Curtas do cotidiano
Publicado por waltersorrentino em 01/02/2011
Eppur se muove
Movimento no front São Paulo promete muita resultante política local e nacional. Kassab, com o resultado das urnas, busca novo campo político. Objetivamente, ele se aproxima da base Dilma. Já Serra, com quem Kassab galgou as posições atuais, objetivamente busca liderar a oposição para se cacifar no PSDB. No fundo, o problema novo é a disjunção Alckmin-Serra e a disjunção tucana entre SP e MG de Aécio, com efeitos em 2012 e 2014, a candidatura ao governo paulista e à presidência.
O bloco dominante há dezesseis anos no Estado, de governos tucanos, vai sofrer fratura no Estado, dependendo disso como também da disputa do comando do DEM nacional, em março, cujo desfecho Kassab vai aguardar. Isso pode constituir um terceiro pólo decisivo para modificar o quadro de domínio tucano em São Paulo, bem como a bipolarização com PT (há dezesseis anos produzindo vitórias tucanas).
Kassab visa se movimentar com seu grupo para o PMDB, em acordo com Temer. Paulo Skaf pode se somar, Dr. Hélio de Campinas idem, entre outras numerosas lideranças. Kassab já reposiciona seu governo na capital para o último período, quer acumular forças e alianças para 2014 ao governo estadual.
O cenário, naturalmente, não está fechado. Em SP tanto pode vingar o novo PMDB com Kassab, como se poderia renovar a aliança PSDB-PMDB-DEM. Ainda há a variável Serra candidato a prefeito em 2012, mas pergunta-se: com Alckmin ou contra Alckmin?
Um terceiro pólo forte (PMDB-Temer-Kassab) atua exatamente como aquela reserva indireta para permitir avanços na situação paulista, abrindo-a ao jogo político esterilizado há 16 anos. Há momentos em que reservas indiretas definem o resultado do jogo, e este é um deles. Para o governo Dilma isso é só lucro. Para o PT e o campo popular, tendo visão de fundo, idem. Para Kassab é, como para as nações, a imperiosa necessidade de lutar por “espaço vital”, o que ele faz com a competência de um político hábil e respeitoso. Para os paulistaas, é futuro aberto.
Jobim
Declarou: “É tempo de pressão estratégica” na execução da renovação da frota da Marinha. “Ameaça atualmente é de baixa intensidade mas a curva é ascendente”. Até julho se quer uma definição, na mesma arquitetura financeira aplicada na escolha dos caças de múltiplo emprego da Aeronáutica. Bem, ele está certo, embora a última comparação não parece propriamente um bom exemplo de agilidade, pois não?
Mubarak
Governo Mubarak, no Egito, 30 anos, gerou corrupção, injustiças, liberalização com desemprego e miséria, tortura. É o que dizem os manifestantes nas ruas, em levante popular. EUA, nesses 30 anos, foram sustentação a Mubarak, para garantir Israel.
Tanto as águas do rio como as margens que as contêm são violentas. Ou, como disse Michjel Chossudovsky: “Os mestres dos fantoches apóiam o movimento de protesto contra os seus próprios fantoches”.
A questão é que a luta nacional naquela porção do mundo por vezes liberam forças de extração religiosa nem sempre compatíveis com liberdade e progresso espiritual. Nem sempre um Nasser as lidera.
Rio e São Paulo
Rio no mapa globral entre as “cidades transformadoras” do mundo, no futuro próximo. Xangai encabeça como a capital do século 21. México a nova capital da América do Norte. Até Teerã entra, vejam só os preconceituosos ocidentalistas acríticos! São Paulo, com Lagos e Mumbai, “transformarão o caos urbano em lugar habitável”.
É o que concluiu a enquete mundial de uma agência de propaganda com profissionais de planejamento. Bem, o pessoal é dado a algumas abstrações, e algumas estão por fora, talvez reflitam apenas os desejos do mercado.
Fetiches 1
Cem dias de governo é conta de bobo, pautada pela mídia, pelo molde dos EUA. Alguém deveria ter tempo de mostrar que valor teve isso com Getúlio Vargas ou Juscelino ou Lula. Quem sabe, com F. D. Roosevelt. Cem dias sinalizam, claro. Mas em sessenta não? E em cento e oitenta?
