Veredas da semana
Publicado por waltersorrentino em 29/05/2011
G xis
Decididamente, o mundo está em estado G-Xis. Dizer que o G8 dá as cartas hoje seria exagero; G20 uma ficção. O mundo está desregulado, embora com a tendência à multipolaridade; a questão é de coordenação: G-zero segundo Nouriel Roubini, neste momento. Quanto ao futuro imediato, G-Xis, não se sabe como será. A derrapada atual na retomada da crise nos EUA e o agravamento da situação da Europa podem pôr dez anos na recuperação. Japão já ultrapassa isso, dificultada a retomada agora pela crise nuclear. Enquanto isso, outros países emergentes se recuperam mais rapidamente e isso agrava a descoordenação.
Uma ou duas décadas perdidas?
A Europa vai ter que produzir um plano Brady para reestruturar a dívida da crise na Grécia, Portugal e Irlanda (Espanha e Itália à espreita). Será apenas uma década perdida? Na América do Sul foram duas, depois do ajuste da dívida, após EUA-Volcker darem o “golpe” dos juros em 1979, e pegou os países numa dívida externa insustentável a taxas pós-fixadas. Foi esperta a banca. Agora é Alemanha quem vai bancar essa sua “área de influência” crescente. Por isso quer manter a Europa, o seu BC e a união monetária. Vai se conseguir isso tudo com o engessamento dos BCs nacionais?
Judaico, israelense ou “likudiano”?
Obama mostra-se tão cínico quanto o poder dos EUA em geral. De todo modo com o discurso recente em Israel apenas recuperou os termos da resolução 242 da ONU (amplamente desrespeitada desde então) quando fala das fronteiras pré-1967 para os termos de entendimento do Estado palestino. Sérgio Augusto, em OESP ontem, lembra que o discurso dos EUA vinha ficando cada vez mais refém da direita israelense (conforme John Mearsheimer), para outros mais simplesmente likudiana, partido de Bibi Netaniahu. Portanto, não é propriamente um lobby judaico, até porque nisso se incluiriam posições mais democráticas também.
Rashid Khalim, em OESP ontem, mostra que Obama “repetiu cada ponto retórico importante para o atual governo israelense”. E Shlomo Ben-Ami, ex-chanceler israelense, no mesmo jornal, afirma que Bibi tem a mentalidade de um comandante de pelotão, sem senso de história. E lembra a resposta de Yaakov Talmon a um genitor político de Bibi, ex-premiê Menachem Begin, em 1981, com A pátria está em perigo: “Somente quando a ocupação terminar, Israel viver dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas e os palestinos recuperarem sua dignidade como nação, a existência do Estado judeu estará finalmente assegurada”.
O discurso, mais o de Bibi no Congresso norte-americano, já são prelúdio da campanha eleitoral à presidência. Seria muito bom que os palestinos não repetissem nenhuma ilusão na vontade/decisão dos EUA em avançar muito mais neste momento.
Pelé? Quem é o Pelé?
Enquanto isso… Enquanto Palocci vai “ardendo em chamas”, no plano econômico é bom observar viés do BC em, ao lado da meta de inflação, mirar também o PIB. No plano político, o contraste entre o perfil de Palocci e a figura de Aldo Rebelo no cenário nacional. “Experiente, discreto, equilibrado” (OESP ontem), mas principalmente um estadista em defesa do interesse nacional. Quem é mesmo o Pelé na política e no Congresso hoje?!
Código
Má fé, quando combinada com ignorância, é o pior de dois mundos que se unem. Em diferentes medidas é a cobertura sobre o Código Florestal na grande mídia, refletindo a celeuma existente em áreas da sociedade nada “neutras”. Não é uma abordagem que contraponha visões, é mais uma miscelânea de quem não entendeu o conjunto e-ou está prestando serviços corporativos a lobies de pressão.
Estampar manchetes terroristas como se viu acerca do impacto ambiental do Código só vai acrescentar calor ao assunto, não luz. Xico Graziano, em OESP ontem, põe dose de racionalidade e bom senso no debate, inclusive quanto ao sentido democrático de o Congresso ter tomado uma decisão como poucas vezes se viu por 410 votos!
Luz
“A norma culta não tem nada de elitista e devia ser patrimônio e orgulho comuns a todos”, foi o que disse João Ubaldo. “Quer se queira quer não, a norma culta é tida como a correta e a única que representa verdadeiramente nossa língua. Falar e escrever de acordo com ela é socialmente muito valorizado… Não é questão linguística, é questão política”.
Dizer que o MEC propala a aceitação de erros de português é um evidente exagero. Desconhecer o patrimônio que é a norma culta da língua no Brasil, enriquecida inclusive pela língua falada (que é diferente da norma culta mas nela se enxerga, e essa é uma nossa boa qualidade) é um evidente desenraizamento . Manifestar preconceito contra os que “falam errado” também não vai adiantar nada. Vamos fazer um pacto: pôr a educação e a língua em alto nível para fortalecer a cultura brasileira. E difundir a norma culta mas não elitista.
Liberdade é menos eu
Os livros, a leitura… Jonathan Franzen, dos EUA, autor de Liberdade em grande evidência hoje, diz: “À medida que aumenta a diferença entre ler um livro e as outras experiências de hoje, o livro emerge como uma alternativa real e deve ser mais atraente por isso. É um refúgio. Num bom romance, você consegue se reconhecer e pensar: ‘Eu poderia estar nessa situação’. Não é uma confusão de identidade, mas uma alternativa. Escrever e ler um romance tem muito a ver com uma perda voluntária do eu – o oposto de se sentir no centro do mundo virtual”. Bingo!
La belle etérnelle
“Acho uma bobagem buscar a felicidade como um estado permanente. Seria um tédio terrível. Nós precisamos desses instantes de euforia, de plenitude, justamente para equilibrar os outros. A vida é injusta, cruel. Não se pode passar por ela sem perdas. O importante é o equilíbrio”. A inabalável beleza de Catherine Deneuve é, como se vê, ainda maior em vida interior. “Sou uma mulher, não sou o mito”.

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