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    O blog Projetos para o Brasil visa ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.

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Dilma X Serra: projetos e valores

Publicado por waltersorrentino em 07/10/2010

Muy amigo: FHC na campanha Serra

Muy amigo: FHC na campanha Serra

O oito anos de governo de FHC voltam ao proscênio. É a nova estratégia da oposição para o segundo turno. Não é crível que a oposição pense em vencer a partir do legado de FHC; ele próprio reconheceu que “as chances de Serra são mínimas”. Mais crível é a tentativa de soerguer a oposição para o futuro. Ela foi superada nas urnas – ao governo, senado e câmara dos deputados. Simbolicamente, muitas de suas lideranças mais expressivas tiveram negada a reeleição. E ficou sem bandeira a apresentar na campanha de Serra.

Isso é tanto melhor para politizar e disputar um projeto de nação entre dois campos políticos polares. Pois não se tratará apenas de disputar os votos de Marina – isso também – mas explicitar o que se quer para o Brasil, galvanizar forças para realizar esse projeto, forjar compromissos de amplos setores da nação em torno dele.

Por esse caminho Dilma tem as melhores condições para vencer. A partir dos 47% dos votos já obtidos, confirmá-los e por em movimento a força dos governadores, senadores e deputados eleitos para uma campanha vibrante e colada ao sentimento popular. Ao mesmo tempo, que reconstrua elos com segmentos médios, tradicionais e emergentes.

Quanto aos tradicionais, reconhecer e apoiar o anseio da sociedade em desnudar, apurar e punir os desvios com relação à coisa pública, doa a quem doer. Sobretudo nos grandes centros urbanos do sul e sudeste do país, é sentimento que tem importante peso na formação da opinião pública, amplificado porém pela grande mídia que o manipula facciosamente numa cruzada (pretensamente) moralista.

Já disse uma vez que a pior desmoralização da política é a que se realiza em nome de sua pretensa moralização, como faz a grande mídia brasileira, à revelia do eleitor. O problema, no Brasil, não é de atributo pessoal, mas do próprio sistema político. A legislação brasileira é até avançada; os mecanismos de fiscalização e o papel da Polícia Federal se aprimoraram no governo Lula. Mas a raiz é política. Argumenta-se que a exigência de governabilidade de um presidencialismo de coalizão alimenta o uso da máquina pública – aliás, ocorreu pesadamente no governo FHC quando nasceu o demotucanismo, se comprou a reeleição e se chegou ao limite da irresponsabilidade nas privatizações – e busca-se atribuir ao partido A ou B tal desvio. Mas o fundo do problema precisa ser atribuído ao sistema político, partidário e eleitoral. Sem valorizar os partidos políticos, mudar esse sistema só conduzirá a mais elitização restritiva da participação da sociedade. Como exemplo, o novo senador tucano eleito por SP propõe o sistema distrital com financiamento exclusivamente privado; pergunte-se a dez pessoas onde isso conduz e onze dirão o mesmo: bipolarização política e elitização do sistema partidário. Ao contrário, partidos políticos se fortalecem com voto em listas partidárias (mesmo combinada com a tradição de voto nominal) e financiamento público exclusivo (com pesada fiscalização). No sistema proporcional – que é o mais democrático para representar a nação – isso dá chances a todos e purga o sistema político. Eis um bom debate: que reforma política propõem os candidatos?

Certamente a questão ambiental é também tema emergente para segmentos esclarecidos da população. É bom. Entretanto, deve ter sido minoria na (mal) chamada “onda verde”. Além disso, nada nesse terreno é instransponível para a experiência do nosso campo nos últimos 8 anos nem para Dilma. O Brasil fez bom papel em Copenhague, onde liderou em termos políticos e morais (só não entrou no jogo estratégico dos EUA querendo isolar a China e outros países emergentes). Eis outro bom debate: a questão ambiental, para além de seu papel indispensável à preservação da vida no planeta, é certamente um dos terrenos de disputas estratégicas num mundo profundamente assimétrico em poder. Com FHC o país buscava (quase oficialmente) uma inserção subordinada no mundo, integrar-se à onda da globalização, liderada pelos EUA, o que não era nem é bom projeto para o Brasil haja vista os impasses aos quais conduziu a nação. E, no plano interno, a questão ambiental contempla enormes possibilidades de consenso entre desenvolvimento e preservação, não sacrificando um projeto nacional indispensável para o país ocupar seu lugar no mundo e o povo encontrar seu lugar digno na nação.

Já para outros setores médios, emergentes e mais aproximados das crenças católicas e evangélicas, o veneno posto foi subterrâneo, o aborto. Raros são os países onde há maiorias substanciais a favor ou contra o aborto. Em geral, as sociedades se polarizam. No Brasil também, embora não seja lugar onde se alimente ódios perenes e sectários. A oposição conseguiu isso: forjou um debate moral fora de lugar e de proporções, explorando pretensos conflitos religiosos, acirrando-os e com isso dividindo o povo.

A legislação brasileira é clara e inquestionável sobre o aborto em casos de risco de vida para a mãe ou de estupro. É avançada dentro do consenso possível na sociedade. A quem interessa violar esse consenso? É hora de discutir isso? A campanha presidencial é a ocasião para discutir isso? É um reclamo da sociedade? Nem uma coisa nem outras. Foi forjado pela grande mídia e pelos subterrâneos virais de uma campanha inescrupulosa. Não é uma questão que entrave o projeto nacional, e é impróprio ser transformado em tema de campanha presidencial. Se fosse o caso – que efetivamente não é – a sociedade proporia um plebiscito, mediante o Congresso Nacional, pois que não é o Executivo a quem cabe a iniciativa.

Enquanto isso, Dilma acerta em explicitar seu respeito à vida, própria da tradição e religiosidade brasileira, porque o aborto é, quase sempre, indesejável e um drama na vida das mulheres e dos casais. Repito: não é isso o que entrava o Brasil e não pode dividir o povo.

O que entrava é abortar o projeto nacional, soberano, democrático, desenvolvimentista, de integração do sub-continente. O que entrava o Brasil é dividir o povo, enfraquecer a nação. Combinadas as questões, certamente Serra não é a alternativa, malgrado sua capacidade pessoal, porque não concorda com elas e porque sua base de apoio já demonstrou, precisamente nos anos FHC, ter outro projeto, outro rumo a oferecer. Fizeram dos anos 90, anos de triunfalismo cosmopolita antinacional. Os tucanos tiveram sua chance. Desperdiçaram-na com privatizações contrárias ao interesse nacional, vulnerabilidade externa, inserção subordinada, arrocho fiscal e desmonte do Estado. Uma lástima.

Perderam. Deverão perder de novo, não pelo passado, mas porque não aggiornaram o projeto, enquanto o Brasil e o mundo mudaram aceleradamente. Os tucanos pisaram nos astros distraídos, esqueceram-se de ver o que ocorreu com o povo brasileiro. Escudaram-se na grande mídia açulando a matilha para ir ao segundo turno. Improvisarão uma terceira versão da estratégia eleitoral e um programa para o país. Serra tinha razão ao julgar melhor tentar vencer sem o chumbo de FHC no cangote, não deu. Agora tem que deixar a alma ao diabo. Mostrou-se mais apto a dividir a nação, primeiro passo para o insucesso do projeto nacional.

Que venha à tona o legado FHC. Dilma tem tudo a ganhar com a presença disso no debate eleitoral. E tem apoios para fazer uma campanha vibrante, dasperspectivas e valores da democracia, do amor ao povo e patriotismo, questões que só coexistem com uma nação forte, integrada e respeitada. Dilma, com o legado de Lula, é que a une.

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