção, refino, transporte, distribuição, da indústria petroquímica e de fertilizantes, bem como, o crescimento da indústria de biocombustíveis e a geração termoelétrica para os próximos anos, exigem liderança do Governo, em suas instâncias, junto aos empresários e trabalhadores nacionais, em busca do suprimento adicional de bens e serviços para atender estes investimentos.
O aumento desta oferta pode ocorrer principalmente através de fortalecimento e expansão dos produtores nacionais, visto que haverá muita demanda em segmentos em que as empresas brasileiras são ou poderão ser competitivas, onde a tecnologia envolvida é dominada ou possível de ser dominada. Neste caso, trata-se de ampliar a produção existente. Complementarmente, será importante a vinda de empresas estrangeiras em segmentos específicos, de difícil nacionalização, utilizando, de preferência, contratos com parcerias nacionais e transferência de tecnologia.
Para atender a demanda, serão fundamentais: desenvolvimento tecnológico, qualificação profissional, oferta de financiamento, melhoria da gestão empresarial e pública e inclusão de pequenas e médias empresas. O Brasil tem potencial para realizar este movimento, com gestão, inovação e empreendedorismo.
A criação planejada de pólos empresariais regionais, com ênfase em escala e competitividade, estende a oportunidade de desenvolvimento também para os estados menos desenvolvidos.
O essencial foi um novo marco regulatório, é certo isso?
O novo marco regulatório é o retrato da mudança de postura do Governo, valorizando a propriedade e o uso do petróleo para a região do Pré-Sal. Além disto, a política estratégica do Estado está voltada para o desenvolvimento da cadeia nacional de fornecedores de bens e serviços desta indústria, fomentando a expansão do parque industrial brasileiro, como pode ser notado, por exemplo, no nível de CL- Conteúdo Local exigido pela ANP a partir da 7ª Rodada, na PDP – Política de Desenvolvimento Produtivo do Governo Federal e em outras iniciativas.
Daí, a importância do Estado neste processo, se oxigenando, planejando, gerenciando, construindo um novo estado nacional. A classe trabalhadora organizada precisa estar presente e assumir papel de destaque neste processo, tanto na defesa dos interesses nacionais como na organização dos novos trabalhadores.

Quantos investimentos estão previstos para as próximas décadas?
Desde 2003, a Petrobras vem aumentando seu PN- Plano de Negócios. Para o ano 2003, a carteira contemplava o total de investimentos da ordem de US$ 5,6 bilhões, já acima dos valores dos anos anteriores. Já o PN 2010-2014 prevê investimento com média anual de US$ 42,5 bilhões, isto é, um total de U$ 224 bilhões. Portanto, um crescimento muito grande, que será viabilizado por intensa expansão do parque supridor nacional de bens e serviços.
A imprensa vem dando ênfase aos investimentos em exploração e produção do petróleo, o que é na verdade o motor principal. No entanto, a construção de refinarias, petroquímicas, terminais e dutos, e termoelétricas terão peso considerável na distribuição de investimentos da Petrobras, chegando a quase 40%. Neste horizonte do PN 2010-2014 o Pré-Sal ainda tem pouca participação, ainda com ênfase no Pós-Sal.
Assim, no começo desta década teremos a continuação do processo de exploração e produção na Bacia de Campos e o inicio dos primeiros campos do Pólo Pré-Sal de Santos: Lula (ex Tupi), Iara e Guará. Já após a metade desta década deverão entrar novas produções, como: Júpiter, Bem-te-vi, Carioca, Caramba e Parati. Ainda nesta década, será iniciada exploração na área da Cessão Onerosa, cinco bilhões de óleo nos campos de Franco, Tupi sul, Peroba, Entorno Iara e outros.
A exploração no saldo do Pré-sal ainda não concedido, cerca de 70 %, agora com a Petrobras como operadora única, deverá ser definida pelo CNPE- Conselho Nacional de Política Energética, visando o uso planejado de um bem estratégico, escasso no mundo, de forma coerente com a velocidade possível do desenvolvimento da indústria nacional de bens e serviços. Isto é, além do investimento previsto pela Petrobras e outras operadoras da indústria de petróleo, serão construídos, pela iniciativa privada, estaleiros para construção de sondas, plataformas, módulos para embarcações, navios petroleiros, barcos de apoio, peças e equipamentos, serviços dos mais variados, que vão desde projetos de engenharia, construção e montagem, até apoio com transporte, limpeza e suprimento de alimentos. Existem referências nacionais e internacionais que estimam o valor total de todos estes investimentos como algo da ordem de US$ 600 bilhões.
Pode chegar a 600 bi de dólares?! A propósito, como está esse debate no seio do Governo e das forças políticas em geral? O tema foi abordado na campanha de Dilma contra Serra.
O debate na Sociedade sobre o Marco Regulatório do Petróleo teve peso para trazer de volta algumas questões políticas, como o papel do Estado, a necessidade de planejar, o processo neoliberal que vendeu estatais estratégicas, como Vale, CSN, Usiminas, Telebrás, o desmantelamento da petroquímica etc., além de evidenciar o período em que a Petrobrás teve seu plano de negócios restringido, em busca de espaço para atrair novas operadoras.
