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Wikileaks, Meirelles e EUA

Publicado por waltersorrentino em 30/03/2011

Conta o anedotário nacional que o presidente Truman visitava o Brasil e se encontrou com o presidente Dutra. Era o pós-guerra e deve ter sido mais uma das visitas de “relançamento” das relações entre os dois países, após o governo Vargas. Truman foi efusivo com o colega no primeiro contato: “How do you do, Dutra?” Este, que não falava inglês, não hesitou: “How tru you tru, Truman?”. A verve popular é inesgotável contra os que traem seus interesses.

Agora, wikileaks dá a conhecer telegrama do embaixador Clifford Sobel dos EUA no Brasil que, em 9 de agosto de 2006, se encontrou com Henrique Meirelles então presidente do Banco Central do Brasil. Este teria lhe pedido intercessão do “colega” (?) para, “discretamente” instar o governo a propor a autonomia do Banco Central. Em troca, Meirelles poderia “ ajudar nos bastidores” contra os obstáculos aos investimentos dos EUA no Brasil. Elio Gaspari refere o telegrama entre aspas hoje na Folha de São Paulo.

Inevitavelmente rebatida pelo interessado e desconsiderada até o momento pelo declarante, o “informe” é mais uma revelação de cuja veracidade, a rigor, seria duvidoso duvidar. Nem seria necessário, dada a clareza da macroeconomia do país. Dizem os italianos que “se non è vero, è bene trovato” – se não for verdade, vem bem a propósito, digamos assim.

Seguem tristes os trópicos. A autonomia do Banco Central é imperiosa e o será cada vez mais para o Brasil afirmar seu lugar no mundo e retomar a construção nacional autônoma. Autonomia que será a dos interesses nacionais, a defesa da moeda, o fortalecimento do Estado e do Tesouro, o desenvolvimento acelerado, o combate à inflação sem sacrificar o povo e a produção gratificando regiamente os financiadores da dívida pública.

Claro que não se trata de verdades românticas. O Brasil tem largo passivo em termos de vulnerabillidades fiscais, inflacionárias e cambiais. É um passo compreender que no âmbito da tríade de ferro – âncora fiscal (superávites  primários), monetária (juros para “resfriar” a economia) e cambial (câmbio flutuante, ao sabor dos interesses do FED dos EUA) – será difícil dar-se ao respeito. O mundo todo, em diferentes medidas, está sob esse tacão das finanças que puncionam a produção, nações e povos inteiros.

Não será simples superar esse passivo. Não é guerra apenas de “movimento”, mas de “posição”. Há muito por fazer, a começar de reconhecer isso. China tem caminho próprio, por exemplo. No Brasil, nem tanto. Por aqui, para ir ao Norte pode-se alegar ser necessário adotar o caminho a Leste, quem sabe; mas  jamais se poderá ir ao Sul alegando que se chegará ao Norte, a não ser que se imagine dar a volta ao mundo e “cercar o inimigo por trás”. Não dá.

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