Brasil no lugar certo
Publicado por waltersorrentino em 21/03/2011
Dilma Rousseff conclamou o presidente dos EUA, Barack Obama, a uma parceria entre iguais. É uma boa abordagem, em sintonia com os interesses do Brasil, uma das maiores economias e democracias do mundo, em franca afirmação por um lugar de maior protagonismo no mundo.
Obteve como resposta de Obama que relações de maior profundidade exigem franqueza, para uma relação entre iguais. No espírito de grande empatia e simpatia que marca a figura de Obama, é uma declaração importante. Entretanto, Obama não afirma uma “parceria estratégica”, como no caso da Índia e China. Em se tratando de América Latina, marcada pelo subdesenvolvimento econômico e político a que foi forçada pela força do imperialismo estadunidense, pode-se dizer, de certo modo, que esse é também um dado positivo, porque o Brasil precisa mais e mais de relações multilaterais, mais equilibradas, tendo por centro a união sul-americana e parceria estratégica assim chamada Sul-Sul.
Nada a ver com anti-americanismo, bandeira da oposição e da mídia desarvoradas. Elas seguem na manobra de contrastar Dilma com Lula nesse tópico, superficialmente. No tempo do latão que reluzia, a década do neoliberalismo dos anos 90, a proposta central da diplomacia dos EUA foi a proposição da ALCA. Não cabia mais que rechaçar frontalmente a proposta, e isso marcou indelevelmente a política exterior brasileira com respeito aos EUA nos anos Lula. Rechaçou-se igualmente a alternativa de Bush, o pequeno, que foi a proposta de Tratados de Livre Comércio bilaterais, em face da derrota da ALCA. Esse foi um tempo que incubou a terrível crise financeira e econômica que abalou o mundo em 2008, a maior da “globalização neoliberal”, que exigiu maior multilateralismo nas relações comerciais do Brasil no mundo.
Quem ideologiza a questão, na verdade? Aquele foi um tempo em que ou nosso chanceler “tirava os sapatos” para visitar os EUA, ou se afirmava o interesse nacional. Agora, Lafer e Lampreia,com apoio na mídia, voltam a embalar-se nas “verdades como dom de iludir”, feliz expressão do jornalista Carlos A. Melo em O Estado de São Paulo, referindo-se à capacidade de comunicação de Obama; a frase comporta também o reverso: “a ilusão como dom de verdade”. A oposição agora aceita como oferecimento que Obama manifeste “apreço” pelo ingresso do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, bandeira combatida ao limite do non sense até ontem. Porque Obama falou…
Brasil sabe o lugar que precisa ocupar no mundo. Dilma mantém o rumo. Relações com os EUA são indispensáveis desde que soberanas. A política exterior comandada por Dilma Rousseff segue na mesma linha anterior: serena, afirmativa, soberana e perseguindo o interesse do projeto nacional nas relações exteriores. A luta segue, porquanto não faz sentido o Brasil ter défice comercial com os EUA: também nesse sentido o tratamento dado à visita de Obama foi correto.
Quanto aos EUA e sua política exterior, ela muda na forma, haverá vários nomes que a descrevam, mas não se perde de vista que representa a maior potência financeira e imperialista do mundo, em parceria com Europa. Obama decepcionou porque não cresceu com os desafios, que o impedem de cumprir a promessa de esperança que galvanizou no povo estadunidense. A crise financeira e econômica por ora paralisa maior protagonismo dos EUA e até reduz sua força momentaneamente. Ele se intimidou, o que demonstra o poderio do complexo financeiro (também militar-industrial) cuja voragem arrasta a tudo e todos nos EUA.
Sempre haverá que recordar que em meio a mais uma “relançamento” das relações EUA-Brasil, o dia da visita foi marcada também pela decisão de Obama em aprovar os bombardeios contra o povo líbio. Quanto aos latino-americanos, o anti-imperialismo está no DNA dos povos, pelo sangue derramado em incontáveis pelejas pelo desenvolvimento democrático e soberano. Hoje esta onda está no ar.
Parabólicas baratinadas
Rubens Ricupero, ajuda bastante a compreender as coisas.
“Declarações Dilma deram expectativa de que se afastaria do oportunismo calculista de Lula. Pena que no primeiro teste difícil (votação dos ataques à Lìbia) a diplomacia desaponte nossas esperanças”.
Ele se refere à correta decisão do governo brasileiro em não aprovar, na ONU, a missão de guerra contra o povo líbio. O Brasil esteve bem acompanhado pelos BRICs (Brasil, Rússia, China e Índia), além da Alemanha, por suas razões econômicas.
França, Inglaterra e Itália se comportam como os novos “poodles” dos EUA. Obama propõe que eles encabecem agora o comando das operações de guerra. Isso é importante para ninguém esquecer que Europa está mergulhada em governos conservadores, sem perspectiva e em declínio econômico e diplomático.
Quanto a Ricupero, o cidadão está com as parabólicas baratinadas.
O outro lado do balcão
E do ponto de vista norte-americano, que pode significar a visita de Obama ao Brasil? A opinião da editorialista do The Wall Street Journal, Mary Anastasia O’Grady, pode ser uma boa amostra. Seu artigo foi publicado no VALOR de hoje.
Simples: a viagem de Obama foi boa, mas desacreditada pelo “protecionismo que precede Obama”. De fato, as relações do Brasil com governos norte-americanos democratas têm se revelado mais conflituosas exatamente devido à base social democrata, de matiz protecionista mais acentuada. Dilma Rousseff reforçou esse aspecto.
Mais importante porém, são duas coisas. A percepção da articulista é de que tradicionalmente o “Ministério das Relações Exteriores é reservado para a esquerda excêntrica do país. Isso e [mais] a ambição brasileira, testada pelo tempo, de derrotar a hegemonia americana na região na região”. E a centralidade da agenda de direitos humanos, levando o Brasil a ser “parte de uma longamente aguardada iniciativa regional para denunciar os abusos dos direitos humanos. Se os EUA e Brasil estiverem cantando a mesma música, isso vai ajudar”.
Os grifos são meus. Retratam desfaçatez. Ajudar quem? Porque se deveria apoiar a utilização dos direitos humanos – a serem defendidos de fato, no âmbito democrático, respeitando a soberania das nações e as relações respeitosas entre nações – para promover guerras (Iraque), massacres (Líbia), e mesmo arma da geopolítica mundial (China).
O outro lado do balcão enxerga assim as coisas. E ver as coisas em perspectiva da luta política é indispensável condição de acertos estratégicos para o projeto nacional.

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23/03/2011 às 1:11
Caro Sorrentiono
Talvez fosse melhor: o Brasil próximo ao lugar certo. É certo que das cinco nações que se abstiveram, duas poderiam ter vetado esta terrível resolução da ONU. Mas isso só demonstra que a ONU está defasada para o século 21. Sua reforma é urgente e propiciará ao Brasil estar verdadeiramente no lugar certo. A ONU foi criada no século 20 para defender a soberania de impérios em decadência. No século 21 ou ela defende a soberania das nações, ou tudo mais (direitos humanos, democracia, desenvolvimento) ficarão presos à lógica da OTAN (a organização terrorista mais ampla e efeciente do século 21); enquanto essa organização existir, a humanidade estará sobre ameaça constante. Talvez na Líbia, assim como no restante do Oriente Médio e do norte da África, “os sinos dobrem” para o ocaso dessa entidade facista.
um forte abraço.