Fetiches 2
Em 2010 a Rússia cresceu 4% em 2010. A Índia cresceu 8,5%, com inflação também 8,5%. O Brasil cresceu 5%, inflação também em torno de 5%. A China é um ponto fora da curva, pela capacidade e decisão de defender seus próprios interesses nacionais.
A grita contra a inflação como a questão absoluta no Brasil é bem seletiva, como se vê. A serviço de que e de quem se elevam os juros, cara-pálida?
Do Leste ou do Oeste?
O novo “momento Sputnik” citado por Obama no discurso de Estado pode enganar se encarado como leitura literal. Porque as relações EUA-Rússia hoje não estão no centro da agenda de problemas. A verdadeira preocupação norte-americana é com o avanço astronômico da China e até Índia. Pior: a relação Rússia-China vem se fazendo cada vez mais próxima. É o comentário de Cristopher Davis, professor de Oxford.
Mais sobre a década neoliberal no Brasil
Disse Sérgio Salomão Shecaira, no Estadão, sobre o afastamento de Pedro Abramovay da Secretaria Nacional Anti-drogas por defender flexibilização na lei antidrogas para pequenos traficantes.
Em 1994, população de 147 milhões, população carcerária de 129 mil. 88 presos por 100 mil habitantes.
Em 2010, 191 milhões de brasileiros, encarcerados500 mil. 261 presos por 100 mil habitantes.
Foi a década neoliberal. Acompanhada pela instituição do “Estado de controle”. Punir mais! 26% dos presidiários hoje aguardam julgamento! Cultura punitiva, e seletiva como se pode constatar contra os negros predominantemente.
Quer dizer, a Constituição de 1988, da redemocratização, instituiu carta de Estado de bem-estar social contraditório, à moda do Brasil. A década neoliberal estancou o crescimento e modificou o caráter do Estado. Deu no que deu.
Há tanto ainda por fazer, Dilma! E não basta deixar Abramovay de fora.
Música 1
André Mehmari e Hamilton de Hollanda prepararam um novo CD, “gismontipascoal”. Isso mesmo, homenagem aos dois grandes fenômenos musicais brasileiros, cuja produção é a alma brasileira musicada em alto nível de qualidade. Os intérpretes, dois jovens virtuoses no piano e no bandolin (cujo uso Hollanda inovou fortemente), não ficam nada a dever. Há inclusive belíssima composição de ambos os dois aos mestres (gismontipascoal), outra de Mehmari (Chorinho prá eles), outra de Hollanda (Menino Hermeto). O restante é interpretação de obras dos mestres com incrível gabarito e senso musical.
Como disse Hermeto:”Quem toca um instrumento não pode ser instrumento do instrumento nunca”. E Gismonti, dirigindo-se aos dois músicos: “A retribuição que desejo é dificílima pra alguns, evidentemente, não prá vocês: desejo que vocês continuem prá sempre guardiões da música brasileira, lembrando, sempre, que ELA é muito maior que todos nós”.
Que mais belo tributo dos quatro que esse?
Música 2
Na origem multiculturalismo tinha sentido progressista e humanista, um ideal democrático e cosmopolita, que longe de opor povos e frações de povos, unia a todos na tribo global da humanidade, valorizando as diferenças. Depois, sua apropriação foi a de forjar tribos em detrimento da universalidade humana, a serviço de fragmentar interesses para melhor exercer o domínio de pretenso pensamento único globalizado (em inglês norte-americano, claro).
Mas ouçam a última produção de Herbie Hancock, o magistral músico que já venceu vários Granmy’s, inclusive com este Imagine Project. Sim, o ideal de Lennon em Imagine, a música cult de mais de uma geração, se realiza numa produção esmerada, gravada em quase uma dezena de estúdios, em três continentes. Nele participam dezenas de músicos norte-americanos, europeus, africanos, latino-americanos, num amálgama poderoso. Tudo conduzido sob notável unidade pelo pianista e produtor, Herbie, que é um gigante da musicalidade de nosso tempo. Não percam.

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01/02/2011 às 8:56
Em tempo: novo lance da questão Kassab é a derrota de sua posição na eleição da liderrança da bancada.Vitória de ACM Neto deixa Kassab com mais metade do segundo pé fora do DEM.
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