Crise capitalista e a grande deformação brasileira
Publicado por waltersorrentino em 11/08/2011
Nesta semana, 2,5 trilhões de dólares evaporaram nas bolsas. Fictícios? Sim, mas quanto sofrimento traz para povos e nações, até da outrora sólida Europa! Converse-se com um grego ou português às voltas com a perspectiva de perder uma década em termos de progresso, ou com um desempregado estadunidense… Nos EUA a disfuncionalidade política leva a essa perspectiva. As ameaças chegam agora à Itália, depois de Espanha, e até à França. De conjunto o mundo está sob sombras terríveis, com as respostas extremistas de direita que grassam na mesma Europa e EUA.
Edgar Morin, pensador múltiplo, destacou os riscos da economia como forma de conhecimento dominante. A abordagem da crise capitalista é expressão concentrada disso. De fato, a forma de conhecimento dominante se esforça em dar conta de uma situação concretista, up to date, com evidentes limitações. Serra fala em “estresse, não catástrofe”. Manchetes vão mais longe: “pânico”; “as bolsas voltam a assombrar”. Meireles, ex-BC, diz que “não há sinais de alarme, mas sem dúvida existe uma preocupação”. Será que ele se refere aos mais de 15% de desempregados em diversos países da Europa e, perto disso, nos EUA? Ele que, no auge do pânico em 2008 elevou os juros, Eike Batista sarreia: EUA se safará da crise fácil, porque não há crise de papel e tinta; ou seja, pode emitir dólares quanto quiser, e essa é a moeda de reserva de valor mundial todavia. Poucos deles se referem à política monetária única imposta ao mundo em função do poderio do capital financeiro, com vértice nos EUA.
O que quero dizer é que são conhecimentos fragmentários que se sucedem em cascata. Conhecimentos a posteriori, iniciados com prestidigitações. Isso não fornece uma perspectiva, a não ser a manutenção do estabelecido. E foi exatamente o que conduziu à crise deflagrada em setembro de 2008. Quer dizer, conhecimento que seguiu o curso de uma sociedade mercantilizada ao extremo, alcançando todos os aspectos da vida social, num evidente – para mim – retrocesso civilizacional promovido pelo neoliberalismo.
A esquerda vai ao ponto: a terceira grande crise capitalista da história, numa segunda fase de agudização que pode provocar nova onda recessiva e exacerbar guerras cambiais. O mundo está pagando o preço da completa desregulamentação que promoveu a liberdade total dos capitais financeiros no mundo, tal como nuvens de gafanhotos provocando a instabilização de nações inteiras. Mas, para apresentar saídas, entendem ser necessário reunir condições políticas – por exemplo, como buscar saídas patrióticas de esquerda na Europa sem romper com a moeda única, o Euro? Porque é disso que se trata: romper com essa cadeia da acumulação desenfreada do capital financeiro, lógica central do sistema capitalista. Sem esse quadro referencial, como estabelecer saídas? Claro que me refiro a ideias programáticas,não propriamente a determinismos catastrofistas sobre a crise.
Portanto, isso não deve significar se eximir do debate sobre a situação real, concreta, aquela que afeta a sociedade. O blog tem várias postagens sobre isso. Acredita que o mundo não será o mesmo no decorrer da crise e após sua superação. Mudam as correlações de força e de ordem mundial; mudam os destinos de nações; mudam, necessariamente, as políticas macroeconômicas engessadas promovidas pelos consensos neoliberais, mudam as condições de acumulação – ou não, o que no caso conduzirá a mais crises futuras. As próprias “saídas keynesianas” estão relativamente bloqueadas, dada a fragilidade fiscal dos maiores Estados, após terem salvado a banca, para não deteriorar ainda mais o quadro econômico mundial.
Vejamos o Brasil: Dilma assegura que não haverá recessão; reconhece que a crise pode se alongar, “não somos imunes”, e não descartou novas medidas para proteger o país na área financeira e cambial, além do mercado interno e da indústria brasileira. “Vamos preservar nossas forças produtivas, empregos e renda da população”. Com isso, fica clara a flexibilização dos instrumentos da política macroeconômica já em curso. Agora, ao que parece, se fortalecerá a perna fiscal, ao lado da inovação do CMN para intervir no mercado de derivativos e do lançamento do programa Brasil Maior, relativo à proteção da indústria. A perna fiscal promete congelar 50 bi de reais do orçamento federal. Com isso se renuncia a estímulos fiscais que evitem a retração da economia, cujo índice de PIB para 2010 já está estimado dos 5% desejados para 3 ponto algo. Tombini, BC, diz que3 esse será o diferencial do país no mundo: “ter uma situação fiscal bem arrumada”.
Enquanto isso, os EUA já implementarão o QE3, terceira rodada de facilitação, injeção maciça de recursos no mercado (quer dizer, a maquineta de fazer dólares aludida por Eike Batista). Com isso, nova onda de liquidez mundial de dólares agravará a exigência de proteção cambial no Brasil (só nesta semana, o país recebeu 3,58 bi de dólares!). Sinaliza-se também dificuldades para o crescimento econômico mundial, talvez pura recessão, e estagnação por algum tempo.
Aqui, se faz de tudo um pouco. Será suficiente? Todos apontam: queda de juros mais adiante… Por que? Se todos dizem que a situação é menos danosa no país, reunimos reservas de mais de 300 bilhões de dólares… Por que o choque de juros tarda? Juros altos e o imenso diferencial com as taxas mundiais têm sido a porta da vulnerabilidade cambial, atraindo o excesso de liquidez mundial. Por que tarda esse enfrentamento? Quem ganha, quem perde com essa “solução”?
A pergunta não é retórica, nem se refere propriamente a erros do mix de medidas adotado pelo governo Dilma. Aludo a que essa é a grande deformação brasileira, não obstante o país estar melhor preparado para passar pela crise e o governo Dilma atua na direção correta. Grande deformação que é a expressão concentrada da ainda persistente dependência do país. Então, enfrentar a crise, exige pôr as questões nesse quadro de referência maior. Voltando ao início: é uma luta política, reunir forças e condições, convicções, de se livrar dessa condição de não conseguir fazer a inteira defesa dos interesses nacionais e do povo trabalhador. A situação é para estadistas, nestas horas no Brasil. Rumo, ritmo e gestos podem mobilizar a nação. Não nos esqueçamos disso: é preciso mobilizar a nação para enfrentar a crise e por saídas elevadas para o projeto nacional, popular e democrático.

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