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O país precisa de estratégia, não de ortodoxia conservadora

Publicado por waltersorrentino em 11/12/2010

Nem chega mais a impressionar mais a orquestração conservadora – quase terrorista – em torno da “inflação” dos alimentos e seu suposto descontrole. O que sempre impressionará é a desfaçatez com que isso se proclama como pressão sobre os “gastos” de governo e o manejo dos juros, em torno da data de reunião do Comitê de Política Monetária, numa fase de transição de governo na qual Meireles deixa o comando Banco Central.

Tombini, novo presidente do BC, é de carreira e da mesma equipe anterior, mas não é fiador de nada e foi definido como membro de uma equipe cujo titular é Mantega (anunciado antes de Tombini) mas cujos chefes, de ambos, é Dilma Rousseff, ela própria.

Ela se comprometeu com a tríade de ferro da macroeconomia atual, não havia outra proclamação a fazer, certamente. Mas a margem de manobra existe e se impõe diante da conjuntura econômica mundial.

Aí é que entra a velha banda de música que se orquestrou no “mercado” e na imprensa, que nem disfarça seus interesses:  manter tudo como está e fazer o país continuar pagando o custo desse tipo de gestão, na forma de juros mais altos do mundo para remunerar os que investem na dívida pública do governo. Uma mina de ouro, uma parasitária forma de atividade econômica. Alcançaram confundir isso com o interesse geral da sociedade, como se estabilidade econômica correspondesse a um único caminho inescapável.

A pegada é essa: os gastos fiscais do governo impedem os juros de cair. Aliás, deveriam ter subido ainda mais, segundo esse pensamento energúmeno. Antes, foi a pesada crítica ao comentário do atual e futuro ministro da economia, Guido Mantega, sobre o aprimoramento do cálculo da inflação, buscando seu “núcleo” não sazonal, que modula a taxa de juros.

Os custos? Perda de competitividade do país com o real sobrevalorizado, pressão sobre o papel estratégico da indústria, reduzida taxa de investimento público e privado, desenvolvimento econômico travado, “colado” na dos países centrais do mundo, exatamente os que mais estão afetados pela crise.

Coragem para a futura presidenta. As forças do lado de cá também são grandes, convictas e não lhe faltarão se for ousado o empreendimento. A nação precisa fazer sua inteira auto defesa, defesa de sua moeda, seus interesses. No centro de tudo, acelerar o desenvolvimento.

Fui conversar com Elias Jabbour, colaborador assíduo do blog. Ele defenderá sua tese de doutorado estes dias, e está concentrado. Mas comentou a meu pedido alguns aspectos desse interesse conservador indisfarçado.

Elias, que lhe parece essa orquestração recente comentada por mim acima?

Ao que tudo indica o terrorismo político de extrema-direita que assolou a campanha eleitoral recém-finda atingiu em cheio a pintura do cenário econômico brasileiro.  Não se trata de novidade, pois a grande expressão moderna do fascismo à brasileira tem no ultraconservadorismo econômico seu epicentro. É assim desde a instalação da primeira siderurgia brasileira na década de 1940 e tornou-se ideologia oficial de Estado com a contrarrevolução iniciada com a eleição de Collor em 1989.  O signo desta contrarrevolução é o “combate à inflação”. Uma alegoria diante da estratégia ultradireitista de solapar o desenvolvimento nacional em pról de ideologias importadas e idéias-força como “neoliberalismo” e “globalização”.

Mas a mistificação em torno da inflação é poderosa…

Arrocho salarial e abertura comercial são os remédios receitados diante da “realidade” de um país sem poupança interna. Assim com o choque de importações e arrocho de demanda a inflação seria vencida de uma vez por todas. O paladino do novo tempo a ser alcançado diante das reformas estruturais. Direita e esquerda uniram-se diante da necessidade “estratégica” de estabilização monetária como pré-condição ao crescimento;

Quanto à alta dos preços dos alimentos, o novo vilão, que lhe parece?