Durante um dos debates na TV entre Dilma e Serra, esta lhe cobrou sua antiga afirmação de que a indústria naval brasileira estava enterrada, que havíamos perdido o bonde da história, que jamais voltaríamos a competir com a Coréia e a China. E ela completou dizendo-lhe que o Governo Lula reergueu nossa indústria naval com os projetos para a Petrobrás. Na campanha para Presidente este tema aglutinou setores importantes da classe média que haviam desgarrado anteriormente.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o Ministério do Planejamento, o Ministério da Integração Nacional, o Ministério de Ciência e Tecnologia, o Ministério da Defesa, o Ministério dos Transportes e tantos outros vêm promovendo ações alinhadas com o desenvolvimento da indústria do petróleo, o maior projeto estruturante do País.
O Presidente da Petrobrás vem promovendo encontros nos estados com o governo federal e estadual e com as associações empresariais, com o objetivo de criar governança, com a liderança do governo estadual, para montar grupos de trabalho que promovam a “concertação” das diversas iniciativas existentes, racionalizando recursos, aproveitando sinergias, e resolvendo conjuntamente problemas que dificultam a execução destas iniciativas. Algumas centrais sindicais também participaram da elaboração de algumas iniciativas.
O PCdoB tem estado no centro da formulação dessa política. Haroldo Lima, DG da ANP, tem tido papel destacado em apontar para a mudança do modelo de exploração. O que subsiste de dificuldades para isso avançar no Governo Dilma, nesta hora?
Nosso Partido tem estado no centro desta política, atuando de forma concreta na ANP, tendo, por exemplo, nosso Diretor Geral atuando conjuntamente com alguns Ministros e os presidentes da Petrobrás e do BNDES para a geração do novo marco regulatório. A capitalização, por exemplo, permitiu um crescimento de cerca de 10% na participação do Estado nas ações da Petrobrás, chegando a cerca de 50%. A nova lei substituiu o regime de concessão para o de partilha na área do Pré-Sal, tendo a Petrobrás como operadora única, o que a torna conseqüentemente indutora do processo de desenvolvimento nacional. Foi um avanço importante para a conjuntura e que nos dá novo animo na defesa das estatais e do Estado no processo de planejamento.
Apesar das vitórias, continuarão os lobbies internacionais e também nacionais para reverter o processo da área do Pré-Sal e avançarem nas demais áreas. Pode-se abrir espaço também para pequenos produtores de petróleo, pois existem campos que nunca foram licitados e outros que foram devolvidos. É preciso evitar, no entanto, que campos maduros em produção da Petrobrás caiam em mãos de empresários que buscam renda sem investimento.
Como você vê a decisão dos EUA com a IV Frota no Atlântico Sul? O País está apto a fazer a inteira defesa de seus interesses? A questão do Plano de Defesa Nacional tem forte interface com isso, não lhe parece?
A Quarta Frota Americana é uma provocação e o importante é destacar que a região do Pré-Sal se encontra dentro da faixa das 200 milhas, mas esta nunca foi reconhecida pelo Governo dos EUA. A Amazônia Azul, uma proposta que ampliação esta faixa, foi desenvolvida pela Marinha junto e com o apoio da Petrobrás. Petróleo é um bem escasso no mundo, gera tensões e guerras desde o século passado, provocou a ocupação do Iraque, pais com grandes reservas, o que sugere um Plano de Defesa para o Brasil. Não se consegue sobreviver como potência mundial e soberania nacional sem estratégias de defesa.
A frota de navios e aviões de defesa precisa ser ampliada, incluindo a proposta de um submarino nuclear. As forças armadas terão um papel importante. Não podemos confundir com o período de subserviência destas aos interesses estrangeiros e a uma burguesia nacional com interesses menores, quando acabaram prendendo e matando trabalhadores e estudantes que lutavam organizadamente pela soberania brasileira e por melhores condições de vida para todos os brasileiros. As diversas atitudes nacionalistas de muitos militares demonstram que os que se corromperam nunca os representaram, sem esquecer que é crescente o número de militares socialistas.
O PCdoB tem forte organização entre os petroleiros, e você é um de seus líderes. O partido tem crescido? Tem sabido capitalizar a política avançada quanto ao Pré-Sal?
É normal entre os petroleiros uma postura em defesa da Companhia, até mesmo sacrificando a vida pessoal. A Petrobrás é resultado de muitas lutas históricas, tornando-se símbolo de resistência ao imperialismo.
Os petroleiros comunistas sempre estiveram presentes nestas lutas, bem como na organização sindical dos trabalhadores. Nossa central sindical deve traçar suas estratégias visando conquistar a grande massa de novos trabalhadores que virão com os investimentos.
Cabe-nos dar mais visibilidade para os militantes do PCdoB sobre as questões do petróleo, ou mais amplo ainda, da energia, pois certamente terá impacto nas diversas áreas em que atuam. O Partido tem atuado com qualidade no desenvolvimento de políticas para o setor petróleo.
Venho apoiando o Presidente Gabrielli, que teve um papel fundamental na busca de empréstimos no exterior, na intensificação dos concursos públicos de admissão de empregados, na defesa do novo marco regulatório, no processo de capitalização, na criação de laboratórios nas universidades e centros de pesquisa para o desenvolvimento tecnológico, dobrando inclusive o centro de pesquisa da Petrobrás, na viabilização dos novos estaleiros e, agora, na liderança das ações para o desenvolvimento da cadeia nacional de fornecedores.
Como outros comunistas, estou presente!
Valeu, Sidnei, pela entrevista! Volte sempre, obrigado em nome dos leitores.