Fugir prá frente se o espaço aperta
Publicado por waltersorrentino em 15/04/2011
Agora que passou o frenesi dos 100 dias de governo de Dilma Rousseff – aliás, uma bobagem importada de outras plagas – será interessante notar algumas coisas as cobertura realizada pela mídia nativa.
OESP de domingo destacou a mulher, o estilo. Menções aos direitos humanos como fator modificado nas relações internacionais do país. Não se sabe de onde tirou que o núcleo duro é integrado apenas pelos ministros Palocci e Pimentel, Algum articulista tascou “100 dias de vacilação”, referindo-se à política econômica. Mas o centro da cobertura foi de que a inflação assombra e o câmbio desafia, sem deixar de registrar haver “forte mudança na política econômica”. Em absoluto, juros altos e câmbio defasado não foram editorializados.
O sociólogo L.W.Viana foi ouvido. Segundo ele trincou-se a relação entre Dilma e as centrais (sic), a partir da votação do salário mínimo; ela estaria sem partido nessa relação. E destaca ter se modificado a agenda terceiromundista (sic) do país sob comando de Lula. O mais importante, porém, já que não havia muito a extrair a mais em 100 dias (o entrevistado reconhece isso) foi que “a oposição não tem programa, se conforta com a denúncia liberal sem lugar nos sindicatos, na sociedade, ela não tem lugar algum”. A propósito, FHC deve ter lido a matéria e deu seu pitaco exatamente nesse sentido: uma denúncia liberal todavia sem apelo na sociedade (vide matéria http://www.waltersorrentino.com.br/2011/04/14/fhc-pecou-pelo-verbo-mais-uma-vez/). A oposição vem cometendo erros estratégicos, como foram o da candidatura e discurso de Serra e, agora, as tentativas de FHC de pôr algo no lugar.
Para a FSP Dilma reduz conflitos políticos e eleva tensões na área econômica, com indisciplina fiscal e incertezas sobre combate à inflação e aos riscos cambiais. Matéria principal é que o PT disputará classes médias a partir das pontes com Dilma. Os mais afoitos ouvidos afirmaram que o “Brasil está na encruzilhada”, aliás numa afirmação estranhíssima pois atribui a principal dificuldade (“ a elevação da taxa de investimentos” que seria a grande frustração brasileira) está na ideologia – ora vejam – “nacional-desenvolvimentista”. Enquanto isso, L.C.Bresser Pereira, corretamente, deixou o barco tucano porque comprometido com um projeto de nação, desfazendo o engano que partilhou com a teoria da dependência sob a versão de FHC.
Estendi-me para demonstrar que é muito pouco para debater o país. Há sem dúvida uma nova realidade no mundo, desfavorável, em contraste com condições mais favoráveis no Brasil. O momento é outro, o governo é outro. Ameaças estão presentes, mas nenhuma cobertura, parece-me, foi ao ponto.
Entretanto, na FSP Amir Khair dá uma opinião sensata. As “macroprudencialidades” para regular o crédito não agradam a banca pois esta perde com maiores depósitos compulsórios e deixa de ganhar com a SELIC elevada nos títulos do governo, ou elevação dos juros aos tomadores ou na apreciação do real. E mostra, de forma muito interessante, como são distorcidas pelos interesses do “mercado” as amostras que conduzem as “expectativas”: o BC usa o boletim Focus semanal cujas amostras são constituídas em 90% por instituições financeiras! Apenas 4% são instituições do setor real da economia e outros 6% de consultorias. É um jogo bem fechado esse: eles sinalizam expectativas que elevam os juros que os beneficiam. Lindo, não é mesmo? Por isso, entre outras muitas indicações, Khair aponta a de que o BC projete metas de inflação com horizonte de 12 meses à frente, e não anual. Simples mas eficiente.
Não será demais que as avaliações resenhadas acima têm esse vício de origem: com as exceções apontadas, refletem uma ideologização que não vê mar além da tríade de ferro que é o atrelamento do Brasil à ordem dominante no mundo, sob o tacão financeiro: o plano fiscal, monetário e cambial estreito e rígido. Para essa gente, o mundo é plano…
Partilho – evidentemente – da opinião do PCdoB sobre o assunto. Parece-me a mais equilibrada e conseqüente. Ou seja, de críticas à política macroeconômica mesmo reconhecendo os avanços verificados no conjunto de medidas combinadas para o equilíbrio, que não apenas a “pancada dos juros”. Já tratei disso também aqui no blog (http://www.waltersorrentino.com.br/2011/04/07/4412/). É um modelo difícil de superar por completo em poucos movimentos, pois se constituíram como âncora monetária as mais altas taxas de juros do mundo, em regime de câmbio flutuante que fez do real a moeda que mais se apreciou com a crise mundial, e em regime de superávites fiscais para garantir honrar os compromissos do governo perante os financiadores da dívida pública.
Mas Dilma respondeu a isso com clareza e altivez. Tratei disso no blog no artigo Contribuição à crítica do modelo (http://www.waltersorrentino.com.br/2011/03/19/contribuicao-a-critica-do-modelo/). O governo apresentou, pelo ministro da Fazenda Guido Mantega na última reunião do Conselho Político do governo, o objetivo de assegurar o crescimento econômico de 5% em 2011 e elevar a oferta por meio do incremento da taxa de investimento para cerca de 22%.
A questão é que há um momento muito interessante, apesar das ameaças inflacionárias e das incertezas mundiais, que é o grau de dificuldade da oposição. Renato Rabelo afirma que isso deveria levar a presidente Dilma a ser mais ofensiva, ou seja, seu governo devia ser mais ousado e preparar reformas estruturais democráticas. Bingo!
Há muita coisa ainda para se desenvolver. Dilma tem uma âncora fiscal na ação do ministro Palocci, uma âncora monetária da ação de Tombini no Banco Central e uma âncora cambial na ação de Mantega na Fazenda. O que chama a atenção é que estão jogando juntos e fazendo combinação de medidas sob a batuta da presidente Dilma. Dilma afirma que o país vai se desenvolver e não vai tolerar a inflação. Não é pouco. O tempo dirá o quanto se pode avançar por esse caminho, mas uma palavra de confiança é cabível neste momento.
Mas se houver “pauladas” a dar, elas devem ser nos juros, até porque interferem hoje pesadamente na apreciação do real. Nenhum país teve nem vai ter desenvolvimento mais acelerado com as mais altas taxas de juros do planeta nem com o câmbio apreciado como existe hoje no Brasil. Reduzir a SELIC progressivamente é passo absolutamente necessário para o equilíbrio das contas internas e externas. Enfrentar isso é defender o interesse nacional e pôr no devido lugar os interesses do mercado financeiro, que tem lugar a ocupar no desenvolvimento, o de investir, mas não pode chantagear a nação.
Isso quanto à área econômica. No plano político, a questão nestes 100 dias de novo governo e que persistirá sempre, é unir, no centro nevrálgico do governo, forças ideais e políticas convictas de que se pode avançar. Só PT não bastará; ao lado dele podem formar outras forças partidárias e de personalidades capazes de sustentar os embates pelo desenvolvimento acelerado do país. Só assim a ampla coalizão pela governabilidade pode ter estabilidade.

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04/10/2011 às 15:38
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