O socialismo e a crítica míope
Publicado por waltersorrentino em 14/02/2011
Os 31 anos do PT – importante e indispensável força política nesta fase da luta por um novo projeto nacional de desenvolvimento – merecia debate mais qualificado sobre sua evolução no rumo do “centro-esquerda”. Num ambiente de vazio ideológico com a crise estratégica que atingiu o outrora campo socialista, embora o PT se afirme como “socialista democrático”, tendo assumindo o governo central no país, acentua uma evolução inscrita em seus próprios antecedentes. Com isso alimenta os críticos da esquerda e do socialismo.
Mas há críticos que quando olham adiante só enxergam o próprio nariz ou o retrovisor. Matéria no Estado de hoje (14 fev) fazem vaticínios baseados na velha visão do socialismo. É certo que a China socialista segue sendo um enigma quanto ao futuro, dada seu projeto de se re-situar no ambiente mundial e dar amplo espaço ao mercado. É certo que não há hoje alternativas imediatas ao capitalismo, nem se vive uma conjuntura revolucionária com saídas de rupturas políticas classistas.
Entretanto, o que se vive, de modo conseqüente, é um período de acumulação estratégica de forças pelos partidos de esquerda, período no qual está ocorrendo um profundo movimento de renovação programática e de pensamento estratégico acerca dos caminhos e rumos para o socialismo. Isso é muito importante: renovação, extraindo lições dos graves erros das primeiras experiências socialistas. Um novo ascenso dessas ideias não terão paralelo com o que ocorreu com o velho liberalismo. Como se sabe, tais ideias ficaram hibernando décadas após o triunfo do keynesianismo no segundo pós-guerra, para retornar em toda sua agressividade contra os trabalhadores e os povos na forma renovada de neoliberalismo.
Por distante que pudesse estar a perspectiva socialista, ela se alimenta da luta dos povos contra o imperialismo, pelo desenvolvimento soberano e afirmação nacional, ao lado da luta de resistência e conquista de direitos sociais e democráticos.
Por isso, são despropositadas afirmações como as de Leôncio Martins Rodrigues de que “o socialismo sempre ressurge, no estatismo, na rejeição do mercado e da democracia representativa, do liberalismo, individualismo e defesa do partido único”. É uma crítica preguiçosa e rançosa. Aldo Fornazieri, que vem dando contribuições importantes à reflexão sobre os rumos do Brasil com os governos populares, surpreende na entrevista (será mesmo fiel?) dizendo que o grande conflito do mundo não é mais entre patrões e empregados (sic), mas “uma diferença civilizacional entre Ocidente e islamismo”. É inteiramente fora de propósito endossar, assim, tese reacionária de Samuel Huntington, de décadas atrás, que, aliás, deu a base ideológica para as duas guerras do Golfo contra o Iraque e a guerra de Obama no Afeganistão.
É certo que a esquerda ainda não se recuperou o golpe sofrido com a crise do socialismo. O PT é expressão disso. Mas não se deveria autorizar tamanha simplificação que não vê o que ocorre em nossa América Latina, no Brasil, no altermondialismo, para o que o PT e toda a esquerda brasileira vem dando muitas e grandes contribuições. Seria muito importante que o PT fosse mais consequente em atualizar a perspectiva socialista, o que permanece em seu discurso. Como disse certa vez Marilena Chauí, falar em socialismo sem ao menos remeter a certos graus e formas de socialização de meios de produção é escapismo.
Particularmente o PCdoB dá uma resposta clara ao dilema. O rumo é o socialismo porque as classes dominantes brasileiras não têm como liderar um novo projeto nacional de desenvolvimento, soberano, democrático e popular, de integração sul-americana. O projeto nacional brasileiro, renovado para as condições do mundo hoje, é o caminho atual para abrir possibilidades para o rumo socialista. É o programa do PCdoB. Ele implica, neste momento, a luta por reformas estruturais democráticas, formando um amplo movimento para enfrentar as grandes questões que entravam a afirmação nacional e o reforçamento do Estado nacional, indispensáveis ao desenvolvimento e à definição do lugar do Brasil no mundo.
