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Um novo dia na história política do Brasil

Publicado por waltersorrentino em 31/12/2010

Amanhã não se inicia apenas o novo ano. Na história política do país, é um novo dia, em que assume pela primeira vez a presidência uma mulher. O blog volta após breve interregno, com uma homenagem a Dilma Rousseff.

BRAZIL-ELECTION/

Quisera, neste 2011, que jamais possibilitássemos transformar numa obviedade esse fato. O mundo da política é muito duro, mas não deveria eclipsar o universo dos valores e o passo marcante que significa Dilma Rousseff ter vencido as eleições. Certamente haverá muita peripécias políticas, mas esse fato marcará nosso destino doravante.

Atualmente, não chegam a 20 as mulheres que presidem ou presidiram países no mundo. Não conto rainhas… falo das que não têm sangue azul. Mas convenhamos, estamos no século 20 da era cristã, e há história recolhida de quase outros tantos dois milênios antes de Cristo, em que as mulheres pagaram o maior preço pelo esforço civilizatório, sem poder gozar de direitos integrais. Igualmente nunca esquecêssemos a obviedade que é a profunda discriminação contra as mulheres ainda existente.

Um literato argentino muito interessante – Marcos Aguinis, em Elogio del Placer, Sudamericana 2010, autor também do delicioso O atroz encanto de ser argentino e Pobre Pátria mia! –ajuda a lembrar, aos que poderíamos esquecer disso, poucos marcos dessa amputação empobrecedora da experiência humana.

Lembrar do Código de Hammurabi, dezessete séculos antes de Cristo, autorizando o marido a submeter e escravizar a esposa com conduta desordenada que deixasse de cumprir com suas obrigações. Poderia mesmo pagá-la como mercadoria a credores.

De Zaratrusta, ícone de Niestche e Strauss, sete séculos antes de Cristo, recomendando que a mulher adore o homem como a um Deus. Cada manhã devia ajoelhar-se nove vezes consecutivas aos pés do marido e com os braços cruzados perguntar-lhe “Senhor, que desejas que faça”?

As Leis Sagradas de Manu, da antiga Índia, que asseveravam depender a mulher, durante a infância, a seu pai; ao casar-se, de seu marido; se este morrese, de seus filhos; e se não os tivera, do soberano.

O apóstolo Paulo, aconselhando as mulheres a permanecerem caladas nas reuniões comunitárias; se desejassem instruir-se, perguntassem em casa aos maridos.

Aristóteles que, entre outras aberrações (apesar de lúcido, como lembra Aguinis), escreveu que a natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens (o que, embora na embriogênese conheça algo aproximado do ponto de vista biológico, em termos de determinação genética para os diferentes sexos, no caso de Aristóteles significava ser a mulher um homem inferior).

O Corão, que afirma Alá ter outorgado primazia dos homens sobre as mulheres, de modo que os maridos que sofreram desobediência de suas esposas podem admoestá-las, abandoná-las e inclusive agredi-las. Quase 1500 anos depois ainda se luta pelo direito de Sakineh no Irã não ser apedrejada.

Lutero, que teve a ousadia de rebelar-se contra o catolicismo, ao dizer que o pior adorno que pode ostentar uma mulher é ser sábia. Quase mil anos depois do massacre promovido pelo recém instalado catolicismo no Concílio de Nicea, contra Hypatia, sábia da Alexandria, pagã inconvertível, bela, filósofa, cientista, que completou sua formação em Roma e Atenas…

Do humilhante direito de pernada, na Idade Média, lembrando que o corpo da mulher não pertencia a ela própria. E mesmo de ter que  pedir permissão ao rei para procriar. Aguinis lembra a história de, conseguida a autorização de consumar o matrimônio, os cônjuges se encerrarem nas alcovas com o anúncio Fornication under consent of the King, cujas iniciais formam desde então o popular vocábulo fuck. Se non è vero è bene trovato!

Claro, não pode faltar o registro do rosário renovado que foi e segue sendo o capitalismo para as mulheres, a opressão, a desigualdade de direitos, a sobrecarga de responsabilidades, sustentando a produção além da reprodução social.

A mulher-objeto vem de longe, como se vê, e sempre associada à propriedade privada, à exploração, ao lucro, à exploração de seu corpo e um aparato institucional destinado a garantir isso – a Igreja católica, as religiões em geral e o Estado. Pior ainda foi associar essa imagem ao castigo pela busca do prazer, hoje travestida de busca de formas exacerbadas de prazer, e contrapor prazer e procriação, terreno onde ainda não houve a completa separação entre Igreja e Estado, de modo a condenar o direito das mulheres ao seu próprio corpo.

Seria preciso ir mais longe, mas o oceano é interminável e as ilhas foram poucas. Nem se precisa falar, nos dias atuais, de um Berlusconi, que além de desmoralizar a pátria italiana, desmoraliza cotidianamente as mulheres com sua calhordice machista; nem de Clinton, puritano hipócrita em seu caso extra-conjugal na Casa Branca, que também revela um traço da época; e, para não dizer que falei apenas do “lado de cá”, de Sarah Palin, troglodita moderna do Tea Party que sozinha vale por muitos dos homens no reacionarismo conservador. Apenas para lembrar que a toada contra a emancipação das mulheres segue célere, mesmo no terceiro milênio, malgrado as conquistas alcançadas.

No Brasil, alcançou-se o direito de voto das mulheres há apenas 80 anos, quarenta e um após a proclamação da República. Foram muitas gerações de mulheres que lutaram, de armas nas mãos, como Maria Quitéria, ou as guerrilheiras do Araguaia. Houve a primeira “presidenta”, Bárbara de Alencar, da República do Crato. A galeria é infindável e honrosa. Por isso, decididamente, é uma honra mulheres como Dilma, Cristina, Bachelet entre outras, presidindo nossas sociedades na América do Sul. Hoje elas são maioria em vários ramos sociais, nas faculdades e, crescentemente, na base do trabalho. Sua emancipação porém é truncada, parcial, incompleta, marcada por menos direitos, mais opressão e exploração,  além de preconceitos milenares.

Vêm de longe as atrocidades contra as mulheres; vai longe ainda o combate para fazer de homens e mulheres parceiros iguais em direitos, porém diferentes, que façam dessa igualdade de diferença a beleza da experiência humana e do prazer. Mas já se está no caminho e vencerá essa tendência progressista civilizatória. O Brasil passa a dar uma contribuição marcante a essa tendência. Dilma presidenta redime a história e aponta avanço nesse caminho. Viva!

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2 comentários para “ Um novo dia na história política do Brasil ”

  1. Tweets that mention Um novo dia na história política do Brasil via -- Topsy.com Says :

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