É, há uma alta dos preços de produtos alimentícios como o foco central do problema. Mas independente da “verdade nos fatos” sobre a natureza central do problema e como combatê-la, a inflação em alta cria as condições objetivas para o enquadramento futuro governo em torno da necessidade do “controle de gastos”, redução do crédito de longo prazo e assim por diante. O que poucos percebem é que o objetivo estratégico desta pauta é o da desconstrução dos mecanismos utilizados pelo governo (capitalização dos bancos públicos, alongamento dos prazos para empréstimos e insumos ao investimento) no enfrentamento da crise financeira. O Banco Central e suas atas pós-crise denunciam esta manobra que ganhou força no exato momento em que a inflação sai do centro da meta de 4,5% atingindo 5,8%. De passagem registro que a resposta dada pelo atual e futuro governo é desalentadora: aumento dos compulsórios bancários, retirando de circulação R$ 60 bilhões, anúncio de corte generalizado de gastos e até a possibilidade postergamento de obras do PAC como forma de desaquecer a demanda. Para mim o problema da inflação não está numa demanda criada por aumento dos investimentos produtivos e consequentemente do emprego e sim na alta dos preços de gêneros alimentícios de primeira necessidade. Logo, não se enfrenta esse mal encarecendo o crédito, pois até onde eu saiba os pobres não se utilizam de créditos bancários para comprar comida!!!

Qual a essência do problema e como enfrentá-lo?

Eis o “x” da questão. A luta de ideias deve girar em torno da diferenciação entre uma inflação gerada por acúmulo de investimentos produtivos, logo diretamente ligada a expansão do crédito bancário e outra relacionada a dos chamados preços administrados (tarifas públicas) e a de alta dos alimentos. Estas duas últimas não se combate com a utilização de mecanismos de economia monetária e sim com ação efetiva do Estado. A presente alta dos alimentos é causada por variações climáticas. A imprensa tem noticiado isso, porém se trata somente de meia verdade. Os preços dos alimentos são puxados para cima também por ações humanas diretas, sendo a principal delas o do monopólio sobre a oferta dos gêneros diretamente do produtor (monopsônios/oligopsônios). A ação destes agentes não é minimamente abordada seja pela imprensa, seja por “intelectuais”. É uma típica ação, que se transforma em lei econômica objetiva, de países que se industrializaram sem prévia reforma agrária. Se de um lado a urbanização desmesurada eleva a taxa de exploração do sistema (exército industrial de reserva) achatando salários, por outro a ação de monopsônios/oligopsônios faz com que boa parte do salário dos trabalhadores sejam utilizados para a compra de comida. Durante muito tempo, a turma da “agricultura familiar” criou um falso problema do desabastecimento ocasionado pela preferência ao mercado externo, quando na verdade a fome no Brasil não tem relação alguma com desabastecimento (problema solucionado por Geisel com a criação dos “complexos agroindustriais”) e sim com a falta de dinheiro para comprar comida, simplesmente. Abstrações à parte, a solução deste tipo de inflação não se encontra no manejo de ferramentais da economia monetária (juros, por exemplo) e sim com estratégia. O que o Estado deve fazer é ter à mão uma política séria de proteção aos afetados por este tipo de inflação: pode parecer ridículo, mas teria grande eficiência uma política distributivista de dinheiro em espécie às camadas da população afetadas. Outra ação seria o de tratar a questão do abastecimento interno como uma questão de segurança nacional, pois o país (e o povo) não pode ficar à mercê da ação espontânea do clima nem da ação direcionada dos monopólios sobre a oferta de alimentos. Por fim, a grande estratégia nacional deveria estar centrada numa política estatal de estoque de alimentos de todo tipo, inclusive carne. essa estratégia teria como centro de ação um choque de oferta de alimentos por parte do estado, como forma de jogar para baixo os preços dos alimentos neste momento. daí a necessidade de se recriar a cobal (criada por geisel), companhia brasileira de abastecimento;

Ora, se o Estado intervém no mercado de dólares, qual a razão em não intervir no mercado de grãos???

Valeu, Elias, tuas reflexões são muito úteis a um debate mais sério e profundo sobre os dilemas brasileiros. É bom para recusar esse reducionismo vulgar do pensamento econômico ortodoxo. Obrigado.

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Um comentário para “ O país precisa de estratégia, não de ortodoxia conservadora ”

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