Como sempre ocorreu na história brasileira, é um movimento que pode e precisa unir amplas forças sociais, onde as forças populares estão chamadas a hegemonizar o comando. Será longo, acidentado, contraditório. O mais importante será a clareza, convicção e habilidade na condução. Mas é um movimento promissor. O PCdoB está nessa! Socialismo é não apenas um ideal, mas deve se tornar um projeto tangível, a partir da realidade concreta de nosso país. Olhar para a frente hoje implica essa renovação de perspectivas. Talvez, como diria Gramsci, com o pessimismo da razão (pois que são duras todavia as condições para saídas revolucionárias), mas com o otimismo da vontade. O socialismo é o horizonte de toda a nossa época histórica. Mas não se dará, numa segunda onda de experiências, segundo um caminho único, pensamento único, ritmos iguais. Estará amparado nas realidades nacionais de cada situação, nos marcos de conjunturas internacionais instáveis e cambiantes.

The O socialismo e a crítica míope by Blog do Sorrentino, unless otherwise expressly stated, is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 3.0 Brazil License.





14/02/2011 às 12:16
[...] This post was mentioned on Twitter by Nah Vieira, walter sorrentino. walter sorrentino said: O socialismo e a crítica míope: http://bit.ly/gww9Ci via @addthis [...]
14/02/2011 às 19:34
A revolução deve ser social e não apenas política, porque a política só pensa e age dentro dos seus limites (a vontade).
15/02/2011 às 8:17
por alguma razão o comentário do sempre atento e atilado amigo Sérgio Barroso não foi postado. Faço-o agora, agradecendo a reflexão e esperando que esse debate continue.
Estimado camarada Walter:
Muito boa a iniciativa dos comentários. O nosso enfoque, acerca dos caminhos no Brasil, é da lavra de comunista da “árvore” bolchevique e sua seiva poderosamente fecunda. Com o nosso novo Programa, descemos, por assim dizer, de uma certa copa de intrincados arabescos; vias ainda abstratas, como que clonadas à uma idéia longínqua, sem embargo tendo o rumo reiterado. Mas os desafios são quase iguais aos desatinos: decadência capitalista no planeta inteiro, inclusive no nosso “capitalismo tardio” tupiniquim. Claro que sim. Por aqui, viver é sobreviver duramente, nada mais.
Assim e por um lado, evoco o brilhante marxista Domenico Losurdo (Como nasceu e como morreu o “Marxismo Ocidental, 2010) ao recordar que, já em 1960, no 70º aniversário de Ho Chi Min, declarou ele, sua suja trajetória intelectual e política: “Ao princípio o que me impeliu a crer em Lênin e na Terceira Internacional foi o patriotismo, e não o comunismo”. E adiante: “As teses de Lênin [sobre a questão nacional e colonial] despertaram em mim uma grande comoção, um grande entusiasmo, uma grande fé, e ajudaram-me a ver claramente os problemas. Foi tão grande a minha alegria que até chorei”.
Losurdo então espicaçara (lateralmente) Michel Focault e sua contra-idéia – digo eu – de poder, escrevendo: o gesto de condenação de todas as relações de poder, aliás, de todas as formas de poder quer no âmbito da sociedade que no discurso sobre a sociedade torna bastante problemática ou impossível a “negação determinada”, a negação de um “conteúdo determinado” que, hegelianamente, é o pressuposto de uma real transformação da sociedade, o pressuposto da revolução – asseverou certeiramente o filósofo italiano.
A propósito e por outro lado, comentei agorinha mesmo, no Curso de Economia Política Marxista & Desenvolvimento da nossa Escola Nacional: a Revolução está viva, vivíssima. Renegados e socialdemocratas financiados pela mídia anticomunista passaram aproximadamente os últimos 20 anos embevecidos com as sinecuras da administração do capitalismo “democrático”; adoraram a conversa ridícula, porém reveladora, do “fim da história”. As autênticas situações revolucionárias (A bancarrota da II Internacional, Lênin), por exemplos na Argentina, na Bolívia, no Equador, e hoje se alastrando na “revolução árabe” integram uma fase de espécie de exaustão paroxística desse imperialismo em declínio. Por incrível que pareça, não identicamente (como (des) ordena a dialética materialista) as rebeliões rupturistas emanam da periferia do imperialismo: elos fracos que se desconectam dum centro-corrente que começa a apodrecer – e resistirá com truculência.
Enquanto o PT jamais será socialista: bastando a ele ser antineoliberal conseqüente. O que não está sendo.
Abraço, Aloísio Sergio Barroso