O mundo assombrado
Publicado por waltersorrentino em 22/07/2011
Um espectro “muito concreto” assombra o mundo, de imediato: o risco de os EUA darem novo mergulho na recessão. “Tecnicamente”, se não houver entendimento entre os democratas de Obama e os republicanos enlouquecidos para autorizar a elevação do patamar de endividamento do Estado, a recessão será inevitável. Prazo para entendimento: até 2 de agosto. Ou isso ou a recessão, corte de direitos, arrocho fiscal…
A situação é pior, dado o estado de coisas na Europa. O próprio euro como moeda comum está sob forte assédio. Engessadas pela falta de políticas nacionais, Irlanda, Grécia, Portugal, Espanha e logo mais Itália foram, ou podem ser, arrastadas na voragem do default. A situação assimétrica provocada pelo poderio da Alemanha (seguida pelo da França), e as políticas impostas por ela poderão, em tese, implodir a moeda criada em 1999. Dez anos apenas!
O falso brilho da falsa belle époque do auge da globalização neoliberal está custando caro à humanidade. Na boa hipótese, Europa e EUA farão companhia ao Japão, na terceira década patinando na falta de dinamismo econômico. Poderá ser uma década de estagnação e até de inflação, A economia mundial sofrerá um baque porque esses três pólos representam mais de três quartos do PIB mundial.
Obama, já disse aqui no blog, se apequenou frente aos gigantescos problemas dos EUA e fraudou, assim, a esperança gerada na campanha. Agora tem a corda no pescoço. A contenda estadunidense vai revelando as taras daquela sociedade à exaustão. Uma delas é terrível e didática: os republicanos recusam o entendimento proposto por Obama de que não é possível nem moral os altos executivos financeiros pagarem menos impostos que suas secretárias! O presidente quer elevar impostos para fazer frente ao défice fiscal. Os republicanos, impassíveis, não aceitam: querem mais cortes de impsotos “para estimular o consumo e o investimento”. Essa é uma potente operação ideológica e política constituída nos anos neoloiberais: identificar o interesse da camada de rentistas como sendo do interesse geral da sociedade.
Algo semelhante ocorre no Brasil: a grita contra a inflação e conseqüente gestão da política monetária (no caso juros, no sistema consagrado uma meta – inflação – um instrumento – juros). O interesse dos financiadores da dívida pública regiamente remunerados pela mais alta taxa de juros do mundo é identificada ao interesse geral da sociedade.
No caso dos EUA, a operação político-ideológica é de imenso poder e massacrante. Deu na amoralidade manifestada na crise 2007-2008, ao conservadorismo nada piedoso que grassa por lá e nas terríveis manifestações regressivas que aquela sociedade vive em termos de valores.
Falta nestes tempos a “antena da raça”, ou seja, artistas à frente do tempo que interpelem os EUA sobre o “destino manifesto” de que se julgam portadores e sobre os descaminhos que levaram o povo estadunidense a tal grau de alienação-mistificação. De Paul Auster a Don de Lillo, para citar dois que admiro pela interpelação que produziram sobre a modernidade tardia e a fragmentação da pós-modernidade, impressionou-me vivamente o livro de Joseph Franzen, Liberdade. Festejado pela crítica como o “romance do século”, fortuna da crítica literária, o livro foi não obstante pouco valorizado entre nós, principalmente em certa mídia nativa.
É um soco no estômago. É a volta da grande narrativa e não síntese de fragmentos, tampouco instantaneidade de registro. Alcança três gerações de duas famílias típicas de classe média, do Leste e do interior do país. Desfilam pelo roteiro simples – um certo tipo de triângulo amoroso – todo o panorama dos anos 1990 e 2000 nos EUA. Todo mesmo. As ambições, frustrações e incompletudes do sexo, dinheiro, conflito de gerações, conflito entre republicanos e democratas, drogas, depressão – ah, uma das duas grandes personagens do livro! – a manipulação grosseira e com toques ridículos da bandeira ambiental lançada por Al Gore, o republicanismo crescentemente falseado por uma democracia for export mediante guerras e agressões de interesse do establishment que domina os EUA. O pano de fundo é muita amoralidade, ou melhor, a supressão provisória da moralidade como algo quase inevitável frente à realidade contraditória e inalcançável devido às enormes doses de alienação. A personagem central de verdade é a Liberdade: a contradição principal está na liberdade individual que marca a história do povo estadunidense, é mesmo sua força, mas gera sua tara.
Repito: Liberdade é obra de alguém que é antena do tempo. Ajuda a entender, a partir de um autor norte-americano, porque é possível tal grau de mistificação alcançando pessoas humanas, bem informadas e até bem intencionadas, levadas a ver como interesse geral o que são interesses nem tão obscuros assim do complexo financeiro-midiático e industrial-militar que move a potência imperialista em declínio. São taras de uma formação nacional. Ao mesmo tempo, a obra me diz que não se deve subestimar a capacidade dos norte-americanos compreenderem criticamente o papel dos EUA no mundo e modificá-lo. Aí estará a redenção dos norte-americanos, mas, nesse caso, o povo se enfrentará com classes dominantes cruéis, furiosos no conservadorismo, poderosa e inescrupulosa para manter-se no topo a qualquer preço. Que não seja, porém, em nome da Liberdade, essa a lição. Nem será com gente como Obama, apenas, é o que está se vendo.

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22/07/2011 às 11:07
Só uma correção camarada…
Nome do autor de “Liberdade” é Jonathan Franzen.
26/07/2011 às 4:55
É cedo, ainda, para antever o que acontecerá dia 02 de agosto. A humanidade toda está a queimar neurônios com predicas de todos os matizes. E os Republicanos parecem não temer gozar dos limites do poder repentinamente conferido a si próprios, como se sentados naquele trono em que Dâmocles acreditava poder governar o reino – agora, o destino do mundo – e cuja chantagem pretendem arrastar para mais além: 2012 – ano em que os EUA elegerão um (novo?) Presidente. Quizera a oposição Demo-tucana no Brasil desfrutar de tamanha peça de chantagem: há quem diga (por entre ‘Republicanos moderados’) ser possível aumentar o limite de endividamento para poder saudar compromissos até o ano que vem, 2012 e, depois, submeter o congresso americano (pelo teor e impacto da decisão, o senado americano (representação dos estados federados) parece ter mais poder do que a assembléia das Nações Unidas (representação das Nações)) a uma nova rodada de votação, justamente no ano eleitoral ianque. Assim pretendem encurralar e solapar o intruso (Obama) da Casa Branca. Mas há um outro elemento que não se deve ignorar: a luta de classes. Esse, o pano de fundo. Uma réstia de esperança por democracia e justiça social (a partir da eleição de Obama) foi suficiente para desatar as gigantescas mobilizações populares no início do ano, lideradas pelos operários e funcionários públicos do Wisconsin, em luta por emprego e manutenção de direitos, sacudiram os EUA da costa Leste até a Califórnia. E é justamente esse fato que pressiona, tanto democratas como republicanos, qualquer acordo para a “data limite”. Os proximos dias serão educativos.
28/07/2011 às 10:18
Ola amigos do Blog: volto aqui para sugerir a leitura de uma lúcida e importante análise sobre a luta de classes nos EUA, a implicação dessa luta com as origens e os desdobramentos da (mal) chamada ‘crise da dívida’. Acho que é leitura indispensavel para aqueles que buscam não ficar surpresos com relâmpagos em dias de céu azul! O texto chama-se “Lutando por nosso futuro”, publicado em 29 junho 2011, no sitio: http://cpusa.org, autoria de Sam Webb – Presidente do PCUSA.
abraços